Ciências da Terra
Diamante de Juína (MT) guardava ringwoodita com água: pelo menos ali, o manto a 410–660 km era hidratado
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Em 2014, uma equipe descreveu um cristal de ringwoodita, polimorfo de alta pressão da olivina, dentro de um diamante de Juína (MT). A água nele indicava cerca de 1% do peso, o que mostra que, ao menos naquele ponto, a zona de transição do manto (410 a 660 km) era hidratada. O achado não diz quanta água há no manto inteiro: é uma amostra local, e outras medidas divergem.
O manto é a camada de rocha entre a crosta e o núcleo. Entre 410 e 660 km de profundidade fica a zona de transição, onde a olivina, mineral dominante acima dela, se reorganiza em polimorfos: minerais de mesma composição e estrutura cristalina diferente, estáveis em pressões mais altas. Dois deles, a wadsleyita e a ringwoodita, aceitam água na estrutura, em experimentos, até cerca de 2,5% do peso. A olivina acima e a bridgmanita abaixo aceitam pouco. Por isso a zona de transição é candidata a grande reservatório de água, mas ninguém tem acesso direto a ela: as amostras vêm de diamantes trazidos à superfície por erupções.
O gelo que só existe sob pressão extrema
Em 2018, um grupo achou gelo VII dentro de diamantes naturais. Esse gelo só se mantém sob pressões de gigapascals e hoje é reconhecido como mineral. Para os autores, é resíduo de fluido aquoso presente quando o diamante cresceu.
Por que a zona de transição é candidata a reservatório
Acima dos 410 km, a olivina domina e guarda pouca água; abaixo dos 660 km, a bridgmanita também. Entre as duas fronteiras, a wadsleyita e a ringwoodita, formas da olivina estáveis sob pressão alta, comportam em laboratório até cerca de 2,5% do próprio peso em água. Isso é capacidade, não quantidade: o experimento diz quanto cabe, e só uma amostra natural ou uma medida indireta diz quanto há.
Como sabemos que havia água
Os autores usaram difração de raios X e espectroscopia Raman, além de espectroscopia de infravermelho, e concluíram que o mineral era ringwoodita e que continha água. Segundo o resumo, a água indicada pelo infravermelho e a preservação da ringwoodita sustentam que, ao menos localmente, a zona de transição é hidratada, com cerca de 1% de água em massa. Fei e colegas citam 1,4%; a diferença não pôde ser resolvida aqui.
O que o achado não prova
É uma inclusão em um diamante, de uma região do manto sob o Brasil. Fei e colegas ressalvam que ela pode refletir só condições locais. Além disso, um estudo experimental de condutividade elétrica concluiu em 2008 que não é preciso supor muita água na zona de transição. O achado é um ponto de dados forte, mas um ponto: não permite dizer que todo o manto nessa profundidade é úmido.
Outras linhas de evidência
Experimentos e sismologia (Schmandt et al., 2014) sugerem hidratação de uma grande região da zona de transição. Um modelo baseado em viscosidade (Fei et al., 2017) estima 1 a 2% de água na ringwoodita. Inclusões de gelo VII em diamantes (Tschauner et al., 2018) apontam para fluidos aquosos perto de 660 km. Nenhuma delas é medida direta do manto inteiro.
Como sabemos
O achado e a conclusão local vêm do resumo de Pearson et al., que não pude ler na íntegra; a extensão global da água é disputada.
Em debate: Estudos de condutividade elétrica deram resultados conflitantes (Yoshino et al., 2008 concluíram que não é preciso supor muita água), enquanto o achado em diamante, a sismologia e a viscosidade apontam para hidratação, local ou ampla. A questão segue em debate.
