Grandes descobertas

O eclipse de 1919 e a luz curvada: como Sobral e Príncipe testaram a relatividade geral

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em 29 de maio de 1919, duas expedições britânicas fotografaram estrelas ao redor do Sol eclipsado, uma em Sobral, no Ceará, e outra na ilha do Príncipe, no Golfo da Guiné. A relatividade geral previa que a luz estelar fosse desviada por cerca de 1,75 segundo de arco; a gravitação newtoniana, metade disso. As medidas ficaram perto do valor de Einstein.

A relatividade geral, publicada por Einstein em 1915, previa que a gravidade do Sol curvasse a trajetória da luz de estrelas que passam rente a ele. A deflexão na borda do disco solar seria de cerca de 1,75" (segundos de arco); um cálculo newtoniano daria cerca de 0,87". Como o brilho do Sol esconde as estrelas, o teste exigia um eclipse total. O de 29 de maio de 1919 cruzava o Atlântico equatorial, com estrelas brilhantes ao fundo do céu. Duas equipes foram enviadas: Andrew Crommelin e Charles Davidson a Sobral, com apoio de astrônomos do Observatório Nacional liderados por Henrique Morize, e Arthur Eddington e Edwin Cottingham ao Príncipe. Frank Dyson, astrônomo real, coordenou a empreitada de Londres.

O telescópio pequeno que salvou Sobral

Em Sobral foram levados dois instrumentos. O astrográfico de 13 polegadas não funcionou bem e seus resultados foram descartados. Já o refrator de 4 polegadas, levado como reserva, forneceu a medida mais precisa: 1,98 ± 0,12 segundo de arco.

A previsão que podia falhar

Newton e Einstein davam respostas diferentes e mensuráveis: cerca de 0,87 e 1,75 segundo de arco na borda do Sol. Era um teste arriscado, porque um resultado em torno de 0,87" teria favorecido a gravitação newtoniana. A diferença entre as duas hipóteses é pequena, da ordem de 1" no céu, e por isso o teste dependia de fotografias nítidas e de comparação cuidadosa entre chapas.

Sobral, no Ceará

Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional, recomendou Sobral por causa da perspectiva de céu limpo no fim de maio. Os britânicos chegaram a Sobral em 30 de abril de 1919, vindos de Camocim. Os instrumentos foram montados junto à antiga pista do Jockey Club, e a equipe brasileira instalou seu observatório de campanha perto da igreja do Patrocínio, para observar a cromosfera e a coroa solar. O dia amanheceu nublado e abriu.

Ilha do Príncipe

Eddington e Cottingham foram ao Príncipe, na costa oeste da África, e se instalaram na Roça Sundy, plantação cujo dono, o Sr. Carneiro, os recebeu como hóspedes. Na manhã do eclipse choveu forte; o céu abriu perto do meio-dia e as nuvens ainda afetaram as imagens. Eddington fez 16 fotografias. Com cinco estrelas aproveitáveis, obteve 1,61 ± 0,30 segundo de arco, valor mais incerto que o de Sobral.

O que veio depois

Os resultados foram apresentados em Londres em 6 de novembro de 1919. As chapas originais de Sobral ficam sob guarda do MAST e do Observatório Nacional, e uma chapa do eclipse foi restaurada digitalmente pelo Observatório de Heidelberg. A mesma deflexão da luz é hoje a base das lentes gravitacionais, usadas na astronomia, mas esta publicação trata apenas do teste de 1919.

Como sabemos

Datas, locais, previsões e resultados numéricos conferem entre o preprint histórico, o ESO, o MacTutor e a Pesquisa Fapesp.

Fontes

  1. ESO — Highest resolution image of the 1919 solar eclipse (potw1926a)
    consultada em 06/10/2026
  2. MacTutor, Universidade de St Andrews — Arthur Stanley Eddington
    consultada em 06/10/2026
  3. arXiv (preprint de história da física) — Shadow of the Moon and general relativity: Einstein, Dyson, Eddington and the 1919 light deflection
    consultada em 06/10/2026
  4. Revista Pesquisa Fapesp — The eclipse that confirmed Einstein's theory
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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