Ciências da Terra
A curva Havaí–Imperador: o ponto quente andou ou a placa mudou de rumo? Os dados dos dois lados
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
A curva de cerca de 60° da cadeia Havaí–Imperador tem duas leituras em disputa. Tarduno e colegas, com paleomagnetismo de rochas perfuradas e distâncias entre cadeias, defendem que o ponto quente se deslocou para o sul e formou a curva. Torsvik e colegas aceitam alguma deriva, mas concluem que ela sozinha não basta e que a placa do Pacífico também mudou de rumo. Em 2017 a questão era descrita como não resolvida.
Um ponto quente é uma fonte de magma sob a placa; a placa passa por cima e deixa uma fila de vulcões cada vez mais velhos. Se a fonte for fixa, a forma da fila registra o movimento da placa, e a curva significaria que a placa mudou de direção. Se a fonte também se mexe, parte da forma vem dela. O teste central é o paleomagnetismo: minerais magnetizados nas lavas guardam a latitude em que a rocha se formou, que pode ser comparada com a latitude atual do Havaí. Os dois grupos leem esses dados de modos diferentes e usam também outros testes, de geometria e de modelos do manto.
Uma réplica na mesma revista
Os dois lados publicaram na Nature Communications: Torsvik e colegas em 2017 e Bono, Tarduno e Bunge em 2019. O segundo artigo responde de forma direta à anomalia de inclinação levantada pelo primeiro.
O lado do ponto quente móvel
Tarduno e colegas partem de amostras recuperadas por perfuração oceânica. Em 2003 concluíram que os montes Emperor foram formados principalmente pelo movimento rápido da pluma, a mais de 40 mm por ano. Em 2019, com Bono e Bunge, somaram a queda da distância entre as cadeias Havaí–Imperador e Louisville entre 63 e 52 Ma e dados de Midway, e passaram a atribuir a curva ao movimento do ponto quente, não da placa.
O lado da mudança de rumo da placa
Torsvik e colegas aceitam a deriva para o sul, mas citam modelos de manto que dão 4 a 9°, contra cerca de 19° de comprimento da cadeia Emperor. Sem mudança no rumo da placa, dizem, a deriva teria de ser rápida demais ou ter grande componente para oeste, que os modelos não preveem. Sharp e Clague (2006) acrescentam idades novas que, para eles, mostram que a curva não nasceu da desaceleração do ponto quente.
Onde os dois lados se encontram
Steinberger e colegas (2004) combinaram movimento de placas e fluxo do manto e reproduziram a curva com uma reconstrução de placas específica; Tarduno e colegas (2009) propõem que a pluma foi capturada por uma dorsal e depois afetada por mudanças no fluxo sob o Pacífico. As LLSVPs aparecem nos dois lados: Torsvik aponta a anomalia de inclinação perto da borda da LLSVP do Pacífico, e Bono sustenta que elas não são fixas.
O que falta para decidir
O ponto de maior atrito é a anomalia de inclinação do campo magnético perto do Havaí: Torsvik e colegas dizem que sua duração é desconhecida, e Bono e colegas respondem que Midway a descarta como fator relevante. Também se discute se há evidência de evento tectônico nas margens do Pacífico na mesma época. Enquanto esses pontos não convergirem, a curva segue como um dado com duas leituras publicadas.
Como sabemos
Os dois lados foram lidos em fontes primárias abertas, mas parte dos estudos só no resumo e o debate segue sem consenso.
Em debate: Tarduno e colegas (2003, 2009) e Bono, Tarduno e Bunge (2019) defendem que a deriva rápida da pluma para o sul formou a curva, com o true polar wander excluído. Torsvik e colegas (2017) aceitam a deriva, mas concluem que ela não basta e que houve mudança no rumo da placa; Sharp e Clague (2006) apontam idades e eventos coincidentes a favor da placa. Em 2017 a questão era descrita como não resolvida.
