Paleontologia
Até onde vai o DNA antigo: dentes de mamute com mais de 1 milhão de anos e por que dinossauros ficam de fora
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Fósseis
Os dados genômicos mais antigos de um indivíduo, publicados em 2021, vêm de molares de mamute da Sibéria com mais de 1 milhão de anos; em 2022, DNA ambiental de cerca de 2 milhões de anos foi lido em sedimento da Groenlândia. A molécula se fragmenta com o tempo: um modelo indica que, mesmo a −5 °C, nada legível sobraria após cerca de 6,8 milhões de anos. Os dinossauros não avianos estão muito além disso.
O DNA é uma molécula química e, depois da morte, se quebra: enzimas de micróbios, o desgaste mecânico e reações como a hidrólise e a oxidação cortam a fita em pedaços cada vez menores. O que se recupera de um fóssil antigo são fragmentos curtos, que os laboratórios sequenciam e remontam por comparação com genomas de parentes vivos. O frio retarda esse processo, e por isso os recordes vêm do permafrost, o solo congelado do Ártico. A pergunta sobre o limite tem duas partes: o que já foi lido (mamutes e sedimento) e o que a química permite esperar de ossos de dezenas de milhões de anos, como os de dinossauros.
Dois milhões de anos, mas um frio que “encurta” o tempo
No sítio da Groenlândia, de média anual de −17 °C, os autores calcularam que os 2 milhões de anos de DNA equivalem a apenas 2,7 mil anos de degradação a 10 °C, cerca de 741 vezes menos.
Por que a molécula se parte e quanto tempo ela dura
O DNA é uma cadeia de unidades químicas que, depois da morte, é cortada por enzimas de micróbios, pelo desgaste físico e por reações como hidrólise e oxidação. Em 158 ossos de moa da Nova Zelândia, a meia-vida de um trecho de 242 pares de bases foi de 521 anos a 13,1 °C. Isso não quer dizer que tudo desapareça em poucos milênios: o frio desacelera as reações, e o modelo desses autores prevê que, a −5 °C, a fita se reduziria a uma única ligação após cerca de 6,8 milhões de anos. É uma extrapolação, e a idade sozinha explica só parte da variação entre amostras.
Como sabemos que o DNA é de mamute e tem mais de 1 milhão de anos
A equipe extraiu DNA de três molares com métodos pensados para fragmentos muito curtos e comparou as leituras com o genoma do elefante-africano. Um indício de que o material é antigo é o padrão de danos: o DNA dos molares mais velhos era mais fragmentado e tinha mais desaminação de citosinas que o de mamutes recentes de permafrost. Para a idade, há duas réguas. A geologia dá 1,2 a 1,1 milhão de anos para Krestovka; o relógio molecular, calibrado com amostras datadas por radiocarbono, dá 1,65 milhão, com margem grande. As duas se sobrepõem, mas não coincidem.
DNA ambiental: 2 milhões de anos no sedimento, com limites
Na Formação Kap København, no norte da Groenlândia, o DNA foi extraído de sedimento, não de um osso. Ele aparece em fragmentos curtos de muitas espécies misturadas, o que permite listar plantas e animais de uma floresta boreal aberta, com mastodonte, rena e lebre, mas não reconstruir o genoma de um indivíduo. A identificação do mastodonte depende de duas variantes de um só nucleotídeo. Para os autores, a sobrevivência provavelmente se deve à adsorção do DNA em minerais, e o frio do sítio deixou a idade térmica em apenas 2,7 mil anos.
E os dinossauros? Idade demais, nenhuma sequência
Os dinossauros não avianos são muito mais velhos que qualquer DNA lido: o Hypacrosaurus estudado em 2020 tem cerca de 75 milhões de anos, e os autores de 2012 consideram extremamente improvável amplificar DNA de um osso de 80 a 85 milhões. Em nossa conta, 75 milhões é cerca de 11 vezes o limite de 6,8 milhões do modelo e cerca de 60 vezes a idade dos molares de 1,2 milhão. Na cartilagem de Hypacrosaurus, corantes de DNA marcaram células, mas os autores dizem que só o sequenciamento confirmaria a origem. As proteínas, mais resistentes, são outro assunto.
Como sabemos
Os recordes de mamute e de sedimento e o modelo de decaimento vêm de artigos abertos lidos; a parte dos dinossauros é, por natureza, ausência de sequência mais um modelo e uma hipótese dos autores.
