Ciências da Terra
Elevado do Rio Grande: rochas indicam origem vulcânica, mas a hipótese de crosta continental segue em debate
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Mar profundo
O Elevado do Rio Grande, a cerca de 1.200 km da costa do Sudeste, é em grande parte um platô vulcânico: as lavas datadas têm de cerca de 87 a 44 milhões de anos e vêm da pluma de Tristan-Gough junto à dorsal Meso-Atlântica. Parte dos geólogos propõe que ele guarda um fragmento de continente, mas as lavas analisadas não mostram contaminação por crosta continental. O debate segue aberto.
O Elevado do Rio Grande é um platô submarino que sobe de cerca de 5.000 m de profundidade até menos de 600 m em alguns pontos. No modelo vulcânico, ele se formou onde a pluma do manto de Tristan-Gough ficava junto à dorsal Meso-Atlântica, numa situação parecida com a da Islândia hoje (ver o post sobre a Islândia). No modelo alternativo, parte dele seria um microcontinente: um fragmento de crosta continental solto da margem brasileira quando Gondwana se partiu (ver o post sobre a abertura do Atlântico Sul). Para escolher entre os dois, os geólogos examinam a lava: o magma que atravessa crosta continental se mistura com ela e carrega essa marca química.
Argila vermelha entre derrames de lava
Em escarpas a cerca de 650 m de profundidade, filmagens de ROV mostram argila vermelha, com mais de 10 cm de espessura em vários pontos, presa entre derrames de lava sucessivos. Camadas assim indicam uma pausa nas erupções e, segundo um estudo de 2023, intemperismo da lava exposta ao ar.
Como sabemos: dragar, filmar e datar
As rochas vêm de dragas, que arrancam pedaços do fundo, e do poço 516 do Deep Sea Drilling Project, que recuperou basalto do embasamento do oeste. Em 2022, 83 amostras foram analisadas; só as 56 com perda ao fogo abaixo de 5% entraram na interpretação, para reduzir o efeito da alteração pela água do mar. Veículos submarinos mapearam e filmaram escarpas onde as lavas aparecem em corte. As idades citadas vêm do método argônio-argônio. O limite: a alteração pela água do mar muda a química das rochas, por isso só amostras pouco alteradas contam.
Toleítico e alcalino: duas fases de lava
As lavas se separam por razões entre elementos pouco afetados pela água do mar, como Nb, Zr, Ti e terras raras. O leste e as partes mais antigas do oeste, com 87 a 80 milhões de anos no poço 516, têm basaltos toleíticos ligados à pluma junto à dorsal. As lavas alcalinas do oeste, de 46 a 44 milhões de anos, vieram de graus menores de fusão sob litosfera mais espessa, talvez durante o rifteamento do platô. Isso mostra um platô construído em mais de uma fase.
O teste do contaminante
Lava que sobe por crosta continental se mistura com ela, e a razão Nb/Th cai conforme o magma esfria e perde MgO. Em lavas do Enxame de Diques de Florianópolis, contaminadas por até 15% de granito, esse padrão aparece. Nas lavas do Elevado a razão Nb/Th ficou praticamente constante. O resultado é forte contra assimilação nas amostras, mas não exclui um fragmento continental fundo ou não amostrado.
O outro lado: blocos antigos e gravidade
O argumento continental tem duas peças: blocos de gabro, granito e rochas metamórficas dragados no topo do oeste, com zircões de 480 a 2.200 milhões de anos, e uma anomalia Bouguer negativa, que indica déficit de massa. Os autores do estudo de 2022 julgam que os granitos dragados no topo são provavelmente material trazido por gelo flutuante, e citam estudos para os quais a gravidade sozinha não define a composição.
Uma ilha no Eoceno?
Argilas vermelhas ricas em caulinita entre derrames, com índice de alteração química de 93, foram lidas em 2023 como solo formado por intemperismo ao ar de lavas de cerca de 44 milhões de anos. Se for isso, partes do platô emergiram antes de afundar. A latitude reconstruída é de cerca de 40° S, subtropical úmida, não tropical. O mesmo artigo reconhece que sedimento marinho é uma explicação alternativa e que a posição do platô na época é incerta.
Como sabemos
A origem vulcânica e as idades têm dois artigos abertos lidos; a hipótese continental está descrita por segunda mão, via o artigo que a critica.
