História do Brasil

Dandara dos Palmares está no Livro dos Heróis da Pátria, mas os documentos do século XVII não a citam

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Dandara é lembrada como guerreira de Palmares e companheira de Zumbi. Mas, segundo a historiadora Silvia Lara, da Unicamp, não há menção a ela nos documentos dos ataques ao quilombo, que somam centenas, talvez milhares de páginas. O nome aparece num romance de 1962 e ganhou força depois, inclusive no filme Quilombo, de 1984. Em 2019, uma lei inscreveu seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. A figura é símbolo; sua existência histórica é discutida.

A tradição conta que Dandara foi uma guerreira que se opôs ao tratado de paz de 1678 e morreu em 6 de fevereiro de 1694, durante uma invasão portuguesa. Esses detalhes, porém, não vêm de documentos da época. Os textos que fundamentam a história de Palmares são relatórios produzidos por portugueses e holandeses, e neles Dandara não aparece. Para parte dos historiadores, ela pode ter sido criada como mito, para ser parceira de Zumbi, ou confundida com outra liderança. Outras pesquisadoras, como Alcione Aparecida da Silva, da Universidade Estadual de Maringá, sustentam que a ausência reflete um apagamento sistemático das mulheres negras nos registros coloniais, e não inexistência. A Lei 13.816, de 24 de abril de 2019, inscreveu seu nome no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria; segundo a Unesp, o registro a apresenta como esposa de Zumbi.

Luiza Mahin, a que tem documento

A mesma lei de 2019 inscreveu Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama. Pesquisadoras encontraram o testamento da tia-avó de Gama, que a descreve como "cativa nagô". Mas não há registro de uma mulher chamada Luiza presa nos autos da Revolta dos Malês, ao contrário do que a tradição diz.

O que a tradição conta

Na versão mais difundida, Dandara foi guerreira de Palmares, aliada de Zumbi e opositora do tratado de paz de 1678. Teria morrido em 6 de fevereiro de 1694, durante a invasão portuguesa. A Biblioteca Florestan Fernandes, da USP, resume a narrativa e deixa claro que ela se mantém sobretudo pela tradição oral e pela memória coletiva, e que falta registro documental. A tradição situa a morte no mesmo mês em que caiu a cerca do Barriga, esta sim documentada.

O que dizem os documentos

Silvia Lara, especialista em Palmares na Unicamp, informa que não há menção a Dandara nos documentos dos ataques a Palmares, que somam centenas, talvez milhares de páginas feitas por portugueses e holandeses. Para ela, o nome foi criado no romance Ganga Zumba, de João Felício dos Santos, de 1962, e se popularizou depois, inclusive com o filme Quilombo, de 1984. Ou seja: o nome tem origem conhecida na ficção, e a pessoa, se existiu, não deixou rastro nos papéis.

Duas leituras da ausência

Há quem leia a ausência como indício de que Dandara é uma criação posterior. Alcione Aparecida da Silva, da Universidade Estadual de Maringá, propõe outra leitura: a falta de registro seria resultado de um apagamento sistemático, já que mulheres negras raramente aparecem como protagonistas nos documentos coloniais. Lisa Earl Castillo lembra que tradições orais podem condensar vários acontecimentos em um só nome. Nenhuma das leituras é prova definitiva.

Símbolo e registro

Mesmo reconhecendo a origem literária do nome, as pesquisadoras notam que Dandara se tornou uma ferramenta de empoderamento nas lutas antirracistas. Em 2019, a Lei 13.816 inscreveu seu nome e o de Luiza Mahin no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O contraste é útil: Luiza Mahin, mãe de Luiz Gama, tem registro documental, embora a ligação com a Revolta dos Malês seja de origem romanesca. Dandara é símbolo; Mahin, uma mulher real e em parte lendária.

Como sabemos

O post descreve o debate sem tomar partido e apoia cada afirmação em reportagem com pesquisadoras, na biblioteca da USP e em lei oficial.

Em debate: A existência histórica de Dandara é discutida. Silvia Lara (Unicamp) não encontrou menção a ela na documentação de Palmares e vê a origem do nome num romance de 1962. Alcione Aparecida da Silva (UEM) afirma que a ausência é efeito do apagamento das mulheres negras nos registros coloniais. Lisa Earl Castillo lembra que tradições orais condensam vários acontecimentos em um nome. O Achado não afirma que Dandara existiu nem que não existiu: separa o documentado da tradição.

Fontes

  1. Jornal da Unesp — Pesquisas históricas lançam novos olhares sobre Luiza Mahin e Dandara
    consultada em 04/10/2026
  2. Biblioteca Florestan Fernandes, FFLCH-USP — Dandara dos Palmares
    consultada em 04/10/2026
  3. Presidência da República — Lei nº 13.816, de 24 de abril de 2019
    consultada em 04/10/2026
  4. Afro-Ásia, n. 64 (2021), Universidade Estadual de Campinas — O território dos Palmares: cartografia, história e política
    consultada em 04/10/2026
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