Evolução
Em 1858, textos de Darwin e Wallace sobre a seleção natural foram lidos juntos na Linnean Society, sem nenhum dos dois presente
Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026
Em 18 de junho de 1858, Charles Darwin recebeu em Down House um manuscrito de Alfred Russel Wallace, enviado das Molucas, que descrevia uma teoria muito parecida com a que ele guardava inédita havia anos. Os amigos Charles Lyell e Joseph Hooker propuseram apresentar os dois trabalhos juntos. Em 1º de julho, na Linnean Society de Londres, foram lidos um trecho de Darwin, uma carta dele a Asa Gray e o ensaio de Wallace. Nenhum dos dois estava lá.
Darwin chegou à seleção natural no fim da década de 1830 e, em 1844, tinha um texto copiado a limpo, mas não o publicou. Wallace escreveu seu ensaio em fevereiro de 1858, enquanto se recuperava de uma febre nas Molucas, e o mandou a Darwin com o pedido de que o repassasse a Lyell se o achasse importante. Darwin viu que fora antecipado. Lyell e Hooker, que conheciam o trabalho dele, organizaram uma comunicação conjunta, assinada por eles em 30 de junho. A leitura foi em 1º de julho de 1858 e a publicação saiu em 20 de agosto, no periódico da sociedade. Os textos de Darwin e de Wallace continuaram separados: não é um artigo escrito a quatro mãos.
O ano sem revoluções
Em maio de 1859, o presidente da Linnean Society, Thomas Bell, disse que o ano anterior não tinha sido marcado por descobertas capazes de revolucionar de imediato a ciência. O texto de Darwin e Wallace tinha sido lido ali mesmo, quase sem reação.
Dois caminhos, uma pergunta
Darwin trabalhava havia cerca de vinte anos no problema da origem das espécies quando o ensaio de Wallace chegou. Tinha lido Malthus em outubro de 1838, e a ideia de luta pela existência ajudou a firmar sua teoria. Wallace chegou a uma formulação própria no Arquipélago Malaio, depois de anos coletando no Oriente. Os dois haviam lido autores semelhantes, e a coincidência não surgiu do nada.
A solução de Lyell e Hooker
Em vez de deixar Wallace publicar sozinho ou de Darwin publicar primeiro, Lyell e Hooker apresentaram os dois materiais juntos. A carta de 30 de junho de 1858 dizia que ambos haviam chegado à mesma teoria de forma independente e sem saber um do outro. Foi um arranjo de amigos de Darwin, e Wallace, longe de Londres, só soube depois de que o texto fora publicado.
Uma reação que quase não houve
A Linnean Society ouviu os textos em 1º de julho, e nada indica que a sessão tenha sido tratada como revolucionária. Em maio de 1859, o presidente Thomas Bell disse que o ano anterior não fora marcado por descobertas desse tipo. O que mudou o debate foi a Origem das Espécies, publicada em 1859, que apresentou a teoria com o conjunto de evidências que Darwin juntara por décadas.
Wallace e a satisfação com o resultado
Wallace se mostrou gratificado ao saber que seu texto saíra junto ao de Darwin e, mais tarde, disse-se um pouco orgulhoso. Ele manteve esse contentamento a vida toda. Nas décadas seguintes continuou a produzir ciência original, como a biogeografia do Arquipélago Malaio, e a linha que leva seu nome separa até hoje a fauna asiática da australiana no Sudeste Asiático.
Como sabemos
Datas, documentos e a leitura de 1º de julho vêm do Darwin Online e do Darwin Correspondence Project; só a interpretação sobre diferenças entre as teorias é matizada.
Em debate: O quanto as ideias de Darwin e de Wallace eram equivalentes. A Linnean Society descreve a versão de Wallace como centrada na adaptação ao ambiente, e a de Darwin, na competição entre semelhantes; Lyell e Hooker, em 1858, trataram as duas como a mesma teoria concebida de forma independente.
