Genética

Uma floresta com mastodontes no norte da Groenlândia: o que o DNA ambiental de 2 milhões de anos revelou

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Genética

Sedimento da Formação Kap København, no norte da Groenlândia, guardou DNA de cerca de 2 milhões de anos que descreve uma floresta boreal aberta de choupo, bétula e tuia, com lebre, rena, roedores, gansos e, em leituras escassas, mastodonte. Hoje o local é um deserto polar. Os autores falam em ecossistema sem análogo atual, e a identificação de alguns animais se apoia em pouquíssimas leituras.

DNA ambiental (eDNA) é o DNA solto no solo, no gelo ou no sedimento, deixado por fezes, folhas, pólen e restos de organismos; não vem de um osso inteiro. Em Peary Land, extremo norte da Groenlândia, a Formação Kap København guarda sedimentos de um estuário raso, com restos de plantas e animais arrastados de várias áreas. Em vez de procurar um fóssil, a equipe sequenciou o DNA de 41 amostras e comparou cada fragmento com bancos de genomas de plantas e animais (metagenômica). O resultado é uma lista de grupos presentes, não o genoma de um indivíduo. Como o frio e os minerais do sedimento ajudaram a preservar essas moléculas é parte da pergunta, tratada abaixo.

Plantas que hoje já não crescem na Groenlândia

Dos 102 gêneros de plantas lidos no DNA, 39% não crescem mais na Groenlândia, mas ainda ocorrem em florestas da América do Norte, como Picea (abetos) e Populus (choupos). O sítio atual é um deserto polar.

O que as leituras descrevem

No DNA aparecem 102 gêneros de plantas, 39% dos quais já não crescem na Groenlândia, mas ocorrem em florestas boreais e temperadas da América do Norte. Entre os animais, o DNA confirma lebre e traz DNA mitocondrial de mastodonte, rena, roedores e gansos. Há também sinais marinhos: o caranguejo-ferradura (família Limulidae) sugere águas mais quentes que as de hoje, já que o gênero atual não desova ao norte da Baía de Fundy, a cerca de 45° N. O conjunto é uma lista de grupos, não a contagem de indivíduos.

Como sabemos que o DNA é antigo e não contaminação

A equipe extraiu DNA de 41 amostras, em 65 bibliotecas de sequenciamento, 13 delas controles negativos, e leu 16,9 bilhões de fragmentos; depois dos filtros restaram 2,87 bilhões (cerca de 17%, por conta nossa). Só entraram táxons com o dano químico típico de DNA antigo nas pontas das leituras (D-max de pelo menos 25%), e nenhum apareceu nos controles. Como segunda checagem, 76% dos táxons identificados em gênero ou família também apareciam em macrofósseis ou pólen das mesmas unidades.

Como se chega a “cerca de 2 milhões de anos”

Duas linhas independentes sustentam a idade. A geologia do local (paleomagnetismo e fauna fóssil) deixou dois cenários, de 1,9 e de 2,1 milhões de anos; a datação por isótopos cosmogênicos deu idade máxima de 2,70 ± 0,46 milhões. O relógio molecular do DNA de cloroplasto de bétula deu mediana de 1,323 milhão, com 95% entre 0,68 e 2,02 milhões. A mediana é mais jovem que a data geológica; o que dá apoio é o limite superior do intervalo, de 2,0 milhões.

Onde o método tropeça

O mastodonte se apoia em duas variantes de um só nucleotídeo, com profundidade de leitura 3 e 1, e as duas datações de seu DNA deram intervalos enormes. Só herbívoros aparecem entre os vertebrados, o que os autores ligam à biomassa. Bancos de referência incompletos escondem grupos, como briófitas. A preservação, provavelmente por ligação a minerais, é hipótese de laboratório. O próprio sítio tem sua datação discutida entre dois cenários. Outro ângulo do limite temporal do DNA está nos posts relacionados.

Como sabemos

Os resultados centrais vêm do próprio artigo de 2022, lido na íntegra e aberto; o mastodonte, as idades de DNA e o mecanismo de preservação são frágeis ou hipotéticos, como os autores dizem.

Fontes

  1. Nature (Universidade de Copenhague e colaboradores) — A 2-million-year-old ecosystem in Greenland uncovered by environmental DNA
    Kjær, K. H. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-022-05453-y
  2. Proceedings of the Royal Society B (Centro de Paleogenética, Estocolmo) — Integrating multi-taxon palaeogenomes and sedimentary ancient DNA to study past ecosystem dynamics
    Dussex, N. et al. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2021.1252
  3. Science (Universidade de Copenhague e colaboradores) — Ancient biomolecules from deep ice cores reveal a forested southern Greenland
    Willerslev, E. et al. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/science.1141758
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 16; conferência de trechos automatizada)

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