Genética
Humanos e chimpanzés: o famoso “98,8% de DNA em comum” mede só um tipo de diferença
Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
O número famoso vem de comparar, letra por letra, os trechos dos dois genomas que se alinham: ali, cerca de 1,2% das bases difere. Quando se contam também trechos inteiros inseridos ou apagados, a identidade cai para cerca de 96%. Genomas completos publicados em 2025 mostram ainda que regiões muito repetitivas nem se alinham de forma simples. Cada porcentagem responde a uma pergunta diferente.
O primeiro rascunho do genoma do chimpanzé saiu em 2005, na Nature, feito por um consórcio internacional apoiado pelo NHGRI, o instituto de genômica dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA. O DNA veio do sangue de Clint, um chimpanzé macho do Centro Yerkes, em Atlanta. A comparação achou cerca de 35 milhões de bases diferentes nas partes alinháveis e cerca de 5 milhões de pontos com inserções ou deleções. Em 2025, Yoo e colegas publicaram genomas completos, de ponta a ponta, de seis espécies de grandes macacos. Neles, de 12,5% a 27,3% de um genoma não se alinha de forma simples, um a um, com outro. Nenhum desses números desmente o parentesco: o mesmo estudo usou as comparações para datar a separação entre as linhagens humana e do chimpanzé entre 5,5 e 6,3 milhões de anos atrás.
A cicatriz do cromossomo 2
Humanos têm 46 cromossomos; chimpanzés, gorilas e orangotangos, 48. O cromossomo 2 humano surgiu da fusão de dois cromossomos ancestrais. A prova, publicada em 1991: no meio dele há sequências de telômero, que normalmente ficam só nas pontas, viradas uma contra a outra. Neandertais e denisovanos também tinham 46.
De onde vem o 98,8%
O artigo de 2005 na Nature mediu quantas vezes uma única letra do DNA difere entre os genomas humano e do chimpanzé nas regiões que se alinham. A taxa média foi de 1,23% entre cópias, e no máximo 1,06% corresponde a diferenças fixas entre as espécies; o resto é variação dentro de cada uma. O Smithsonian traduz isso como cerca de 1,2% de diferença, ou 98,8% de identidade. Para comparar: dois humanos quaisquer diferem, em média, em cerca de 0,1%; humanos e gorilas, em cerca de 1,6%, medindo do mesmo jeito.
O que a cifra deixa de fora
Além das trocas de letras, há trechos inseridos ou apagados numa linhagem e não na outra. São bem menos eventos, cerca de 5 milhões contra 35 milhões de trocas pontuais, mas cobrem mais DNA. O consórcio estimou que cada genoma tem de 40 a 45 milhões de bases exclusivas, num total de cerca de 90 milhões, perto de 3% dos dois genomas. Por isso o NHGRI resumiu o resultado de 2005 como 96% de sequência idêntica. Os dois números estão certos; medem coisas diferentes.
Genomas completos, números maiores
Os genomas de 2005 tinham lacunas justamente nas regiões mais repetitivas. Em 2025, Yoo e colegas publicaram na Nature genomas completos de seis grandes macacos, com 215 cromossomos lidos de ponta a ponta. Nas comparações, de 12,5% a 27,3% de um genoma não se alinhou de forma simples, um a um, com outro. A divergência medida por essas lacunas afeta de 5 a 15 vezes mais megabases que as trocas de letras. Os autores atribuem isso a regiões que evoluem rápido e, em parte, a limites técnicos do alinhamento.
Pequenas diferenças, efeitos grandes
Nos genes, a semelhança é alta: 29% das proteínas são idênticas nas duas espécies, e a mediana é de duas trocas de aminoácido por gene. Mas a distribuição não é uniforme. Genes de fatores de transcrição, que regulam outros genes, acumularam 47% mais mudanças na linhagem humana. Há também perdas: o gene caspase-12 deixou de funcionar em humanos. Em 2005, os próprios autores admitiram que a comparação ainda não respondia à pergunta central, o que nos torna humanos.
