Evolução
Deriva genética: o acaso muda frequências de alelos e, em populações pequenas, pode superar a seleção
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Evolução biológica
Deriva genética é a mudança, ao acaso, na frequência dos alelos (versões de um gene) de uma geração para a seguinte: por sorte, alguns indivíduos deixam mais descendentes que outros. Ela ocorre em toda população, mas age mais rápido e com efeito mais drástico nas pequenas. No critério clássico, formulado para organismos haploides, a deriva domina quando 2 × Ne × s é muito menor que 1; acima disso, domina a seleção.
Cada geração é uma amostra dos genes da anterior. Se poucos indivíduos se reproduzem, a amostra pode se afastar da composição original sem que nenhum alelo seja mais vantajoso. Por isso a deriva é um mecanismo de evolução, mas não produz adaptações: ela muda frequências ao acaso. A seleção natural, ao contrário, favorece alelos que aumentam a aptidão. Quem vence depende de dois números: o coeficiente de seleção (s), que mede a vantagem ou desvantagem de um alelo, e o tamanho efetivo da população (Ne), que não é a contagem de indivíduos: no elefante-marinho do norte, o estudo estimou Ne = 6 para um gargalo de dezenas de animais.
De dezenas a mais de 30 mil
O elefante-marinho do norte foi dado como extinto na década de 1890; estimativas falam em 20 a 100 indivíduos. Hoje são mais de 30 mil, mas a diversidade de nucleotídeos de seu genoma é quase uma ordem de grandeza menor que a do elefante-marinho do sul.
Por que um sorteio muda os genes
Berkeley ilustra a deriva com sorteios de bolinhas: uma sequência de 5:5, 6:4, 7:3, 4:6, 8:2 e, por fim, 10:0 mostra a proporção oscilando ao acaso até uma cor desaparecer. Em populações reais ocorre o mesmo com alelos. A consequência central é que a perda não se desfaz: se o alelo some por deriva, só mutação ou fluxo gênico o trazem de volta, e a seleção não age sobre o que não existe mais.
Quando o acaso pesa mais que a vantagem
O peso relativo de deriva e seleção depende do tamanho efetivo (Ne) e do coeficiente de seleção (s). Segundo Bobay e Ochman, que citam Kimura (1968), num organismo haploide a deriva domina quando |2 × Ne × s| é muito menor que 1 e a seleção, quando é muito maior que 1. Um alelo com vantagem minúscula pode, então, comportar-se como neutro numa população pequena e ser selecionado numa grande. É uma regra de ordem de grandeza.
Gargalo e efeito fundador
Dois casos especiais concentram o efeito da amostragem. No gargalo, a população encolhe por ao menos uma geração; no efeito fundador, poucos indivíduos começam uma colônia. Em ambos, a amostra de genes pode ser pequena e não representativa. Berkeley cita os africâneres, descendentes sobretudo de poucos colonos holandeses, com frequência incomum do gene de Huntington; o exemplo vem de página didática, não de estudo primário que abrimos. Para uma discussão em escala humana, veja o post sobre a diversidade genética da África.
Como sabemos: o elefante-marinho do norte
O elefante-marinho do norte foi caçado até quase a extinção; um estudo de 2024 sequenciou 20 genomas dele e 20 do elefante-marinho do sul, que não passou por gargalo tão forte. A diversidade de nucleotídeos do primeiro foi 0,0003, contra 0,0017. A modelagem demográfica apontou Ne = 6 durante o gargalo. Limites: é a comparação de duas espécies, 20 genomas cada, e a estimativa depende do modelo. Não é experimento controlado; é um caso natural, coerente com o que a teoria prevê.
Como sabemos
Mecanismo e critério clássico vêm de páginas de Berkeley e de uma revisão em acesso aberto lidas por inteiro; os números do exemplo vêm de um artigo de 2024 também lido por inteiro.
