Física

Água quente congela mais rápido que a fria? O efeito Mpemba, de um estudante da Tanzânia às medições de 2016

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Ciência do cotidiano

Em 1963, o estudante tanzaniano Erasto Mpemba notou que uma mistura quente congelou antes de outra fria. Medições cuidadosas posteriores mostram, na maioria dos casos, o contrário: a água inicialmente mais quente demora mais para chegar a 0 °C. Se o efeito aparece, depende de como se define "congelar" e de detalhes do experimento, e não há consenso de que seja um fenômeno robusto.

O "efeito Mpemba" é a afirmação de que a água inicialmente mais quente pode esfriar até uma dada temperatura, ou congelar, antes de uma amostra idêntica que começou mais fria. À primeira vista parece impossível: a água quente teria de passar primeiro pela temperatura da fria. Mas a pergunta só faz sentido com condições bem definidas (massa, recipiente, ambiente de resfriamento) e com um critério para "congelou": chegar a 0 °C, aparecer o primeiro cristal de gelo ou virar sólido por inteiro. Esses critérios dão respostas diferentes, e é aí que a discussão se complica.

A história é mais antiga que Mpemba

Aristóteles já descrevia, por volta de 350 a.C., pescadores de Ponto jogando água quente sobre o gelo para fixar varas. No século XIII, Roger Bacon discordou: em dois vasos, disse ele, a fria congela antes.

Um estudante, um professor que riu e um visitante

Segundo a revisão de Jeng, Mpemba perguntou ao professor por que sua mistura quente congelara antes. A resposta foi que aquilo era "física de Mpemba", não a universal. Só ao perguntar a um professor visitante, Denis Osborne, a observação foi testada: um técnico repetiu o experimento e viu o mesmo. O artigo conjunto saiu em 1969. A revisão lembra que desconfiar de um resultado que contraria a teoria vigente não é, em si, falha: o problema é quando a dúvida vira deboche.

O que significa "congelar primeiro"?

Burridge e Linden dividem o processo em duas etapas: esfriar a água até 0 °C e depois congelá-la. Mpemba e Osborne mediam o tempo para o congelamento começar. Mas congelar a água a 0 °C exige tanta energia quanto esfriá-la de 80 °C a 0 °C, então a segunda etapa dilui qualquer vantagem inicial. E o início do gelo depende de pontos de nucleação (impurezas, imperfeições do recipiente), difíceis de controlar. A definição escolhida pode mudar a resposta.

Um centímetro faz diferença

Nas medições de 2016, o termômetro ficava em alturas controladas dentro da amostra. Ao simular um erro de 1 cm na posição do sensor, os dados do próprio grupo passaram a parecer prova do efeito Mpemba. Parte dos estudos que o relataram não informava a altura de medição. Esse é o ponto central: um pequeno viés de medida pode inverter um resultado quando as diferenças de tempo são pequenas.

Superresfriamento: a explicação que ainda se discute

A água pode ficar abaixo de 0 °C sem congelar, e a temperatura em que o gelo começa varia entre amostras. Brownridge propõe que a água quente, em certas condições, congela primeiro por começar a cristalizar em temperatura mais alta. Já Jeng considera o papel do superresfriamento incerto, e Burridge e Linden não encontram efeito até 0 °C. O tema segue em aberto: "água quente congela mais rápido" é verdadeiro ou falso conforme as condições que se especificam.

Como sabemos

Os fatos históricos e as medições de 2016 estão bem sustentados, mas o status do efeito na água continua em debate e parte dos números vem de segunda mão.

Em debate: Burridge e Linden (2016) não encontraram evidência de efeito significativo ao comparar o tempo até 0 °C; Brownridge (2010) relata congelamento mais rápido da água quente em condições com superresfriamento; a revisão de Jeng descreve resultados inconsistentes e teoria não resolvida.

Fontes

  1. Scientific Reports (Nature Publishing Group) — Questioning the Mpemba effect: hot water does not cool more quickly than cold
    Burridge, H. C.; Linden, P. F. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/srep37665
  2. Southern Illinois University Edwardsville (preprint arXiv; publicado no American Journal of Physics, 2006) — Hot water can freeze faster than cold?!?
    Jeng, M. · 2005 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. State University of New York at Binghamton (preprint arXiv) — A search for the Mpemba effect: When hot water freezes faster then cold water
    Brownridge, J. D. · 2010 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Anomalous heating in a colloidal system
    Kumar, A.; Chétrite, R.; Bechhoefer, J. · 2022 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2118484119
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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