Zoologia

Emilie Snethlage: o catálogo das aves amazônicas e a travessia entre o Xingu e o Tapajós, em 1909

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Emilie Snethlage, doutora alemã contratada pelo Museu Goeldi, chegou a Belém em 1905 e fez da ornitologia amazônica seu ofício. Reuniu o Catálogo das aves amazônicas (1914), descreveu cerca de 60 espécies e subespécies de aves e, em 1909, atravessou a região entre os rios Xingu e Tapajós, acompanhada só por indígenas. Dirigiu o museu a partir de 1914, em meio à Primeira Guerra e a uma crise econômica no Pará.

Emilie Snethlage nasceu em 1868 em Kraatz, na Prússia, e doutorou-se em Freiburg em 1904. Em agosto de 1905 chegou a Belém para trabalhar no Museu Paraense, hoje Museu Goeldi, como assistente da Seção de Zoologia. Dirigiu essa seção a partir de 1907 e, com a morte do diretor Jacques Huber, em 1914, assumiu a direção do museu. Sua carreira combinou duas frentes: a coleta em campo, em viagens por rios da Amazônia, e a sistematização do que o museu já tinha reunido sobre as aves da região. Em 1922 passou ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, como naturalista viajante, e morreu em Porto Velho em 1929, durante uma expedição ao rio Madeira.

A 120ª ave, dez dias antes

Na última expedição, Snethlage coletou em Guajará-Mirim a 120ª ave da viagem, em 15 de novembro de 1929, anotada no caderno de campo. Morreu em Porto Velho dez dias depois. Os documentos sobre a morte dela, guardados no Museu Nacional, escaparam do incêndio de 2018.

Como ela trabalhava em campo

Segundo Junghans, o campo marcou toda a vida profissional de Snethlage, em geral com a companhia de um preparador. Sanjad e colegas descrevem viagens sozinha, com um jovem assistente ou com indígenas, de saias longas, por várzeas, igapós e serras; Junghans diz que ela usava calças compridas apenas em campo, e as duas versões não coincidem. Na carta de 1929, a rotina era entrar na mata de manhã e, de volta, preparar as aves, tomar notas e preencher etiquetas. Segundo o obituário, ela mesma preparava as aves que abatia.

A travessia de 1909

Snethlage planejava ir do Tapajós ao Xingu, mas não achou acompanhantes e acabou fazendo o percurso no sentido inverso. No Iriri, recrutou quatro homens e três mulheres Kuruaya, caminhou nove dias por terra, cruzou uma serra de 400 a 500 m até a região da nascente do Jamauchim (Jamanxim) e desceu esse rio por mais 15 dias. Coudreau supusera uma ligação entre os rios dessa região; ela já sabia que não existia. O resultado foi o traçado do curso do Jamanxim.

Como sabemos o que sabemos sobre ela

O relato de 1909 chega a nós por duas vias: o artigo publicado por Snethlage em 1912 (que não consultamos) e o obituário de 1930, escrito pelo sobrinho Emil-Heinrich, na tradução de Sanjad e colegas. O diário de 1907 e as cartas aos irmãos se perderam na Segunda Guerra; só sobrou uma cópia datilografada. Documentos sobre a morte dela, achados em 2018 no Museu Nacional, sobreviveram ao incêndio por estarem em outro prédio. A documentação é irregular e depende, em boa parte, de textos de familiares.

A direção do museu entre guerra e crise

Com a morte de Huber, em 1914, Snethlage assumiu a direção interina, poucos meses antes da Primeira Guerra. Em 1917, com o Brasil em guerra com a Alemanha, foi afastada da direção; em 1918, do museu todo, até o fim das hostilidades. Voltou em 1919 e saiu em 1921. Junghans fala em exoneração depois de acusações; o obituário cita a crise da borracha. Em 1922, foi para o Museu Nacional.

Como sabemos

Fatos centrais conferidos em três artigos de história da ciência, mas a travessia de 1909 vem de segunda mão (obituário traduzido e artigo de Junghans), sem o texto original de Snethlage.

Fontes

  1. História, Ciências, Saúde – Manguinhos (Fiocruz), v. 15, supl., p. 243-255 — Emilia Snethlage (1868-1929): uma naturalista alemã na Amazônia
    Junghans, Miriam · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/S0104-59702008000500013
  2. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 8, n. 1, p. 195-221 — Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage (inclui a tradução do obituário de 1930)
    Sanjad, Nelson; Snethlage, Rotger Michael; Junghans, Miriam; Oren, David Conway · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/s1981-81222013000100012
  3. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, e202501 (PMC) — O último voo: documentos inéditos relativos ao falecimento e ao espólio de Emília Snethlage, 1868-1929
    Crozariol, Marco Aurélio · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1590/S0104-59702025000100018
  4. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930), Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz — Museu Paraense de História Natural e Etnografia (verbete)
    Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz · s.d. (cópia arquivada em 2012-06-10) · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
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