A cicatriz do cromossomo 2
Em 1991, uma equipe da Universidade Yale achou, na banda 2q13 do cromossomo 2 humano, duas séries de repetições de telômero viradas uma contra a outra. Telômeros protegem as pontas dos cromossomos; no meio de um, indicam que duas pontas se colaram. Estudos posteriores localizaram também restos de um segundo centrômero, desativado. Os cromossomos equivalentes do chimpanzé, hoje chamados 2A e 2B, seguem separados. A fusão é anterior aos neandertais e denisovanos, que também tinham 46 cromossomos, mas sua data é incerta: as estimativas vão de 0,74 milhão a 5–6 milhões de anos.
Como sabemos
Os números vêm diretamente dos artigos originais (Nature 2005 e 2025, PNAS 1991) e de comunicados do NHGRI e do Smithsonian; as divergências entre porcentagens são explicadas, não escondidas.
Em debate: Não há uma única “porcentagem de semelhança”. O resultado depende do que se conta: só substituições de uma base nas regiões alinháveis (cerca de 1,2% de diferença), inserções e deleções (que elevam a diferença para cerca de 4%), ou também as regiões repetitivas e estruturalmente variáveis que genomas completos revelaram em 2025. Os autores de 2025 atribuem parte da divergência por lacunas a limitações técnicas de alinhamento. Nenhum desses números desmente o parentesco: o próprio estudo de 2025 os usa para datar a separação das linhagens.
Em debate: A data da fusão que formou o cromossomo 2 humano é incerta: estimativas publicadas vão de 0,74 milhão a 5–6 milhões de anos atrás.
- Evidência forte: Substituições de uma única base ocorrem a uma taxa média de 1,23% entre cópias dos genomas humano e do chimpanzé, com 1,06% ou menos correspondendo a divergência fixa entre as espécies. [1]
- Evidência forte: Medindo o mesmo tipo de diferença, humanos e chimpanzés diferem em cerca de 1,2%, o que equivale a cerca de 98,8% de identidade; entre humanos a diferença média é de cerca de 0,1%. [3]
- Estimativa: Contando inserções e deleções, humanos e chimpanzés compartilham cerca de 96% de sua sequência. [2] [1]
O artigo de 2005 estima as diferenças por inserção e deleção em cerca de 3% de ambos os genomas; o Smithsonian fala em 4 a 5% adicionais. - Estimativa: Cerca de 35 milhões de pares de bases diferem nas partes compartilhadas dos dois genomas, além de cerca de 5 milhões de pontos com inserção ou deleção. [2] [1]
Contagem aproximada do artigo de 2005, sobre um genoma de rascunho. - Estimativa: Cada genoma tem 40 a 45 milhões de pares de bases (Mb) de sequência eucromática exclusiva da espécie; as diferenças por inserção e deleção somam cerca de 90 Mb, ou cerca de 3% de ambos os genomas. [1]
Estimativa do consórcio de 2005, corrigida para a cobertura incompleta do rascunho. - Fato estabelecido: O genoma do chimpanzé publicado em 2005 foi obtido do DNA de Clint, chimpanzé macho do Yerkes National Primate Research Center, em Atlanta. [2]
- Fato estabelecido: O trabalho de 2005 foi do Chimpanzee Sequencing and Analysis Consortium, publicado na Nature, com apoio do NHGRI. [2] [1]
- Evidência forte: As proteínas codificadas são idênticas nas duas espécies em 29% dos genes; a mediana é de duas substituições de aminoácido por gene. [1] [2]
- Evidência forte: Elementos SINE foram três vezes mais ativos na linhagem humana do que na do chimpanzé. [1]
- Estimativa: Estimam-se cerca de 200 cópias processadas (retrocópias) de genes exclusivas no genoma humano e cerca de 300 no do chimpanzé. [1]
Valores corrigidos pela cobertura incompleta do genoma do chimpanzé em 2005. - Evidência forte: O gene caspase-12 foi perdido na linhagem humana. [2]
