Zoologia
Elefantes se comunicam com roncos graves demais para o ouvido humano, que podem viajar quilômetros
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Boa parte da conversa dos elefantes passa despercebida por nós. Seus roncos mais graves, a maioria entre 14 e 24 Hz, ficam abaixo do que o ouvido humano capta. Em noites frias e sem vento da savana, modelos acústicos indicam que esses chamados podem alcançar mais de 10 km. A vibração também corre pelo chão, e elefantes reagem a ela. E, em 2024, um estudo no Quênia trouxe evidência de que elefantes africanos chamam uns aos outros por algo parecido com nomes.
A descoberta começou com uma sensação. Em 1984, no zoológico de Portland, nos Estados Unidos, a pesquisadora Katy Payne sentiu um latejar no ar perto de dois elefantes-asiáticos, um macho e uma fêmea, separados por uma parede de concreto. Quatro meses depois ela voltou com equipamento para medir infrassom, ao lado de William Langbauer e Elizabeth Marshall Thomas, e registrou chamados que o ouvido humano não alcança. O artigo saiu em 1986: os elefantes eram os primeiros mamíferos terrestres conhecidos a produzir infrassom. A distância que esses chamados alcançam depende do clima. Nos anos 1990, medições no Parque Nacional de Etosha, na Namíbia, mostraram que inversões de temperatura ao entardecer podem mais que dobrar o alcance desses chamados à noite. A vibração dos chamados também corre pelo solo, uma pista que Caitlin O'Connell-Rodwell seguiu em Etosha.
Um chamado que não imita o chamado
Golfinhos e papagaios chamam um indivíduo imitando o som típico dele. Nos elefantes do Quênia, o chamado dirigido a alguém não se parecia mais com a voz desse indivíduo do que com a de outros. É como nos nomes humanos, que não imitam o som de quem é nomeado, e os autores dizem que isso provavelmente não depende de imitação.
Um som que se sente
Katy Payne vinha de quinze anos estudando o canto das baleias-jubarte quando, em 1984, sentiu o ar latejar perto de dois elefantes-asiáticos no zoológico de Portland. Quatro meses depois, com ajuda de biólogos acústicos da Cornell e equipamento para medir infrassom, voltou e gravou chamados entre 14 e 24 Hz, que duravam de 10 a 15 segundos. O artigo de 1986 sugeria que esses chamados podiam ajudar a coordenar grupos separados ou escondidos por vegetação densa.
O clima decide o alcance
O alcance real de um ronco depende do ar. Em Etosha, na Namíbia, meteorologistas mediram as camadas de ar que se formam ao entardecer, mais frias junto ao chão. Num modelo acústico, essas inversões de temperatura mais que dobraram o alcance dos chamados. As melhores condições aparecem uma a duas horas após o pôr do sol, em noites limpas, frias e calmas, quando o alcance passa de 10 km.
Ouvir com as patas
Em 1992, observando elefantes num bebedouro de Etosha, Caitlin O'Connell-Rodwell notou um comportamento curioso: os animais se inclinavam para a frente, na ponta das patas, às vezes erguendo uma delas. Anos depois, sua equipe transformou chamados de alarme gravados em vibrações do solo e as enviou ao bebedouro. Os elefantes reagiram aos alarmes de grupos conhecidos, ficando imóveis ou indo embora mais cedo, e ignoraram os de grupos estranhos.
Um chamado para cada um
Em Samburu e Amboseli, no Quênia, Michael Pardo e colegas analisaram roncos de elefantes-africanos dirigidos a indivíduos conhecidos. Um algoritmo previu o destinatário pela estrutura do som, e, em testes com 17 elefantes, cada um respondeu mais depressa e com mais chamados quando ouvia um ronco originalmente dirigido a ele. Os pesquisadores ainda não sabem onde, dentro do ronco, está o 'nome'.
Como sabemos
As afirmações vêm dos artigos originais (1986, 1995, 2024), de páginas da Cornell, de Stanford e da Colorado State University; o ponto mais novo, os 'nomes', está marcado como evidência de um único estudo.
Em debate: O estudo de 2024 é recente e mostra que os chamados são dirigidos a indivíduos específicos, mas os autores ainda não sabem em que parte do ronco está o 'nome' nem como separá-lo das outras informações que o chamado carrega. Chamar isso de 'nome' é uma analogia dos próprios pesquisadores, que falam em chamados 'parecidos com nomes'; o resultado ainda precisa ser replicado em outras populações. Em 2025 a revista publicou uma correção de autores ao artigo, cujo conteúdo não foi consultado.