- Consenso científico: A cada geração, alguns indivíduos podem, só por acaso, deixar mais descendentes (e genes) que outros; os genes da geração seguinte serão os desses indivíduos sortudos, e não necessariamente os dos melhores. [1] corpo da página
Contexto: Descrição geral do mecanismo, válida para qualquer população. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: A deriva genética é um mecanismo de evolução, mas, por ser um processo inteiramente aleatório, não produz adaptações. [1] corpo da página
Contexto: Contrasta com a seleção natural, que também muda frequências, mas de modo não aleatório. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: Se um alelo some da população por deriva, ele se perde de vez, a menos que uma mutação ou o fluxo gênico o reintroduza. [2] seção 'Decreasing variation'
Contexto: O exemplo da página usa sorteios de bolinhas verdes e marrons como analogia da amostragem de alelos. · Limitações: A analogia das bolinhas supõe sorteio aleatório sem seleção e sem mutação. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: Todas as populações sofrem deriva, mas quanto menor a população, mais cedo a deriva tem efeito drástico. [2] seção 'The impact on small populations'
Contexto: Vale para qualquer população; a intensidade depende do tamanho efetivo. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: A deriva reduz a variação genética de uma população; com menos variação, há menos matéria-prima para a seleção, que só atua sobre a variação já existente e não a cria. [2] seção 'Decreasing variation'
Contexto: A mutação é a fonte de variação nova; a seleção apenas altera as frequências do que existe. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: Um gargalo populacional ocorre quando o tamanho de uma população é reduzido por pelo menos uma geração; mesmo um gargalo de poucas gerações pode reduzir muito a variação genética. [3] corpo da página
Contexto: A perda é maior porque a deriva age mais depressa nas populações pequenas. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: O efeito fundador ocorre quando uma nova colônia é fundada por poucos membros da população original, o que pode dar à colônia menos variação genética e uma amostra não representativa dos genes de origem. [3] seção 'Founder effects'
Contexto: É um caso especial de deriva, junto com o gargalo. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Segundo a página, os africâneres (descendentes de colonos holandeses na África do Sul) descendem principalmente de poucos colonos, que por acaso carregavam o gene da doença de Huntington em frequência incomum; hoje a população tem frequência desse gene incomumente alta. [3] seção 'Founder effects'
Contexto: Exemplo de efeito fundador em uma população humana, usado como material didático. · Limitações: A fonte é uma página didática; não abrimos o estudo genético primário sobre a população africâner. · Citado como exemplo clássico pela fonte; a atribuição ao efeito fundador é a da fonte. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: A caça reduziu o elefante-marinho-do-norte a até 20 indivíduos no fim do século XIX; a população voltou a passar de 30 mil animais, mas mantém muito menos variação genética que a do elefante-marinho-do-sul, não caçado com tanta intensidade. [3] seção 'An example of a bottleneck'
Contexto: Elefante-marinho-do-norte (Mirounga angustirostris). · Limitações: O número mínimo de indivíduos é estimativa histórica; o estudo de 2024 (f6) cita estimativa de 20 a 100 indivíduos por volta de 1890. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: O genoma do elefante-marinho-do-norte tem diversidade de nucleotídeos de 0,0003, quase uma ordem de grandeza menor que a do elefante-marinho-do-sul (0,0017). [6] Results and discussion
Contexto: Resequenciamento do genoma completo de 20 indivíduos de cada espécie; as duas espécies irmãs divergiram há cerca de 0,6 a 4 milhões de anos. · Limitações: Comparação entre duas espécies; amostra de 20 genomas por espécie. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O estudo detectou, no genoma do elefante-marinho-do-norte, uma assinatura de gargalo extremo recente, com tamanho efetivo de população estimado em 6 (intervalo de confiança de 95%: 5,0 a 7,5). [6] Resumo
Contexto: Tamanho efetivo durante o gargalo, estimado por modelagem demográfica; não é a contagem de animais, que o estudo cita como de 20 a 100 por volta de 1890. · Limitações: Depende do modelo demográfico adotado. · Estimativa de modelagem, com intervalo de confiança. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Segundo Bobay e Ochman, que citam Kimura (1968), num organismo haploide a evolução é guiada por processos estocásticos (deriva) quando |2 × Ne × s| é muito menor que 1, e a seleção domina quando é muito maior que 1. [5] seção 'Microevolutionary Processes Drive Genome Architecture'
Contexto: Critério clássico de genética de populações para organismos haploides (Ne = tamanho efetivo; s = coeficiente de seleção). Fonte de segunda mão: lemos Bobay e Ochman (2017), não o artigo original de Kimura. · Limitações: Em organismos diploides o critério muda por um fator; é uma regra de ordem de grandeza, não um limiar exato. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O coeficiente de seleção s depende só do efeito de uma variante sobre a aptidão do indivíduo, enquanto o tamanho efetivo de longo prazo da população define o peso da seleção em relação à deriva, porque populações menores sofrem mais com o sorteio aleatório de genótipos a cada geração. [5] seção 'Microevolutionary Processes Drive Genome Architecture'
Contexto: Base da teoria quase neutra de Ohta (1973), segundo os autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Teoria científica: A teoria neutra da evolução molecular propõe que a maior parte da variação genética nas populações resulta de mutação e deriva, e não de seleção; ela não afirma que os organismos não sejam adaptados nem que a seleção seja pouco importante. [4] corpo da página
Contexto: A página lista essa frase entre os equívocos que a teoria NÃO sustenta. · Limitações: Quão amplamente a teoria se aplica ainda é tema de pesquisa, segundo a fonte. · A teoria neutra é uma hipótese de trabalho discutida; o dado é complicado, conforme a própria fonte. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: Segundo o estudo, a baixa eficiência da seleção diante de deriva forte permite que alelos levemente deletérios se fixem com facilidade em populações pequenas. [6] Results and discussion
Contexto: Afirmação de fundamentação teórica do artigo, que cita outros trabalhos para ela. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Understanding Evolution, Universidade da Califórnia em Berkeley — Genetic drift (Evolution 101)
Understanding Evolution, UC Museum of Paleontology · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Understanding Evolution, Universidade da Califórnia em Berkeley — Effects of genetic drift
Understanding Evolution, UC Museum of Paleontology · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Understanding Evolution, Universidade da Califórnia em Berkeley — Bottlenecks and founder effects
Understanding Evolution, UC Museum of Paleontology · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Understanding Evolution, Universidade da Califórnia em Berkeley — Neutral theory: the relative importance of drift and selection
Understanding Evolution, UC Museum of Paleontology · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Frontiers in Genetics — The Evolution of Bacterial Genome Architecture
Bobay, L.-M.; Ochman, H. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fgene.2017.00072 - Nature Ecology & Evolution — Genomic and fitness consequences of a near-extinction event in the northern elephant seal
Hoffman, J. I.; Vendrami, D. L. J.; Hench, K.; et al. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41559-024-02533-2
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)