Química

A água seria dois líquidos? O segundo ponto crítico, os experimentos com água super-resfriada e o que falta

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

A hipótese do segundo ponto crítico propõe que a água super-resfriada e sob pressão teria dois estados líquidos, de baixa e de alta densidade, que se fundiriam num só acima de um ponto crítico. Ela liga as anomalias da água aos dois gelos amorfos e, segundo uma revisão de 2016, é o cenário favorecido pela maior parte das evidências experimentais. Mas o ponto estaria numa faixa em que a água congela em microssegundos, nunca foi medido e cenários rivais seguem em discussão.

Água super-resfriada é a que continua líquida abaixo de 0 °C. Em água pura ela só vai até cerca de 232 K (−41 °C), onde o gelo nucleia por conta própria. Entre essa temperatura e cerca de 160 K, onde o gelo amorfo cristaliza, fica a 'terra de ninguém', em que a água líquida dura frações de microssegundo. Duas formas de gelo amorfo, o de baixa densidade (LDA) e o de alta densidade (HDA), se transformam uma na outra de modo abrupto. A hipótese é que esses vidros sejam versões congeladas de dois líquidos, que se separariam só sob pressão e a baixa temperatura. O post sobre ligações de hidrogênio trata das anomalias que a hipótese tenta explicar; aqui o foco é a proposta e os experimentos.

Aquecer gelo para ver água

Como a água pura congela em microssegundos na faixa crítica, uma equipe fez o caminho inverso: aqueceu gelo amorfo com um laser infravermelho e mediu a estrutura com raios X antes que o gelo se formasse.

A proposta e os gelos amorfos

Em 1992, simulações com o modelo ST2 mostraram uma transição entre um líquido de baixa e um de alta densidade, terminando num ponto crítico em cerca de 235 K e 200 MPa. A ideia ganhou apoio dos gelos amorfos: nos anos 1980, Mishima e colegas viram o HDA virar LDA de modo abrupto. Ambos são redes tetraédricas, mas no HDA há cinco primeiros vizinhos. Para a hipótese, o salto HDA–LDA seria o prolongamento, em baixa temperatura, da transição entre os dois líquidos. [a1][a2][a3]

A terra de ninguém e os números incertos

O ponto crítico estaria entre 232 K e 160 K, faixa em que o gelo se forma depressa demais para observar a água líquida. Modelos baseados em dados medidos o põem em torno de 220 K e 13–72 MPa, diferente do valor das simulações com ST2; nessas condições o gelo começa a surgir em 1 a 10 μs. Um dos primeiros sinais experimentais veio de gelos de alta pressão em emulsão, com um ponto possível a 110 MPa e 220 K, mas emulsões podem não representar a água em volume. [a4][a5][a13]

Como sabemos: vidros, descompressão e laser

Três linhas de experimento testam a hipótese. Gotas vitrificadas e pressurizadas mostram que os gelos amorfos se ligam a líquidos, não a cristais distorcidos. A descompressão rápida de gelo de alta pressão deu uma forma de baixa densidade que, pela cinética, seria um líquido, mas de estrutura diferente da água comum. E o aquecimento de LDA por laser indicou separação em dois líquidos em menos de 100 ns, com sinal de alta densidade pequeno. Nenhuma observa o ponto crítico em si. [a9][a11][a12]

O que ainda falta provar

Cenários sem ponto crítico explicam as mesmas anomalias sem transição líquido-líquido, e Binder argumenta que, num líquido metaestável, um ponto crítico verdadeiro não pode se manifestar por inteiro. Simulações discordam: uma viu coexistência por 800 ns, outra a viu sumir em caixas maiores. A objeção de que os gelos amorfos seriam cristais distorcidos foi enfrentada pelas gotas vitrificadas, mas o consenso sobre o ponto crítico ainda não existe. A explicação por entropia e entalpia segue como hipótese. [a6][a7][a8][a10][a14]

Como sabemos

Os fatos históricos e as medidas vêm de uma revisão e de três artigos originais abertos; a existência do segundo ponto crítico é, por natureza, questão aberta.

Em debate: A maioria dos autores da revisão de 2016 prefere o cenário com ponto crítico líquido-líquido, mas a questão é dada como não resolvida; há cenários sem ponto crítico, objeções de princípio e simulações que discordam entre si.

Fontes

  1. Chemical Reviews (American Chemical Society) — Water: A Tale of Two Liquids
    Gallo, P.; Amann-Winkel, K.; Angell, C. A.; Anisimov, M. A.; Caupin, F.; Chakravarty, C.; Lascaris, E.; Loerting, T.; Panagiotopoulos, A. Z.; Russo, J.; Sellberg, J. A.; Stanley, H. E.; Tanaka, H.; Vega, C.; Xu, L.; Pettersson, L. G. M. · 2016 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1021/acs.chemrev.5b00750
  2. Nature Communications (Universidade de Estocolmo e colaboradores) — Liquid-liquid phase separation in supercooled water from ultrafast heating of low-density amorphous ice
    Amann-Winkel, K.; Kim, K. H.; Giovambattista, N.; et al.; Poole, P. H.; Nilsson, A. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41467-023-36091-1
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — Experimental evidence of low-density liquid water upon rapid decompression
    Lin, C.; Smith, J. S.; Sinogeikin, S. V.; Shen, G.; et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1716310115
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences (Universidade de Innsbruck) — Experimental evidence for glass polymorphism in vitrified water droplets
    Bachler, J.; Giebelmann, J.; Loerting, T. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2108194118
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