Astronomia

A equação de Drake: um roteiro de incertezas para a busca de vida inteligente, não uma previsão

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Astrobiologia

A equação de Drake multiplica sete fatores para estimar quantas civilizações da Via Láctea emitem sinais detectáveis. Frank Drake a escreveu em 1961 como pauta de uma reunião sobre SETI, quando quase nenhum fator era conhecido, exceto a taxa de formação de estrelas. As estimativas de N vão de 1 a vários milhões conforme as suposições de quem calcula.

SETI é a sigla em inglês para a busca de inteligência extraterrestre, em geral por sinais de rádio. Em 1960, Drake fez uma busca desse tipo, o Projeto Ozma, e no ano seguinte reuniu cerca de uma dúzia de especialistas em Green Bank, na Virgínia Ocidental (EUA). Para organizar a conversa, escreveu uma fórmula: N = R* × fp × ne × fl × fi × fc × L. Cada letra é uma pergunta, da astronomia (quantas estrelas, quantas com planetas) à biologia (a vida surge? vira inteligência?) e à sociedade (a civilização emite sinais? por quanto tempo?). A fórmula não resolve nenhuma delas: dá nome e ordem às perguntas.

A conta dos calouros

Drake comparou a equação à conta do total de alunos de uma universidade: calouros por ano vezes anos de curso. Os seis primeiros fatores dão a taxa de “calouros” (civilizações novas por ano) e L, o tempo que cada uma permanece emitindo.

Sete perguntas, de graus muito diferentes de conhecimento

Os dois primeiros fatores são do domínio da astronomia: R* (estrelas formadas por ano) e fp (fração com planetas). ne pergunta quantos planetas por sistema têm ambiente adequado à vida. fl e fi pedem a probabilidade de a vida surgir e de virar vida inteligente. fc e L já dependem de escolhas e da duração de sociedades. Em 1961 só R* era conhecido; hoje há avanço em fp e, em menor grau, em ne. Os demais seguem sem medida.

O que a equação não faz: prever

Quem calcula N escolhe um valor para cada fator, e o resultado reflete o otimismo de quem escolheu. Um levantamento de Sandberg e colegas encontrou cálculos publicados que abrangem 11 ordens de grandeza. A fórmula organiza as perguntas e mostra quais pesam mais, mas com fatores sem medida não entrega um número confiável. É por isso que a própria instituição que a usa diz que ela não pode ser calculada com precisão.

O abuso mais comum: um número só

Dar um valor único a cada fator esconde a faixa de incerteza. No exemplo de brinquedo de Sandberg, Drexler e Ord, valores únicos preveem 100 estrelas com vida; com a incerteza simulada, a galáxia fica vazia em 21,45% das vezes. Por isso o silêncio do céu, discutido no paradoxo de Fermi, depende de como a incerteza é tratada. É um argumento dos autores, ainda sem aval consensual.

Como sabemos o que já foi medido

Fatores astronômicos viram dados. O Kepler observou 42.000 estrelas de tipo solar por quedas de brilho; os autores corrigiram o que o telescópio deixava de ver injetando quedas sintéticas e estimaram 22% de estrelas com planeta de tamanho terrestre na zona habitável. Microlentes gravitacionais, que sondam órbitas maiores, indicam planetas como regra. Nada disso diz se há vida: fl, fi e L seguem fora do alcance dessas medidas.

Como sabemos

A origem e a estrutura da equação vêm da própria instituição que a usa, e a crítica da incerteza vem de um estudo aberto, mas o resultado do modelo de Sandberg et al. é pré-publicação.

Fontes

  1. SETI Institute — The Drake Equation (SETI 101)
    Shostak, S. · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Future of Humanity Institute, University of Oxford (arXiv, pré-publicação) — Dissolving the Fermi Paradox
    Sandberg, A.; Drexler, E.; Ord, T. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Prevalence of Earth-size planets orbiting Sun-like stars
    Petigura, E. A.; Howard, A. W.; Marcy, G. W. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1319909110
  4. Nature (versão no arXiv) — One or more bound planets per Milky Way star from microlensing observations
    Cassan, A. et al. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature10684
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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