Em debate:
- Fato estabelecido: Três molares de mamutes do Pleistoceno Inferior e Médio da Sibéria foram sequenciados, e dois deles têm mais de 1 milhão de anos. [1] Resumo
Contexto: Mamutes da Sibéria oriental (van der Valk et al. 2021). · Limitações: A idade de cada amostra tem incerteza; ver a3. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O molar de Krestovka foi datado geologicamente em 1,2 a 1,1 milhão de anos, e o artigo de 2022 o descreve como o DNA mais antigo obtido até então a partir de um dente. [1] Métodos / contexto das amostras [2] Seção “DNA preservation”
Contexto: Datação por estratigrafia e fauna associada, não pelo DNA. · Limitações: O mesmo artigo de 2022 relata DNA ambiental mais velho (a6), sem contradição: são tipos de material diferentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: As idades estimadas pelo relógio molecular (comparação de mutações) para os três molares foram de 1,65 milhão (Krestovka), 1,34 milhão (Adycha) e 0,87 milhão de anos (Chukochya), com intervalos de incerteza amplos. [1] Results, “DNA-based age estimates”
Contexto: Método bayesiano calibrado com amostras de idade conhecida por radiocarbono. · Limitações: Para Krestovka o relógio molecular (1,65 milhão) é mais velho que a data geológica (1,2 a 1,1 milhão); os intervalos de 95% se sobrepõem. · Estimativa estatística; não é medição direta da idade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Antes desse estudo, os dados genômicos mais antigos já recuperados vinham de um cavalo de 560 a 780 mil anos. [1] Resumo
Contexto: Situação descrita pelos autores em 2021. · Limitações: Superlativo vale para a data do artigo; busca em bases abertas por 2022–2026 não achou registro genômico mais antigo, mas isso não substitui revisão específica. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O DNA dos molares mais antigos estava bem mais fragmentado e com mais danos químicos (desaminação de citosinas) do que o de mamutes do Pleistoceno Tardio de permafrost. [1] Results
Contexto: Comparação entre amostras da mesma pesquisa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Um registro de DNA ambiental (eDNA, DNA extraído do sedimento e não de um osso) da Formação Kap København, no norte da Groenlândia, foi datado em cerca de 2 milhões de anos e descreve plantas e animais da época. [2] Abstract
Contexto: Sedimento marinho raso do Plio-Pleistoceno do norte da Groenlândia (Kjær et al. 2022). · Limitações: Os dados são de fragmentos curtos de DNA em mistura, não de genomas de indivíduos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O DNA ambiental revelou lebre e DNA mitocondrial de animais como mastodontes, renas, roedores e gansos. [2] Abstract
Contexto: Ecossistema que os autores descrevem como sem análogo atual. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A identificação do mastodonte repousa em muito pouco material: a posição na árvore evolutiva depende de apenas duas variantes de um único nucleotídeo. [2] Results, mastodon mitogenome
Contexto: Leituras de DNA mitocondrial de unidades B2 e B3. · Limitações: Os próprios autores sinalizam a fragilidade; o resultado é sugestivo, não conclusivo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores propõem que a sobrevivência desse DNA no sedimento provavelmente se deve à ligação com superfícies de minerais. [2] Abstract
Contexto: Mecanismo de preservação em sedimento, distinto do de osso. · Limitações: É explicação provável, não demonstrada diretamente neste sítio. · Hipótese dos autores, escrita com “probably”. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: No sítio da Groenlândia, o frio faz o DNA envelhecer menos: a idade térmica calculada é de 2,7 mil anos, equivalente a 10 °C constantes, cerca de 741 vezes menor que os 2,0 milhões de anos reais. [2] Seção “DNA preservation”
Contexto: Cálculo dos autores com temperatura média anual de −17 °C. · Limitações: Supõe que o local permaneceu congelado durante todo o período. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O DNA se degrada com o tempo por ação de enzimas de micróbios, fragmentação mecânica e reações químicas espontâneas como hidrólise e oxidação. [2] Seção “DNA preservation”
Contexto: Mecanismos gerais de degradação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 158 ossos de moa datados por radiocarbono, a meia-vida de um trecho de DNA mitocondrial de 242 pares de bases foi de 521 anos, em condições de enterramento a 13,1 °C. [3] Abstract
Contexto: Moas (aves extintas) da Nova Zelândia, temperatura efetiva de 13,1 °C (Allentoft et al. 2012). · Limitações: Valor de um conjunto de ossos de um só lugar; a meia-vida muda com temperatura e condições do sítio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O modelo de decaimento desses autores prevê que, mesmo nas melhores condições de preservação (−5 °C), nenhuma ligação intacta restaria na fita de DNA após 6,8 milhões de anos. [3] Discussion
Contexto: Extrapolação do modelo de fragmentação por depurinação. · Limitações: Modelo de 2012, extrapolado dos moas; a idade explica só parte da variação (R² = 0,39 no artigo), e o limite real depende do sítio. · Estimativa de modelo; não é um recorde observado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Os autores consideram “extremamente improvável” amplificar um fragmento de DNA de 174 pares de bases de um osso do Cretáceo com 80 a 85 milhões de anos. [3] Discussion
Contexto: Comentário sobre uma alegação anterior de DNA de osso do Cretáceo. · Limitações: É conclusão do modelo, não prova de impossibilidade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Em cartilagem de um dinossauro Hypacrosaurus de cerca de 75 milhões de anos, células isoladas reagiram a duas substâncias que se ligam ao DNA, mas os autores ressalvam que só o sequenciamento confirmaria que o material é do dinossauro. [4] Discussion
Contexto: Cartilagem de filhote de Hypacrosaurus stebingeri, Formação Two Medicine, Montana (Bailleul et al. 2020). · Limitações: A coloração indica um marcador químico compatível com DNA, não uma sequência. · Hipótese dos autores; não houve sequência de DNA de dinossauro neste estudo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature (Centre for Palaeogenetics, Estocolmo) — Million-year-old DNA sheds light on the genomic history of mammoths
van der Valk, T. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-021-03224-9 - Nature (Universidade de Copenhague) — A 2-million-year-old ecosystem in Greenland uncovered by environmental DNA
Kjær, K. H. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-022-05453-y - Proceedings of the Royal Society B — The half-life of DNA in bone: measuring decay kinetics in 158 dated fossils
Allentoft, M. E. et al. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2012.1745 - National Science Review (Academia Chinesa de Ciências) — Evidence of proteins, chromosomes and chemical markers of DNA in exceptionally preserved dinosaur cartilage
Bailleul, A. M.; Zheng, W.; Horner, J. R.; Hall, B. K.; Holliday, C. M.; Schweitzer, M. H. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1093/nsr/nwz206
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 11; conferência de trechos automatizada)