Botânica

A mariposa que Darwin previu em 1862: descrita em 1903, vista polinizando a orquídea só nos anos 1990

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Plantas em ação

Em 1862, medindo nectários de 11,5 polegadas (cerca de 29 cm) na orquídea Angraecum sesquipedale, Darwin deduziu que em Madagascar devia haver mariposas de probóscide de 10 a 11 polegadas. Em 1903 foi descrita a subespécie Xanthopan morganii praedicta, de língua de 22 cm. Mas só publicações de 1993 a 1997, com observação direta e filmagem, a mostraram visitando as flores e retirando o pólen.

A orquídea-estrela de Madagascar, Angraecum sesquipedale, tem um nectário (esporão): um tubo que pende da flor e guarda néctar só no fundo. Para alcançá-lo, o inseto enfia a probóscide, a "língua" enrolada das mariposas, e ao retirá-la leva presas as polínias, as massas de pólen da orquídea. Darwin tinha em mente as mariposas da família dos esfingídeos. Coevolução é a mudança de duas espécies moldada uma pela outra. O caso interessa como método: o que dá para concluir só medindo uma flor, e o que só a observação do polinizador resolve. Uma previsão certa sobre o animal não prova, sozinha, o mecanismo que fez o tubo crescer.

Uma dependência de mão dupla

Darwin escreveu que, se essas grandes mariposas se extinguissem em Madagascar, a orquídea também se extinguiria. Para ele, a relação ia nos dois sentidos: a flor dependia da mariposa e o néctar guardado no fundo servia às mariposas.

Como Darwin chegou a uma mariposa sem vê-la

Darwin mediu nectários de 11,5 polegadas (cerca de 29 cm, conversão nossa), com néctar só na polegada e meia final. Cerdas e agulhas não tiraram as polínias; um cilindro fino, empurrado pela fenda do rostelo, tirou. Concluiu que só uma mariposa grande, forçando a probóscide até o fundo, agiria assim, e que em Madagascar devia haver mariposas com probóscide de 10 a 11 polegadas. Era dedução a partir da morfologia, escrita como "deve haver".

O que 1903 mostrou e o que só os anos 1990 mostraram

A subespécie Xanthopan morganii praedicta (Rothschild & Jordan, 1903) tem língua de 22 cm, o que a tornava candidata plausível. Segundo a revisão de Arditti e colegas (2012), porém, ela não tinha sido vista visitando a orquídea, e por mais de um século a ligação foi suposta. Observações diretas, filmagem em infravermelho e fotografias de 1993 a 1997, e um vídeo de 2004, mostraram-na visitando as flores e retirando polínias.

Corrida ou troca de polinizador?

Darwin descreveu uma "corrida" em comprimento entre nectário e probóscide, ideia que continua contestada. Em aquilégias, o esporão cresceu quando as plantas passaram a polinizadores de língua mais longa (Whittall e Hodges, 2007). Um modelo de 2008 obtém coevolução entre língua e tubo, mas só se alongar a língua for bem mais fácil para um dos polinizadores. Para a própria mariposa, a revisão de 2012 cita a hipótese de que predadores selecionaram línguas extremas e o voo pairado.

O que ainda falta saber

Em 2024, Farminhão e colegas escreveram que o par orquídea-mariposa é o exemplo mais conhecido do poder preditivo da ecologia evolutiva, mas que seu grau real de especialização é pouco descrito, pois o registro de polinização da mariposa é incompleto. Descreveram também Solenangis impraedicta, que, segundo eles, tem o esporão mais longo em relação à flor, de até 33 cm. A previsão de Darwin foi um acerto; como esporões e línguas evoluíram segue em estudo.

Como sabemos

Previsão e experimento de Darwin lidos no texto de 1862; descrição de 1903 e observações de 1993–1997 vêm de resumos de revisão e de artigos, sem os originais.

Em debate: Darwin propôs uma "corrida" em comprimento entre flor e mariposa. Trabalhos posteriores, como o de Whittall e Hodges (2007) em aquilégias, mostram que esporões também podem crescer por trocas sucessivas de polinizador. O modelo da "corrida" segue contestado.

Fontes

  1. John Murray, Londres; edição digitalizada pelo Darwin Online e pelo Internet Archive — On the various contrivances by which British and foreign orchids are fertilised by insects (1ª ed., cap. V, Vandeae)
    Darwin, C. · 1862 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Botanical Journal of the Linnean Society, 169: 403-432 (resumo no Europe PMC, EMBL-EBI) — "Good Heavens what insect can suck it" - Charles Darwin, Angraecum sesquipedale and Xanthopan morganii praedicta
    Arditti, J.; Elliott, J.; Kitching, I. J.; Wasserthal, L. T. · 2012 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/j.1095-8339.2012.01250.x
  3. Nature (resumo no PubMed) — Pollinator shifts drive increasingly long nectar spurs in columbine flowers
    Whittall, J. B.; Hodges, S. A. · 2007 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
  4. Current Biology (resumo no PubMed) — A new orchid species expands Darwin's predicted pollination guild in Madagascar
    Farminhão, J. N. M. et al. · 2024 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026
  5. PLoS ONE 3(8): e2992 — Resource competition triggers the co-evolution of long tongues and deep corolla tubes
    Rodríguez-Gironés, M. A.; Llandres, A. L. · 2008 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0002992
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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