Ecologia

Plantas que vivem em cima de outras: como as epífitas obtêm água e nutrientes sem solo

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Epífitas crescem sobre outras plantas sem tirar delas o alimento, e a água é, segundo uma revisão clássica, a principal restrição ao seu crescimento. Elas aproveitam chuva, névoa e o pouco de nutriente que chega com poeira e detritos: bromélias guardam água entre as folhas e absorvem por tricomas foliares; muitas orquídeas usam o velame, uma camada morta da raiz.

Epífitas vasculares são plantas com vasos condutores que crescem sobre outras plantas e somam cerca de 10% das espécies de plantas vasculares. Sem raiz no solo, dependem do que cai ou escorre até elas: água da chuva e da névoa, e nutrientes escassos de poeira, folhas caídas e outros restos. Duas soluções bem estudadas são o tanque das bromélias, formado pelas bases sobrepostas das folhas, e o velame das orquídeas, tecido esponjoso e morto que reveste a raiz. Tricomas são pelos ou escamas da epiderme; nas bromélias, têm uma base viva e um escudo morto e servem à absorção. Há muito a esclarecer: as generalizações ainda são preliminares, e a contribuição de raízes e folhas é discutida.

Plantas do ar

Há bromélias do tipo atmosférico, sem tanque, com folhas de tricomas densos para retirar água da umidade e da névoa. Segundo um estudo genômico de 2024, elas costumam ter raízes pouco desenvolvidas ou ausentes e chegam a viver em fios de telefone.

Bromélias: o tanque e os tricomas

Em muitas bromélias epífitas, as bases das folhas se sobrepõem e formam um tanque que armazena água e nutrientes, inclusive aminoácidos que os tricomas podem absorver. Nas espécies sem tanque, as chamadas atmosféricas, os tricomas são densos e retiram água da umidade e da névoa. Um estudo com Vriesea gigantea indica que a base da folha, em contato com o tanque, teria mais tricomas e o ápice mais estômatos.

Orquídeas: o velame da raiz

O velame é uma epiderme esponjosa e morta que reveste a raiz de muitas orquídeas epífitas. Em experimentos com muitas espécies, ele absorveu soluções em segundos e levou horas para secar, e reteve íons com carga. A absorção de nutrientes mostrou duas fases, com transporte ativo eficiente em baixas concentrações. Isso apoia a hipótese de Went (1940) de que o velame capta as primeiras águas de uma chuva, as mais ricas em nutrientes. Os autores ressalvam que outras funções propostas ainda precisam de teste.

Como sabemos: o que foi medido e o que não foi

A conclusão sobre a água vem de uma revisão da literatura: os autores argumentam que a falta de água é a restrição mais relevante, mas ressalvam que o conhecimento é enviesado. A do velame vem de experimentos controlados com muitas orquídeas, que medem absorção, retenção e evaporação, não a captura em copas reais. A do tanque e dos tricomas vem de cultivo in vitro de plântulas, análise de enzimas e contagem de tricomas e estômatos. Em nenhum caso se mediu, em floresta, quanto cada rota contribui.

O que ainda se discute

Duas questões seguem abertas. A primeira é o papel das raízes das bromélias: uma introdução de 2018 cita estudos em que elas não absorvem, e o experimento do mesmo artigo, com duas espécies ornamentais, concluiu que são funcionais para o nitrogênio. A segunda é a origem do nitrogênio nas espécies atmosféricas: um estudo de 2024 encontrou bactérias fixadoras de nitrogênio na filosfera e as propõe como fonte possível, sem medir a fixação. Ambas ficam como hipóteses ou controvérsias, não como consenso.

Como sabemos

Os mecanismos (tanque, tricomas, velame) têm medições publicadas; o papel relativo de raiz e folha e o dos micróbios ainda é discutido, e duas fontes foram lidas só no resumo.

Em debate: Raízes ou folhas na absorção das bromélias epífitas

Fontes

  1. Journal of Experimental Botany — The physiological ecology of vascular epiphytes: current knowledge, open questions
    Zotz, G.; Hietz, P. · 2001 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1093/jexbot/52.364.2067
  2. Plants (Basel) — Impact of Land-Use Change on Vascular Epiphytes: A Review
    Krömer, T.; Einzmann, H. J. R.; Mendieta-Leiva, G.; Zotz, G. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.3390/plants14081188
  3. Oecologia — Aerial roots of epiphytic orchids: the velamen radicum and its role in water and nutrient uptake
    Zotz, G.; Winkler, U. · 2013 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1007/s00442-012-2575-6
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    Takahashi, C. A.; Ceccantini, G. C. T.; Mercier, H. · 2007 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S1677-04202007000200004
  5. Nature Communications — Tracing the evolutionary and genetic footprints of atmospheric tillandsioids transition from land to air
    Lyu, X.; Li, P.; Jin, L.; et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-024-53756-7
  6. Pesquisa Agropecuária Brasileira (SciELO) — Nitrogen efficiency indexes for evaluating nitrogen uptake and use in ornamental bromeliad's root system and tank
    Silva, K. G.; Ferreira, M. L.; Silva, E. A.; Kanashiro, S.; Camargo, P. B.; Tavares, A. R. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1590/S0100-204X2018000600006
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)

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