Zoologia

Pardais-de-coroa-branca cantam dialetos regionais que os machos jovens aprendem dos mais velhos

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Comunicação animal

Em cada local da Califórnia estudado, os machos de pardal-de-coroa-branca (Zonotrichia leucophrys) cantam versões muito parecidas entre si e diferentes das de outros locais. Marler e Tamura (1962) chamaram essas diferenças regionais de dialetos. Os machos os aprendem de adultos nos primeiros cerca de 100 dias de vida e, em testes com gravações, reagem mais ao dialeto local. A subespécie de Gambel é exceção: não forma dialetos.

O pardal-de-coroa-branca é uma ave canora: o canto do macho é em boa parte aprendido (o post sobre tutor, isolamento e surdez mostra como se sabe disso). O canto dura cerca de 2 segundos e tem algumas notas assobiadas seguidas de um trinado, uma série de sílabas repetidas. "Dialeto" é um termo emprestado da linguística, e Marler e Tamura o puseram entre aspas no título de 1962. Aqui ele nomeia uma diferença constante no tipo de canto predominante entre populações da mesma espécie. Os primeiros registros com sonagrama (gráfico de frequência ao longo do tempo) vieram do litoral central da Califórnia. O que distingue um dialeto de outro está sobretudo nas sílabas finais do trinado.

Chegar perto não era reagir mais

Nos testes com gravações, os machos chegaram menos perto do alto-falante quando tocava o dialeto local do que quando tocava o de outro lugar. Os autores concluíram que a distância de aproximação não serve bem como medida da intensidade da resposta.

Como Marler e Tamura mediram a diferença

Os autores gravaram machos em três locais da Califórnia: Sunset Beach State Park, a cidade de Berkeley e Inspiration Point, a cerca de 3 km de Berkeley (cálculo nosso, a partir de duas milhas). Transformaram cada gravação em sonagrama e mediram duração, número de notas e frequências. Esses valores globais eram parecidos entre os locais. A diferença aparecia na forma das sílabas do trinado, sobretudo as finais, que bastaram para separar as três amostras. Voltaram a Sunset Beach em 1960 e o canto era semelhante ao de 1959. Limite: as aves não estavam anilhadas.

O teste de playback: as aves distinguem os dialetos?

Marler e Tamura não testaram se as aves percebem os dialetos; isso veio de Milligan e Verner (1971). Eles tocaram, no território de machos de Berkeley, Sunset Beach e Point Reyes, gravações do canto local e de outro local, em sessões de 35 minutos, e registraram canto, voos, tempo de aproximação e distância mínima. Machos e fêmeas reagiram mais ao dialeto local, mas também aos de fora. Os próprios autores avisam que não sabem se a discriminação imperfeita vem de limite sensorial ou de função.

Quando não há dialeto: a subespécie de Gambel

Nem toda subespécie tem dialetos. Nelson (1999) estudou a de Gambel, migradora que se reproduz no subártico: quatro tipos de canto ocorriam ao acaso no espaço numa área de 2,6 km², e nenhum dos 106 machos mudou de canto durante a estação. Em laboratório, os machos aprenderam o canto na fase sensível mais curta já registrada em pardais-de-coroa-branca e escolheram o canto adulto ao acaso entre os que haviam produzido em excesso. O autor sugere, como hipótese, que a estação reprodutiva curta e tardia explique a ausência de dialetos.

Como os dialetos se mantêm e o que ainda é hipótese

Na subespécie de Puget Sound, Nelson (2000) viu 35 a 40% dos recém-chegados cantarem dois dialetos em abril e descartarem um depois; 14 de 16 ficaram com o da maioria dos vizinhos. Para o autor, os machos memorizam vários dialetos cedo (provavelmente no primeiro verão) e retêm o que combina com a vizinhança. Já a ideia de que dialetos sinalizariam especiação incipiente, levantada em 1962, não tinha evidência em 1971, e o debate posterior não foi revisto aqui.

Como sabemos

Os resultados centrais vêm dos artigos originais de 1962 e 1971 lidos na íntegra e de resumos de artigos de 1964 a 2000; o debate posterior sobre dialetos e especiação não foi revisto.

Fontes

  1. The Condor, vol. 64, n. 5, p. 368-377 — Song "Dialects" in Three Populations of White-crowned Sparrows
    Marler, P.; Tamura, M. · 1962 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Science, vol. 146, n. 3650, p. 1483-1486 — Culturally transmitted patterns of vocal behavior in sparrows
    Marler, P.; Tamura, M. · 1964 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/science.146.3650.1483
  3. The Condor, vol. 73, n. 2, p. 208-213 — Inter-populational song dialect discrimination in the White-crowned Sparrow
    Milligan, M. M.; Verner, J. · 1971 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Animal Behaviour, vol. 58, n. 1, p. 21-36 — Ecological influences on vocal development in the white-crowned sparrow
    Nelson, D. A. · 1999 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1006/anbe.1999.1118
  5. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), vol. 97, n. 24, p. 13348-13353 — A preference for own-subspecies' song guides vocal learning in a song bird
    Nelson, D. A. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.240457797
  6. Animal Behaviour, vol. 60, n. 6, p. 887-898 — Song overproduction, selective attrition and song dialects in the white-crowned sparrow
    Nelson, D. A. · 2000 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1006/anbe.2000.1560
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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