Genética

Edição de bases e prime editing: como mudar uma letra do DNA sem cortar as duas fitas

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Duas técnicas derivadas do CRISPR-Cas9 mudam o DNA sem cortar as duas fitas. A edição de bases (Komor e colegas, 2016) troca uma letra por outra, como C por T, com uma Cas9 inativada ligada a uma enzima que modifica a base. O prime editing (Anzalone e colegas, 2019) corta só uma fita e copia a mudança de um molde de RNA, o que permite também inserções e deleções pequenas.

O CRISPR-Cas9 usa uma proteína, a Cas9, levada por um RNA-guia até uma sequência do DNA, onde normalmente corta as duas fitas (quebra de fita dupla). A célula conserta o corte de forma imprecisa e costuma deixar inserções ou deleções ao acaso, os indels. Trocar uma única letra, que é o que muitas variantes ligadas a doenças exigiriam, é pouco eficiente por esse caminho. As duas técnicas deste post contornam o corte duplo: usam uma Cas9 modificada que não corta as duas fitas e a ligam a uma enzima que faz a mudança, uma desaminase na edição de bases ou uma transcriptase reversa no prime editing. O mecanismo da Cas9 em si está no post "crispr". Os números abaixo vêm de experimentos em células cultivadas, não de uso em pessoas.

Menos indels, mais troca certa

Em células humanas em cultura, o editor de bases BE3 gerou até 37% de sequências com a troca desejada e 1,1% de indels em média, em seis locais. Cas9 com molde de DNA para reparo dirigido, em três locais, deu 0,5% de troca e 4,3% de indels (Komor et al., 2016).

Por que evitar o corte duplo

A Cas9 comum corta as duas fitas do DNA. A célula conserta o corte principalmente por junção de extremidades não homóloga, que costuma deixar inserções ou deleções ao acaso. Para trocar uma letra é preciso o reparo dirigido por homologia, que usa um molde de DNA e, segundo Komor e colegas, era ineficiente nas condições relevantes para terapias. Anzalone e colegas somam que quebras de fita dupla se associam a misturas complexas de produtos. É esse o problema que as duas técnicas atacam.

Edição de bases: uma enzima no lugar da tesoura

Na edição de bases, uma Cas9 inativada se liga ao DNA guiada por um RNA, mas não corta. Fundida a uma desaminase de citosina, ela converte uma citosina em uracila, que a célula lê como timina: o resultado final é C→T, ou G→A na fita oposta. Como a reparação tende a desfazer a edição, as versões BE2 e BE3 acrescentaram um inibidor da enzima que remove a uracila e, na BE3, um corte numa só fita para favorecer a troca. Editores de adenina, de 2017, completam as quatro transições.

O que a edição de bases não faz

A janela de ação é de cerca de cinco nucleotídeos, e o editor converte a maioria ou todas as citosinas dentro dela; então uma citosina vizinha à desejada também pode ser alterada. Nos testes de 2016, houve edição fora do alvo em parte dos sítios onde a Cas9 comum também age (16 de 34 com BE1 e BE2; 17 de 34 com BE3). E as oito transversões ficavam fora de alcance em 2019. Uma revisão de 2021 resume o quadro: só parte das conversões, numa janela estreita.

Prime editing: escrever a partir de um molde de RNA

O prime editor une uma Cas9 que corta só uma fita a uma transcriptase reversa, enzima que copia RNA em DNA. O pegRNA aponta o alvo e carrega a sequência nova. A Cas9 faz um corte numa fita, a ponta livre vira iniciador e a transcriptase escreve a edição. Em 2019, foram mais de 175 edições em células humanas, entre inserções de até 44 pares de bases, deleções de até 80 e as 12 trocas de uma letra. O PE3 chegou em geral a 20% a 50% de edição, com 1% a 10% de indels, em células HEK293T.

Como sabemos, e o que ainda não sabemos

Os números vêm de experimentos em tubo de ensaio e em linhagens celulares, lidos por sequenciamento de alta capacidade, que conta a fração de leituras com a troca e com indels. O desenho mede eficiência e subprodutos nos locais testados. A edição fora do alvo foi checada em sítios já conhecidos da Cas9: em 4 locais, o prime editing alterou 3 de 16, e só 1 com 1% ou mais. Esses dados não permitem concluir sobre eficiência em tecidos de um organismo, e este post não trata de uso clínico.

Como sabemos

Os dois artigos originais foram abertos e os trechos conferidos, mas as fontes de 2017 e 2021 só foram lidas no resumo, e os dados são de células em cultura.

Fontes

  1. Nature (manuscrito de autor no PubMed Central) — Programmable editing of a target base in genomic DNA without double-stranded DNA cleavage
    Komor, A. C.; Kim, Y. B.; Packer, M. S.; Zuris, J. A.; Liu, D. R. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature17946
  2. Nature (manuscrito de autor no PubMed Central) — Search-and-replace genome editing without double-strand breaks or donor DNA
    Anzalone, A. V.; Randolph, P. B.; Davis, J. R.; Sousa, A. A.; Koblan, L. W.; Levy, J. M.; Chen, P. J.; Wilson, C.; Newby, G. A.; Raguram, A.; Liu, D. R. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-019-1711-4
  3. Nature (manuscrito de autor no PubMed Central) — Programmable base editing of A•T to G•C in genomic DNA without DNA cleavage
    Gaudelli, N. M.; Komor, A. C.; Rees, H. A.; Packer, M. S.; Badran, A. H.; Bryson, D. I.; Liu, D. R. · 2017 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/nature24644
  4. Laboratory Animals (PubMed Central) — Base editing and prime editing in laboratory animals
    Caso, F.; Davies, B. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1177/0023677221993895
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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