- Evidência forte: Genes de fatores de transcrição acumularam 47% mais mudanças de aminoácidos na linhagem humana que nos ortólogos do chimpanzé. [1]
- Fato estabelecido: Os pesquisadores afirmaram em 2005 que a comparação ainda não respondia o que nos torna humanos. [2]
- Fato estabelecido: Em 2025, Yoo e colegas publicaram na Nature genomas completos de seis espécies de grandes macacos (chimpanzé, bonobo, gorila, orangotango-de-bornéu, orangotango-de-sumatra e siamang), com 215 cromossomos sequenciados de ponta a ponta sem lacunas. [4]
- Evidência forte: Entre 12,5% e 27,3% de um genoma de grande macaco não se alinhou ou não foi consistente com um alinhamento simples um a um. [4]
Faixa para comparações entre genomas de grandes macacos, não um número exclusivo do par humano-chimpanzé. - Evidência forte: A divergência por lacunas afeta 5 a 15 vezes mais megabases que as diferenças de uma base, em parte por regiões de evolução rápida e em parte por limitações técnicas de alinhamento em regiões repetitivas. [4]
- Estimativa: Regiões estruturalmente divergentes somam em média 327 Mb (10%) por linhagem de grande macaco. [4]
Média entre linhagens de grandes macacos no estudo de 2025. - Estimativa: O estudo de 2025 datou a separação entre humanos e chimpanzés entre 5,5 e 6,3 milhões de anos atrás. [4]
Intervalo entre estimativa mínima e máxima do próprio estudo; outras datações variam. - Fato estabelecido: Humanos têm 46 cromossomos; os grandes macacos, 48. [6] [7]
- Consenso científico: O cromossomo 2 humano resultou da fusão de dois cromossomos ancestrais que permaneceram separados na linhagem do chimpanzé (chamados 2A e 2B). [1] [5]
- Evidência forte: Em 1991, IJdo e colegas identificaram no cromossomo 2 humano (banda 2q13) repetições de telômero em arranjo cabeça com cabeça, relíquia de uma fusão telômero-telômero. [5]
- Evidência forte: O cromossomo 2 guarda também restos degenerados de um centrômero ancestral. [6]
- Evidência forte: Neandertais e denisovanos também tinham 46 cromossomos. [7]
- Em debate: As estimativas da data da fusão variam de 0,74 milhão de anos a 5–6 milhões de anos; um estudo de 2022 propôs 0,9 milhão de anos (intervalo de 0,4 a 1,5). [6] [7]
Diferentes métodos dão datas muito diferentes. - Estimativa: Humanos e bonobos diferem em cerca de 1,2%, e humanos e gorilas em cerca de 1,6%, no mesmo tipo de comparação. [3]
Valores do Smithsonian para diferenças de substituição de bases.
Fontes
- Nature (Chimpanzee Sequencing and Analysis Consortium), cópia hospedada pelo NHGRI — Initial sequence of the chimpanzee genome and comparison with the human genome
consultada em 03/10/2026 - National Human Genome Research Institute (NIH) — New Genome Comparison Finds Chimps, Humans Very Similar at the DNA Level
consultada em 03/10/2026 - Smithsonian National Museum of Natural History, Human Origins Program — Genetics
consultada em 03/10/2026 - Nature — Complete sequencing of ape genomes (Yoo et al., Nature 641, 2025), texto integral via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 1991 — Origin of human chromosome 2: an ancestral telomere-telomere fusion
consultada em 03/10/2026 - BMC Genomics — Revised time estimation of the ancestral human chromosome 2 fusion (BMC Genomics, 2022), texto integral via Europe PMC
consultada em 03/10/2026 - Genome Biology — PhaseDancer: a novel targeted assembler of segmental duplications unravels the complexity of the human chromosome 2 fusion going from 48 to 46 chromosomes in hominin evolution (Genome Biology, 2023)
consultada em 03/10/2026
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