Ecologia

DISCOL: um arado arrastado em 1989 ainda deixava trilhas e menos animais filtradores no fundo 26 anos depois

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

No DISCOL, em 1989, um arado de 8 m de largura foi arrastado 78 vezes pelo fundo da Bacia do Peru, a cerca de 4.150 m. Em 2015, 26 anos depois, as trilhas ainda eram identificáveis nas imagens, e os animais filtradores dentro delas estavam em cerca de 40% da densidade medida fora das trilhas. A riqueza de táxons já não diferia da referência; a composição da fauna, sim.

Nódulos polimetálicos são concreções ricas em metais, como manganês, cobre, níquel e cobalto, que cobrem trechos das planícies abissais. Para estimar o que uma mineração faria à vida do fundo, o projeto DISCOL simulou parte do efeito de um coletor: o arado não recolheu os nódulos, enterrou-os e revolveu o sedimento. Megafauna são os animais maiores que 1 cm vistos em imagens; aqui só entraram os maiores que 5 cm. Filtradores (esponjas, corais, anêmonas) vivem fixos e capturam partículas da água; depositívoros comem matéria do sedimento. A mesma área foi revisitada 0,5, 3, 7 e 26 anos depois do arado.

Um mapa que só ficou certo em 2015

Em 1989 a posição do arado foi registrada pela do navio, sem saber bem a distância até ele. Em 2015, sonar e fotos de um AUV refizeram o mapa e acharam 60 das 78 trilhas; as posições individuais não batiam com as de 1989.

O desenho: 78 passadas e nódulos enterrados

O arado de 8 m foi puxado 78 vezes em cerca de quatro semanas por uma área de 3,7 km de diâmetro (conta nossa: 2 milhas náuticas), a 4.140–4.160 m de profundidade. Cerca de 20% da área foi arada diretamente e o resto recebeu até 30 mm de sedimento levantado. Os nódulos não foram retirados, mas enterrados. Em 2015, o sonar achou 60 das 78 trilhas, e a reconstrução deu 1,9 km² arados.

Como sabemos: do arado de 1989 ao mosaico de 2015

Houve levantamento antes do arado e novos 0,5, 3 e 7 anos depois. Em 2015, um AUV fotografou cerca de 11 ha, e 7.284 animais acima de 5 cm foram contados. Cada um entrou numa classe de distância da trilha, de 0–1 m a 10–50 m, e comparado com um sítio de referência a mais de 3.500 m. Os autores ressalvam que não podem garantir que a referência seja um controle ideal e que levantamentos antigos tiveram replicação limitada.

O que voltou e o que não voltou

Dentro das trilhas, os filtradores seguiam em cerca de 40% da densidade do entorno. Os autores ligam isso à perda dos nódulos, onde esses animais se fixam; é interpretação. A riqueza de táxons se igualou à da referência, mas os índices de diversidade que consideram dominância seguem menores, e a composição difere. Depositívoros e predadores estão mais densos no experimento que na referência, por causa incerta.

Marcas no sedimento e nos micróbios

Sulcos e cristas de poucos decímetros ainda eram visíveis em 2015. Em pontos das trilhas, a atividade microbiana era até quatro vezes menor. Os autores estimam, por taxas de crescimento, mais de 50 anos para funções biogeoquímicas microbianas voltarem ao nível sem perturbação. É projeção, não medida: ninguém monitorou o fundo até lá.

Até onde dá para extrapolar para a mineração real

O DISCOL enterrou nódulos, não os coletou, e a pluma durou dias, muito menos que o esperado numa operação. Os autores dizem que simulações até hoje não reproduzem a gama nem a escala de uma mineração comercial. Na Zona Clarion-Clipperton há proporção bem maior de filtradores; se o resultado valer lá, o impacto pode ser maior. É hipótese dos autores, sem teste em escala comercial.

Como sabemos

Quatro artigos abertos lidos (um deles só em parte); cada trecho foi copiado do texto e a conferência é automatizada; o ponto frágil é o sítio de referência, que os próprios autores questionam.

Fontes

  1. Scientific Reports — Biological effects 26 years after simulated deep-sea mining
    Simon-Lledó, E.; Bett, B. J.; Huvenne, V. A. I.; Köser, K.; Schoening, T.; Greinert, J.; Jones, D. O. B. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-44492-w
  2. Biogeosciences — Scars in the abyss: reconstructing sequence, location and temporal change of the 78 plough tracks of the 1989 DISCOL deep-sea disturbance experiment in the Peru Basin
    Gausepohl, F.; Hennke, A.; Schoening, T.; Köser, K.; Greinert, J. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.5194/bg-17-1463-2020
  3. Science Advances — Effects of a deep-sea mining experiment on seafloor microbial communities and functions after 26 years
    Vonnahme, T. R.; Molari, M.; Janssen, F.; Wenzhöfer, F.; Haeckel, M.; Titschack, J.; Boetius, A. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.aaz5922
  4. PLOS ONE — Biological responses to disturbance from simulated deep-sea polymetallic nodule mining
    Jones, D. O. B.; Kaiser, S.; Sweetman, A. K.; Smith, C. R.; et al. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0171750
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 15; conferência de trechos automatizada)

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