- Consenso científico: A zona de transição do manto fica entre 410 e 660 km de profundidade e pode ser um grande reservatório de água, porque a wadsleyita e a ringwoodita, polimorfos de alta pressão da olivina, comportam até cerca de 2,5% do próprio peso em água. [1] Resumo
Contexto: Capacidade apontada por experimentos de laboratório com esses minerais, não quantidade real no manto. · Limitações: O valor de 2,5% é teto de capacidade; quanta água há de fato na zona de transição é o ponto em disputa. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Consenso científico: A olivina, que domina o manto superior raso, e a bridgmanita, que domina o manto inferior, têm pouca capacidade de guardar água; por isso essas duas camadas são consideradas secas em comparação com a zona de transição. [4] Resumo
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Pearson e colegas (Nature, 2014) encontraram um cristal de ringwoodita incluído em um diamante de Juína, no Brasil. [1] Resumo
Contexto: Um diamante, designado JUc29 nas legendas das figuras do artigo. · Limitações: A localização dentro do Brasil (Mato Grosso) não consta no resumo lido; vem da pauta e do conhecimento geográfico do município. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Os autores afirmam que, até onde sabiam, aquela era a primeira evidência da ocorrência terrestre de qualquer polimorfo de alta pressão da olivina. [1] Resumo
Contexto: Afirmação de primazia feita pelos próprios autores, com a ressalva "to our knowledge". · Limitações: A primazia é declaração dos autores; não foi verificada de forma independente. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: A identificação do mineral e de seu conteúdo de água se baseou em difração de raios X, espectroscopia Raman e espectroscopia de infravermelho. [1] Resumo
Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Os autores interpretam a água indicada pelo infravermelho e a preservação da ringwoodita como evidência direta de que, ao menos localmente, a zona de transição é hidratada, com cerca de 1% de água em massa. [1] Resumo
Contexto: Aplica-se ao ponto do manto de onde veio aquele diamante. · Limitações: O próprio resumo restringe a conclusão a "pelo menos localmente"; o valor de cerca de 1% vem do resumo, o texto integral do artigo não foi lido. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Segundo Fei e colegas (2017), que citam o achado, a inclusão de ringwoodita do diamante brasileiro tinha 1,4% de água em massa. [4] Introduction, §1
Contexto: Valor citado de segunda mão; Pearson et al. descrevem "cerca de 1%" no resumo. · Limitações: Diferença entre "cerca de 1%" (resumo de Pearson) e 1,4% (citado por Fei et al.) não foi resolvida porque o texto integral de Pearson não foi lido. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Fei e colegas ressalvam que a inclusão pode refletir apenas condições locais, porque o magma kimberlítico costuma ser rico em componentes voláteis. [4] Introduction, §1
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Estimativas de água na zona de transição a partir de condutividade elétrica divergem: um estudo experimental concluiu que não é preciso supor muita água para explicar os dados de condutividade, enquanto o artigo de Pearson descreve resultados conflitantes dessas sondas geofísicas. [1] Resumo [3] Resumo
Contexto: Conclusão de Yoshino et al. (2008) a partir de experimentos de condutividade de wadsleyita e ringwoodita. · Limitações: Estudos posteriores de outros métodos (viscosidade, sismologia) apontam para zona de transição hidratada; a disputa não foi encerrada. · Divergência real publicada entre estudos de condutividade e outras linhas de evidência. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: Experimentos e sismologia indicam, segundo Schmandt e colegas (Science, 2014), hidratação de uma grande região da zona de transição, com fusão parcial logo abaixo de 660 km. [2] Resumo
Contexto: Dados sísmicos de uma rede densa na América do Norte; a região amostrada não é o manto inteiro. · Limitações: Resultado dependente de modelagem e de interpretação de ondas sísmicas; lido apenas o resumo. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Estimativa: Um estudo de viscosidade mineral estimou que a ringwoodita da zona de transição conteria de 1 a 2% de água em massa, o que tornaria a zona quase saturada de água em escala global. [4] Resumo
Contexto: Inferência por modelo: compara mobilidade de discordâncias medida em laboratório com perfis de viscosidade do manto. · Limitações: Depende de suposições do modelo, como o domínio da fluência por discordâncias. · Estimativa indireta por viscosidade; é uma linha de evidência, não medida direta no manto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Inclusões de gelo VII em diamantes naturais, segundo Tschauner e colegas (Science, 2018), indicam locais ricos em fluido na parte superior da zona de transição e perto do limite de 660 km. [5] Resumo
Contexto: Diamantes naturais de diferentes procedências; o resumo não detalha as localidades. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Nature, vol. 507, p. 221-224 — Hydrous mantle transition zone indicated by ringwoodite included within diamond
Pearson, D. G. et al. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature13080 - Science, vol. 344, n. 6189, p. 1265-1268 — Dehydration melting at the top of the lower mantle
Schmandt, B.; Jacobsen, S. D.; Becker, T. W.; Liu, Z.; Dueker, K. G. · 2014 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.1253358 - Nature, vol. 451, p. 326-329 — Dry mantle transition zone inferred from the conductivity of wadsleyite and ringwoodite
Yoshino, T.; Manthilake, G.; Matsuzaki, T.; Katsura, T. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/nature06427 - Science Advances, vol. 3, n. 6, e1603024 — A nearly water-saturated mantle transition zone inferred from mineral viscosity
Fei, H.; Yamazaki, D.; Sakurai, M.; Miyajima, N.; Ohfuji, H.; Katsura, T.; Yamamoto, T. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1603024 - Science, vol. 359, n. 6380, p. 1136-1139 — Ice-VII inclusions in diamonds: Evidence for aqueous fluid in Earth's deep mantle
Tschauner, O. et al. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.aao3030
Histórico de alterações
- Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)