- Fato estabelecido: Wallace escreveu o ensaio 'On the Tendency of Varieties to depart indefinitely from the Original Type' em fevereiro de 1858, nas Molucas, enquanto se recuperava de uma febre intermitente. [2] [3]
O Darwin Correspondence Project situa a escrita na ilha de Gilolo; a literatura situa o despacho em Ternate. - Fato estabelecido: Wallace pediu a Darwin que mostrasse o ensaio a Charles Lyell se o considerasse importante o bastante. [2]
- Fato estabelecido: Darwin recebeu o manuscrito em 18 de junho de 1858, dentro de uma carta (hoje perdida) de Wallace, e no mesmo dia o enviou a Lyell. [1] [2] [3]
- Fato estabelecido: Na carta a Lyell, Darwin escreveu que, se Wallace tivesse tido seu esboço de 1842, não poderia ter feito um resumo melhor. [1]
- Consenso científico: Darwin leu Malthus em outubro de 1838, e isso o ajudou a formular a luta pela existência. [6]
- Fato estabelecido: O esboço de Darwin foi redigido em 1839 e teve uma cópia a limpo em 1844; um trecho dele foi lido em 1858. [3]
Na carta a Lyell Darwin cita 1842 ao falar do seu manuscrito-esboço; o texto usa as datas de 1839 e 1844 dadas pela edição do Darwin Online. - Fato estabelecido: Darwin não publicou sua teoria antes de 1858, embora a tivesse desenvolvido na década de 1830. [3] [6]
- Fato estabelecido: A comunicação foi apresentada por Lyell e Hooker, em carta de 30 de junho de 1858, e reuniu um trecho do manuscrito de Darwin, uma carta dele a Asa Gray de 5 de setembro de 1857 e o ensaio de Wallace. [3] [4]
- Fato estabelecido: Lyell e Hooker escreveram que os dois naturalistas chegaram, de forma independente e sem que um soubesse do outro, à mesma teoria. [3]
- Fato estabelecido: Os textos foram lidos na Linnean Society em 1º de julho de 1858 e publicados em 20 de agosto de 1858, no Journal of the Proceedings of the Linnean Society, Zoology, vol. 3, p. 45-50. [3]
- Fato estabelecido: Darwin não esteve na leitura; seu filho Charles Waring morrera em 28 de junho de 1858. [4]
- Fato estabelecido: Wallace também não estava presente na leitura: ele continuava no Arquipélago Malaio e soube da publicação depois. [4] [5]
A fonte f4 registra que Wallace soube da publicação conjunta e se disse gratificado; f5 o situa em pesquisa no Arquipélago Malaio. - Fato estabelecido: Hooker tinha lido o ensaio de 1844 de Darwin cerca de doze anos antes. [4]
- Fato estabelecido: A reação à leitura foi mínima; em maio de 1859, o presidente Thomas Bell disse que o ano anterior não fora marcado por descobertas que revolucionassem de pronto o campo. [4]
- Fato estabelecido: Wallace ficou satisfeito por ter o texto publicado ao lado do de Darwin e, mais tarde, disse-se 'um pouco orgulhoso'. [4]
- Interpretação: A teoria de Wallace destacava a adaptação das variedades às pressões do ambiente, enquanto a de Darwin dava mais peso à competição entre indivíduos semelhantes. [5]
Caracterização da Linnean Society; historiadores discutem o quanto as duas versões diferiam. - Fato estabelecido: A Origem das Espécies saiu em 1859, pouco mais de um ano depois da leitura. [2] [6]
Fontes
- Darwin Correspondence Project, Universidade de Cambridge — Carta de Charles Darwin a Charles Lyell, 18 de junho de 1858 (DCP-LETT-2285)
consultada em 06/10/2026 - Darwin Correspondence Project, Universidade de Cambridge — Alfred Russel Wallace's essay on varieties
consultada em 06/10/2026 - Darwin Online — On the tendency of species to form varieties (Darwin e Wallace, 1858), edição do Darwin Online
consultada em 06/10/2026 - Friends of Charles Darwin — 01-Jul-1858: Darwin goes public
consultada em 06/10/2026 - The Linnean Society of London — Alfred Russel Wallace (1823-1913)
consultada em 06/10/2026 - Biblioteca da Universidade de Otago — Cabinet 7: Malthus & Wallace (Charles Darwin and his Legacy)
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão