Paleontologia

Como a meia-vida de um átomo vira idade de rocha: a datação radiométrica

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Fósseis

O decaimento radioativo ocorre a uma taxa constante, que a temperatura e a pressão da crosta não alteram. Medindo quanto isótopo-pai resta e quanto isótopo-filho se acumulou num mineral que se manteve fechado, calcula-se o tempo desde que ele cristalizou. No urânio-chumbo em zircão há dois relógios independentes: se concordam, a idade é confiável, com incerteza analítica de décimos de por cento.

Isótopos são átomos do mesmo elemento com massas diferentes. Alguns são instáveis: o isótopo-pai se transforma em um isótopo-filho, de outro elemento, a uma taxa proporcional à quantidade presente. A meia-vida é o tempo que metade dos átomos-pai leva para decair. O urânio-238 vira chumbo-206 com meia-vida de cerca de 4,5 bilhões de anos; o urânio-235 vira chumbo-207 com cerca de 704 milhões. Ao cristalizar de um magma, o zircão incorpora urânio e quase nenhum chumbo; desde então o chumbo radiogênico se acumula. Só rochas ígneas datam diretamente, e elas raramente têm fósseis: o fóssil é datado por cima e por baixo, entre camadas vulcânicas.

Dois relógios no mesmo cristal

O urânio-238 e o urânio-235 decaem em chumbos diferentes e em ritmos diferentes. Cada cadeia dá uma idade, então o zircão se confere sozinho: se as duas idades não coincidem, o cristal perdeu ou ganhou átomos depois de formado.

Da meia-vida à idade

A quantidade de átomos-pai cai em proporção ao que resta, o que dá uma curva exponencial (a1). A conta da idade usa a constante de decaimento, que se relaciona com a meia-vida por ln 2 dividido por ela. Exemplo nosso, com λ do U-238 de 1,551 × 10⁻¹⁰ por ano: num zircão de 66,9 Ma, há cerca de 1,04 átomo de Pb-206 radiogênico para cada 100 de U-238 restantes. A conta só vale se a taxa for constante (a2) e se o filho inicial for conhecido (a3).

Sistema fechado e concórdia

O método supõe que o mineral nem ganhou nem perdeu pai ou filho desde que cristalizou. A concórdia testa isso: se o cristal permaneceu fechado, as duas razões U-Pb caem sobre a curva (a6). Se há perda de chumbo, os pontos se alinham numa reta, a discórdia, cuja interseção com a curva indica a idade de cristalização e a do evento que perturbou o sistema (a7). O teste é interno à amostra, sem comparação externa.

Do zircão ao fóssil

O fóssil não é datado: datam-se as cinzas vulcânicas que o emolduram (a11). Em Hell Creek, duas cinzas de 66,929 ± 0,020 Ma e 66,850 ± 0,026 Ma delimitam a jazida; a idade dela, 66,897 Ma, vem de um modelo estatístico entre as duas (a12). O mesmo raciocínio dá idade a extinções e origens. A lacuna do registro fóssil, tratada em outro artigo, também limita o quanto uma data de camada diz sobre o instante de uma espécie surgir ou desaparecer.

Quanta incerteza sobra

A parte analítica é pequena: 0,05% a 0,2% da idade em zircão único (a9), isto é, algumas centenas de milhares de anos a 66,9 Ma (cálculo nosso). A incerteza das constantes de decaimento do urânio, perto de 0,1%, soma-se a ela, e uma discordância sistemática de cerca de 0,3% sugere erro residual neles (a10). Por isso a precisão relativa entre duas datas do mesmo laboratório é melhor que a exatidão em tempo absoluto.

Como sabemos

Princípios e limites do método estão em material de curso, página do USGS e revisão de referência; o exemplo de Hell Creek vem de artigo original aberto.

Fontes

  1. Tulane University — Radiometric Dating (EENS 2120 Petrology)
    Nelson, S. A. · s.d. · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  2. U.S. Geological Survey — Geologic Time: Radiometric Time Scale
    U.S. Geological Survey · 2001 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Elsevier; Princeton University — U-Th-Pb Geochronology (Treatise on Geochemistry, 2nd ed., cap. 4.10)
    Schoene, B. · 2014 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/B978-0-08-095975-7.00310-7
  4. PLOS One — High precision CA-ID-TIMS U-Pb zircon age for the “Dueling Dinosaurs” locality, with implications for regional correlation, basal age and duration of the Hell Creek Formation, Montana
    Roberts, E. M.; Hendrix, M. S.; Ramezani, J.; Clyde, W. C.; Zippi, P.; Hodgson, S.; Yuleridge, V.; Zanno, L. E. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0328861
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 2; conferência de trechos automatizada)

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