- Fato estabelecido: Em 1984, no zoológico de Portland, Katy Payne sentiu, mais do que ouviu, os chamados de baixa frequência de dois elefantes-asiáticos, um macho e uma fêmea, separados por uma parede de concreto. [2]
Relato da própria Katy Payne na página do Elephant Listening Project da Universidade Cornell. - Fato estabelecido: Quatro meses depois, com equipamento para medir infrassom, Payne voltou ao zoológico e, com colegas como Elizabeth Marshall Thomas e William Langbauer, fez as gravações que levaram à descoberta da comunicação infrassônica dos elefantes. [2] [1]
- Fato estabelecido: Antes dos elefantes, Katy Payne passou quinze anos, a partir dos anos 1960, estudando os sons das baleias, trabalho que levou à descoberta do canto das baleias-jubarte. [2]
- Fato estabelecido: Em 1986, Payne, Langbauer e Thomas publicaram em Behavioral Ecology and Sociobiology chamados de elefantes-asiáticos em cativeiro com frequências abaixo do alcance da audição humana, a maioria entre 14 e 24 Hz e com 10 a 15 segundos de duração; com o elefante mais próximo a 5 m do microfone, atingiam de 85 a 90 dB. [1]
- Fato estabelecido: Segundo o artigo de 1986, os elefantes foram os primeiros mamíferos terrestres registrados produzindo infrassom. [1]
Afirmação válida para a época da publicação. - Hipótese: O artigo de 1986 propõe que esses chamados podem ser importantes para coordenar o comportamento em vegetação densa ou entre grupos separados. [1]
Hipótese dos autores em 1986; estudos posteriores de alcance e de playback reforçaram o uso a distância. - Evidência forte: Em Etosha, inversões de temperatura que se formam antes do pôr do sol fazem o alcance dos chamados mais que dobrar à noite; nas condições ótimas, uma a duas horas após o pôr do sol, o alcance passa de 10 km. [5]
Resultado de modelo acústico alimentado por medições meteorológicas, não de rastreamento direto de elefantes respondendo a 10 km. - Fato estabelecido: Caitlin O'Connell-Rodwell notou em 1992, em Etosha, o comportamento que a levou a estudar a comunicação dos elefantes pelo solo. [6]
- Evidência forte: Chamados de alarme convertidos em vibrações do solo provocaram reação dos elefantes de Etosha apenas quando vinham de grupos conhecidos; os de grupos desconhecidos foram ignorados. O estudo saiu em 2007 no Journal of the Acoustical Society of America. [6]
- Fato estabelecido: Ao receber vibrações do solo, os elefantes se inclinavam para a frente, na ponta das patas, às vezes levantando uma delas. [6]
- Evidência forte: Em 2024, Pardo e colegas publicaram na Nature Ecology & Evolution evidência de que elefantes-africanos selvagens se dirigem uns aos outros com chamados específicos para cada indivíduo, comparáveis a nomes, com dados de Samburu e Amboseli, no Quênia. [3] [4]
Os próprios autores falam em chamados 'parecidos com nomes'; ainda não se sabe em que parte do chamado o 'nome' está. - Evidência forte: Um modelo de aprendizado de máquina previu o destinatário de um chamado a partir de sua estrutura acústica, com 27,5% de acerto, acima do esperado pelo acaso. [3] [4]
O percentual vem do comunicado da Colorado State University; o valor de referência do acaso não foi conferido no artigo completo, que é pago. - Evidência forte: Em experimentos de playback com 17 elefantes, os animais se aproximaram do alto-falante 128 segundos antes e vocalizaram 87 segundos antes ao ouvir chamados originalmente dirigidos a eles, e produziram 2,3 vezes mais vocalizações. [4] [3]
- Consenso científico: A maioria dos chamados dos elefantes são roncos graves, em parte abaixo do alcance da audição humana, que carregam informação sobre identidade, idade, sexo e estado emocional de quem chama. [4] [1]
- Evidência forte: Golfinhos e papagaios chamam um indivíduo imitando o som dele; nos elefantes, o chamado dirigido a alguém não se parecia mais com os chamados desse indivíduo do que com os de outros, o que indica que provavelmente não depende de imitação. [3] [4]
Fontes
- Behavioral Ecology and Sociobiology (Springer), vol. 18, p. 297–301, 1986 — Infrasonic calls of the Asian elephant (Elephas maximus)
consultada em 05/10/2026 - Cornell Lab of Ornithology, Universidade Cornell — The Elephant Listening Project: About
consultada em 05/10/2026 - Nature Ecology & Evolution, vol. 8, p. 1353–1364, 2024 — African elephants address one another with individually specific name-like calls
consultada em 05/10/2026 - Colorado State University — African elephants address one another with name-like calls − similar to humans
consultada em 05/10/2026 - Journal of Experimental Biology, vol. 198, p. 939–951, 1995 (resumo no PubMed) — Atmospheric controls on elephant communication
consultada em 05/10/2026 - Stanford Medicine, Universidade Stanford — Caller ID in the wild: African elephants communicate by ground vibration, Stanford researcher finds
consultada em 05/10/2026
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