Genética

O dogma central da biologia molecular: o que Crick propôs e o que não proibiu

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Genética

O dogma central, enunciado por Francis Crick em 1957–58, não diz que a informação flui só de DNA para RNA e para proteína. Diz que, quando a informação de sequência chega a uma proteína, não sai mais de lá: proteína→proteína e proteína→ácido nucleico são proibidos. RNA→DNA, a transcriptase reversa de 1970, nunca esteve vetado, e os príons, que mudam só a forma de uma proteína, também não violam a regra.

Em 1957, quando o RNA mensageiro ainda não havia sido identificado, Francis Crick propôs que a função principal do material genético é controlar a síntese de proteínas. Chamou de "informação" a determinação de uma sequência: de bases no ácido nucleico, de aminoácidos na proteína. Nesse sentido, a sequência de uma proteína pode ser determinada por um ácido nucleico, mas o caminho inverso, de proteína para DNA ou RNA, ou de proteína para proteína, seria impossível. Ele deu a essa ideia o nome de dogma central e admitiu que a evidência direta era mínima. É um limite sobre o que a proteína não pode fazer, não a lista de etapas DNA → RNA → proteína que se ensina na escola.

Uma palavra mal escolhida

Crick contou depois que não entendia bem o sentido de "dogma": Jacques Monod precisou explicar. Um dogma não é especulação, e ele queria dizer o contrário. Ele mesmo admitiu que "hipótese básica" teria sido mais exato e teria evitado muito mal-entendido.

O que o enunciado proíbe e o que deixa aberto

Crick separou as transferências em três grupos. Quatro eram conhecidas: DNA→DNA (replicação), DNA→RNA, RNA→proteína e RNA→RNA (vírus de RNA copiando-se). Duas não tinham evidência, mas ele as julgava possíveis: DNA→proteína e RNA→DNA. Três eram impossíveis, por falta de evidência e de mecanismo bioquímico: proteína→proteína, proteína→RNA e proteína→DNA. O dogma é só esta última lista.

De onde veio o DNA → RNA → proteína

Segundo Cobb, a versão de três etapas foi popularizada pelo livro de Watson de 1965, e "DNA faz RNA faz proteína" já circulava desde Brachet, em 1960. Descreve o caminho mais comum, mas transforma um limite sobre a proteína numa sequência obrigatória. Por isso a Nature intitulou o comentário de 1970 "Central dogma reversed", embora Crick tenha respondido que nunca dissera ser RNA→DNA impossível. John Coffin lembra que a maioria dos cientistas o lera como proibição total; historiadores ainda debatem.

Como sabemos: a transcriptase reversa

Desde o início dos anos 1960, Temin propunha que o vírus do sarcoma de Rous, de RNA, deixava uma cópia de DNA, o provírus; a ideia foi recebida com ceticismo. Em 1970, Mizutani e Temin, em Wisconsin, e Baltimore, no MIT, mostraram, de modo independente, que partículas de retrovírus fabricavam DNA marcado a partir do RNA do vírus. Os dois artigos saíram em sequência na Nature em 27 de junho. Spiegelman repetiu o resultado em um dia. Temin, Baltimore e Dulbecco dividiram o Nobel de 1975.

Príons: muda a forma, não a sequência

Na resposta de 1970, Crick citou a scrapie, em que uma proteína parecia agir como agente infeccioso. Em 1967, Alper mostrou que o agente resistia a radiações que inativam ácidos nucleicos; Griffith propôs uma proteína que se replica mudando de forma. Prusiner chamou o agente de príon. A proteína PrP vem de um gene do hospedeiro: camundongos sem ele resistem à inoculação. O príon induz a forma normal a dobrar-se na anormal; segundo Cobb, não há síntese nova, e nada passa da proteína ao DNA.

Como sabemos

Enunciado, listas de transferências e recepção vêm de textos abertos (PLOS Biology, Phil Trans R Soc B, Mol Biol Cell, Int J Cell Biol) que citam Crick diretamente; o texto de 1958 não foi lido no original.

Em debate: Crick afirmou em 1970 que nunca havia excluído RNA→DNA; John Coffin lembra que a maioria dos cientistas da época leu o dogma como proibição de todas as reversões, e que historiadores ainda debatem a intenção. O texto de 1958, citado por Takeuchi, só proíbe a saída de informação de proteínas.

Fontes

  1. PLOS Biology — 60 years ago, Francis Crick changed the logic of biology
    Cobb, M. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pbio.2003243
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B — Generalizing the central dogma as a cross-hierarchical principle of biology
    Takeuchi, N. · 2025 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2024.0296
  3. Molecular Biology of the Cell — 50th anniversary of the discovery of reverse transcriptase
    Coffin, J. M. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1091/mbc.E20-09-0612
  4. International Journal of Cell Biology — From prion diseases to prion-like propagation mechanisms of neurodegenerative diseases
    Acquatella-Tran Van Ba, I. et al. · 2013 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1155/2013/975832
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)

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