Astronomia

Cygnus X-1: como raios X, rádio e uma estrela binária levaram ao primeiro candidato a buraco negro, em 1972

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Estrelas

Em 1971, o satélite Uhuru mostrou que a fonte de raios X Cygnus X-1 variava de modo errático em menos de um décimo de segundo, sinal de um objeto compacto. A posição em rádio levou, em 1972, à estrela binária HDE 226868; a órbita indicou massa acima de 6 massas solares, bem acima do limite teórico para estrela de nêutrons.

Uma estrela comum não varia em milissegundos, mas um objeto pequeno que recebe gás de uma companheira pode. Em Cygnus X-1, os raios X vêm desse gás, aquecido ao cair sobre um objeto compacto: estrela de nêutrons ou buraco negro. Como o objeto não emite luz própria, a pergunta de 1972 era qual dos dois era. A resposta dependia da massa. A teoria dizia que uma estrela de nêutrons não passa de pouco mais de 3 massas solares; acima disso, só um buraco negro. A massa saía do movimento da companheira visível, medido pelo efeito Doppler (a mudança de cor da luz de um astro que se aproxima ou se afasta), combinado com a distância entre as duas estrelas. O raciocínio vinha com incerteza grande, e boa parte dela vinha da distância, mal conhecida na época.

Uma aposta entre dois físicos

Em 1974, Stephen Hawking e Kip Thorne apostaram sobre a existência de um buraco negro em Cygnus X-1. Uma revisão de 2024 chama o episódio de celebrado na história dos buracos negros; o desfecho da aposta não é detalhado aqui.

O que o Uhuru viu e o que isso permitia dizer

O Uhuru, primeiro satélite dedicado só à astronomia de raios X, foi lançado em 12 de dezembro de 1970 e operou até março de 1973. Em Cygnus X-1, viu pulsações erráticas, com tempos de menos de um décimo de segundo. O argumento era físico: um objeto que varia tão depressa e por inteiro não pode ser grande, e sem superfície a emissão fica caótica. Para um astrônomo da época, isso sugeria buraco negro, mas só sugeria: faltava saber se o objeto pesava mais do que uma estrela de nêutrons pode pesar.

Como se passa de um ponto de rádio a uma estrela

Raios X de 1971 davam posição imprecisa, grande demais para achar uma estrela. A saída foi o rádio: duas equipes anunciaram em 1971 uma contrapartida em rádio, com posição bem mais exata. Com ela, em 1972, Webster e Murdin, e Bolton, apontaram uma estrela azul brilhante, a HDE 226868, e mostraram, pela mudança periódica de velocidade, que ela é binária. Foi essa identificação que permitiu pesar o companheiro invisível.

O limite que separa estrela de nêutrons e buraco negro

Uma estrela de nêutrons é sustentada por pressão interna e só aguenta até certa massa. Giacconi cita, em 1974, o trabalho de Rhoades e Ruffini, que apontava que buracos negros teriam massa acima de 3,4 massas solares. Orosz et al. (2011) usam um limite de cerca de 3. O valor exato depende de como a matéria se comporta em densidade extrema, ainda em estudo, e por isso a conclusão de 1972 é um candidato, não uma prova.

De velocidade a massa: o raciocínio e sua fragilidade

O espectro dá só a parte da velocidade que aponta para nós. Para passar da velocidade observada à massa é preciso saber também a inclinação da órbita e a escala do sistema, que depende da distância. Por isso a estimativa de 1972, acima de 6 massas solares, vinha com incerteza larga, e houve modelos de 1973 com massa baixa. Em 2011, Orosz et al. notaram que a massa variava por fator de 11,7 na faixa de distâncias aceita; em 2021, a paralaxe em rádio reduziu a dúvida e deu cerca de 21 massas solares.

Como sabemos

A cadeia de 1971-1972 vem do relato de Giacconi e de uma revisão; os artigos originais de Nature, fechados, não foram lidos.

Fontes

  1. Nobel Foundation (NobelPrize.org) — The Dawn of X-Ray Astronomy (Nobel Lecture)
    Giacconi, R. · 2002 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Agência Espacial Europeia (ESA) — Integral's view of Cygnus X-1
    ESA · 2002 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. The Astrophysical Journal (versão arXiv) — The Mass of the Black Hole in Cygnus X-1
    Orosz, J. A.; McClintock, J. E.; Aufdenberg, J. P.; Remillard, R. A.; Reid, M. J.; Narayan, R.; Gou, L. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Science (versão arXiv) — Cygnus X-1 contains a 21-solar mass black hole - implications for massive star winds
    Miller-Jones, J. C. A. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. Galaxies (MDPI; versão arXiv) — Fifty Years After the Discovery of the First Stellar-Mass Black Hole: A Review of Cyg X-1
    Jiang, J. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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