Fenômenos naturais

Por que muitos dos maiores desertos ficam perto de 30° de latitude: ar que desce, mares frios e montanhas

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Perto de 30° de latitude, nos dois hemisférios, termina a célula de Hadley e o ar que subiu nos trópicos desce. Esse ar descendente forma uma faixa de altas pressões, onde o ar é estável e a chuva é inibida. Por isso muitos dos maiores desertos, como o Saara, ficam nessa faixa. O desenho não é uniforme: correntes marinhas frias e cordilheiras, como no Atacama e no Namib, podem deixar certos trechos ainda mais secos.

Aqui, "deserto" quer dizer região de pouquíssima chuva, não necessariamente de areia ou de calor. O ar que sobe perto do equador perde umidade em forma de chuva e segue em altitude para os polos; por volta de 30° ele desce. Quando o ar desce, há altas pressões na superfície e quase nada o empurra para cima, requisito para formar nuvens de chuva. Como a circulação em células já foi explicada em outro texto, este foca no que acontece onde o ar desce, nos pontos em que a faixa é mais seca e menos seca e nas razões locais. O Saara verde mostra que essa faixa teve outra aparência em outras épocas.

Menos de 2 mm de chuva por ano

No núcleo mais seco do Atacama, abaixo de 2.300 m de altitude, a precipitação média anual fica abaixo de 2 mm. Subindo a encosta dos Andes, a chuva cresce: de menos de 20 mm por ano a 2.300 m para mais de 300 mm por ano a 5.000 m.

Ar que desce: a faixa seca em torno de 30°

No limite da célula de Hadley, por volta de 30°, o ar frio e seco afunda e forma altas pressões entre cerca de 30° e 40°. Com o ar descendo, as condições ficam estáveis e a convecção, que forma nuvens de chuva, é limitada. Daí a tendência: muitos dos maiores desertos ficam nessa região. A fonte diz "muitos", não todos: a faixa é uma tendência, e o clima de cada lugar também depende de fatores locais.

Mares frios e montanhas: o que muda o desenho

No Atacama, um artigo de 2024 aponta o anticiclone do Pacífico e a corrente fria de Humboldt, que juntos mantêm uma inversão térmica, ventos do continente e uma sombra de chuva dos Andes. No Namib, a corrente de Benguela gera neblina marinha, de que depende a vegetação da costa. Nos dois casos, o mar frio e o relevo se somam à faixa de ar descendente; por isso o Atacama é o mais árido não polar, e o Namib tem neblina onde chove quase nada.

Como sabemos: quartzo que guarda a exposição ao Sol cósmico

Para saber há quanto tempo uma superfície do Atacama está seca, Ritter-Prinz e colegas mediram neônio-21 cosmogênico em 135 clastos de quartzo. Esse gás se acumula na rocha pela exposição a raios cósmicos; em superfície estável, quanto mais neônio, maior a duração da exposição, que eles modelaram. Trinta e dois clastos têm exposição do Oligoceno ou mais antiga, o que sugere clima árido antes dos Andes altos. É hipótese de um estudo, com idade modelada, não consenso.

Uma faixa que se desloca e não é igual em toda longitude

A zona seca subtropical não é fixa. Estudos citados por Cai e colegas encontram expansão para os polos de 1° a 2,5° de latitude entre 1979 e 2005, dependendo do indicador, e mostram que o efeito não é uniforme: há deslocamento claro ao sul da África e no sul da Austrália, mas não no setor sul do Chile. Na África, o Saara e os desertos Kalahari e Namib cercam a faixa tropical, ao norte e ao sul. O post sobre o Saara verde mostra que, em outras épocas, a região foi bem mais úmida.

Como sabemos

O mecanismo geral (ar descendente, altas subtropicais) é bem documentado; a aridez do Atacama e do Namib depende de fatores locais com debate aberto, e Austrália e Kalahari só aparecem por fontes indiretas.

Em debate:

Fontes

  1. University of Hawaii at Manoa, Exploring Our Fluid Earth — Wind Systems
    Exploring Our Fluid Earth, University of Hawaii at Manoa · sem data · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. Scientific Reports (CSIRO Marine and Atmospheric Research) — Rainfall reductions over Southern Hemisphere semi-arid regions: the role of subtropical dry zone expansion
    Cai, W.; Cowan, T.; Thatcher, M. · 2012 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/srep00702
  3. Scientific Reports — Influence of atmospheric and oceanic circulation patterns on precipitation variability in North Africa with a focus on Morocco
    Hakam, O. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-02718-0
  4. Applied and Environmental Microbiology — Inside the Atacama Desert: uncovering the living microbiome of an extreme environment
    Bartholomäus, A. et al. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1128/aem.01443-24
  5. Nature Communications (Universidade de Colônia) — Evidence for Eocene aridification of the Atacama Desert's hyperarid core
    Ritter-Prinz, B.; Binnie, S. A.; Stuart, F. M.; Fabel, D.; Albert, R.; Wennrich, V.; Dunai, T. J. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-026-73422-4
  6. Scientific Reports — Opposite trends in the genus Monsonia (Geraniaceae): specialization in the African deserts and range expansions throughout eastern Africa
    García-Aloy, S. et al. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-017-09834-6
  7. Biological Reviews (Cambridge Philosophical Society) — Tectonics, climate and the diversification of the tropical African terrestrial flora and fauna
    Couvreur, T. L. P. et al. · 2021 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1111/brv.12644
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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