Em debate:
Em debate:
- Fato estabelecido: O Elevado do Rio Grande fica a cerca de 1.200 km da costa do Sudeste do Brasil e sobe de cerca de 5.000 m de profundidade até menos de 600 m em algumas partes do setor oeste. [2] Introduction, Rio Grande Rise evolution
Contexto: Distâncias e profundidades atuais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O Elevado do Rio Grande tem sido interpretado ou como um platô oceânico ligado à pluma do manto de Tristan-Gough, ou como um fragmento de crosta continental desprendida. [1] Abstract
Contexto: Descreve o estado do debate até 2022. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Entre cerca de 120 e 80 milhões de anos atrás, a pluma de Tristan-Gough ficava sob a dorsal Meso-Atlântica ou muito perto dela, e formou a Cadeia de Walvis e o oeste do Elevado do Rio Grande numa situação semelhante à da Islândia hoje. [1] Introduction
Contexto: Modelo de reconstrução de placas adotado pelos autores. · Limitações: Reconstrução de placas; as idades vêm de modelos e de datações pontuais. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Basaltos toleíticos do embasamento do oeste do Elevado, recuperados no poço 516 do Deep Sea Drilling Project, têm idades argônio-argônio de cerca de 87 a 80 milhões de anos. [2] Introduction, Rio Grande Rise evolution
Contexto: Um único poço, no setor oeste. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O leste do Elevado, de direção norte-sul, se formou entre cerca de 83 e 70 milhões de anos atrás, depois do oeste. [2] Introduction, Rio Grande Rise evolution
Contexto: Setor leste. · Limitações: Idade de formação por datações pontuais e modelos de placas citados de trabalhos anteriores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As lavas do leste e as mais antigas do oeste são basaltos toleíticos formados junto à dorsal; as mais jovens do oeste e da cadeia de montes Jean Charcot são alcalinas, formadas por menores graus de fusão sob litosfera mais espessa. [1] Results, Geochemistry
Contexto: Amostras dragadas do leste, do oeste e da cadeia Jean Charcot, mais o poço 516. · Limitações: A classificação usa elementos que se supõe resistentes à alteração pela água do mar. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O oeste do Elevado registra uma segunda fase de magmatismo alcalino no Eoceno, de cerca de 46 a 44 milhões de anos. [2] Introduction, Rio Grande Rise evolution
Contexto: Setor oeste. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2022, a análise geoquímica de lavas dragadas do Elevado do Rio Grande não encontrou evidência clara de restos de crosta continental sob ele. [1] Results, Geochemistry
Contexto: Lavas dragadas em 2018 (expedição MSM82) e rochas do poço 516. · Limitações: Ausência de evidência nas lavas amostradas não exclui fragmento continental profundo ou não amostrado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Se houvesse crosta continental sob as lavas, algumas delas deveriam mostrar assimilação dessa crosta, com a razão Nb/Th caindo à medida que o MgO diminui; isso é esperado em lavas contaminadas, mas não apareceu nas do Elevado. [1] Discussion
Contexto: Comparação com lavas do Enxame de Diques de Florianópolis, no Brasil, contaminadas por granitos. · Limitações: Teste feito sobre as amostras disponíveis; depende de quão representativas elas são. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Os autores do estudo de 2022 concluem que o platô é dominantemente vulcânico. [1] Discussion
Contexto: Interpretação dos autores sobre o conjunto das lavas. · Limitações: Há estudos que propõem o contrário (ver a11). · Divergência publicada entre grupos; o estudo geoquímico aqui citado está do lado vulcânico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Outros estudos apontam crosta continental: dragagens no topo do oeste recuperaram blocos arredondados de gabro, granito e rochas metamórficas, com zircões de 480 a 2.200 milhões de anos, e há uma anomalia Bouguer negativa, que indica déficit de massa. [1] Introduction
Contexto: Relatado em Hoyer et al. 2022, que cita o estudo de datação de Santos et al. 2019 (não lido diretamente). · Limitações: Descrição de segunda mão: o lado continental é relatado por uma fonte que o critica. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Os autores do estudo geoquímico de 2022 julgam que os granitos dragados no topo do Elevado provavelmente são material trazido por gelo flutuante, e citam estudos segundo os quais a gravimetria sozinha não decide a composição da crosta. [1] Discussion
Contexto: Interpretação dos autores do estudo de 2022, sem teste direto. · Limitações: Hipótese não comprovada: a origem dos blocos continua sem medição direta. · Sustentada por forma e cobertura dos blocos, não por datação do transporte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Argilas vermelhas com cerca de 10 cm ou mais entre derrames de lava do oeste do Elevado, a cerca de 650 m de profundidade, foram interpretadas em 2023 como produto de intemperismo ao ar de lavas eocênicas, antes da subsidência do platô. [2] Introduction
Contexto: Uma amostra de argila dragada a cerca de 650 m, no oeste do Elevado. · Limitações: O próprio artigo admite, como alternativa, sedimento marinho vindo do continente; considera-o menos provável pela profundidade e pela mineralogia. · Interpretação com mineralogia, geoquímica e magnetismo de rocha; uma única amostra analisada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Na reconstrução do clima, durante o Eoceno médio o Elevado ficava numa zona subtropical úmida de latitude média, cerca de 40,6 a 38,5° S, e alguns vulcões teriam emergido como ilhas antes de erosão e subsidência. [2] Discussion
Contexto: Reconstrução paleoclimática e paleotopográfica citada de trabalhos anteriores. · Limitações: A frase sobre ilhas é de segunda mão (o artigo cita trabalho anterior); não há medição direta da altura acima do mar. · Não é "ilha tropical": a paleolatitude citada é de latitude média. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Communications Earth & Environment — Mantle plume and rift-related volcanism during the evolution of the Rio Grande Rise
Hoyer, P. A. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s43247-022-00349-1 - Scientific Reports — Red clays indicate sub-aerial exposure of the Rio Grande Rise during the Eocene volcanic episode
Srivastava, P. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-46273-y
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)