- Fato estabelecido: Tarduno e colegas (2003) concluíram, com dados paleomagnéticos e de idade de amostras recuperadas por perfuração oceânica, que os montes submarinos Emperor foram formados principalmente pelo movimento rápido (mais de 40 mm por ano) da pluma do Havaí, do fim do Cretáceo ao início do Terciário. [1] Resumo
Contexto: Conclusão dos autores do estudo de 2003, baseado em amostras de perfuração oceânica; é uma das duas leituras em disputa. · Limitações: Só o resumo foi lido; a afirmação é o que os autores concluem, não consenso. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: O paleomagnetismo das rochas perfuradas nos montes Emperor mostra paleolatitudes diferentes da latitude atual do Havaí, mas a diferença é ambígua: pode refletir deriva do ponto quente, rotação da Terra sólida em relação ao eixo de rotação (true polar wander, TPW), contribuição não dipolar do campo magnético, ou uma combinação. [3] Introdução
Contexto: Torsvik et al. (2017) descrevem o que os deslocamentos de latitude podem significar; o TPW é definido pelos autores no segundo trecho. · Limitações: Os próprios autores dizem que os dados paleomagnéticos dos montes Emperor são ambíguos para limitar a deriva; a interpretação depende de correções que cada grupo faz de modo diferente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Bono, Tarduno e Bunge (2019) usaram a distância entre montes submarinos das cadeias Havaí–Imperador e Louisville, de idades parecidas, e relatam que ela diminuiu bastante entre 63 e 52 Ma; para eles isso confirma a deriva rápida do ponto quente havaiano para o sul (cerca de 47 mm por ano) e exclui o true polar wander como fator relevante. [4] Seção 'True polar wander revisited'
Contexto: Pares de montes submarinos com idades dentro de 3 milhões de anos entre si, em duas cadeias do Pacífico; Ma = milhões de anos atrás. · Limitações: Interpretação dos autores do lado do ponto quente móvel; Torsvik et al. (2017) chegam a conclusão diferente sobre o peso da deriva na formação da curva. · Posição de um dos lados de um debate publicado entre especialistas; o outro lado chega a conclusão diferente com os mesmos dados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Dados paleomagnéticos de perfurações no atol de Midway, com cerca de 28 milhões de anos, indicam que a pluma havaiana já estava na latitude atual naquela idade; Bono e colegas usam isso para sustentar que o registro de latitude do Havaí é confiável e que a curva foi causada pelo movimento do ponto quente, não da placa. [4] Resumo
Contexto: Midway fica na parte mais jovem da cadeia (trecho havaiano); as conclusões sobre a curva são dos autores. · Limitações: A segunda frase é conclusão dos autores; o grupo de Torsvik sustenta o oposto. · Posição de um dos lados de um debate publicado entre especialistas; o outro lado chega a conclusão diferente com os mesmos dados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Torsvik e colegas (2017) concluem que a deriva do ponto quente para o sul, sozinha, não pode ser o mecanismo principal da curva: os modelos geodinâmicos dão uma deriva de 4 a 9°, insuficiente para os cerca de 19° de comprimento norte-sul da cadeia Emperor se a placa não mudou de direção. [3] Discussão
Contexto: Argumento do lado da mudança de rumo da placa; os números de 4 a 9° vêm de modelos de fluxo do manto, não de medição direta. · Limitações: Depende dos modelos de fluxo do manto; Bono et al. (2019) afirmam que esse tipo de modelo tende a subestimar a deriva indicada pelo paleomagnetismo. · Posição de um dos lados de um debate publicado entre especialistas; o outro lado chega a conclusão diferente com os mesmos dados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Numa simulação simples dos autores, atribuir todo o comprimento norte-sul da cadeia Emperor à deriva do ponto quente, sem mudança no movimento da placa, obrigaria a cadeia a se formar em cerca de 5 milhões de anos e faria o monte Detroit ter 52 milhões de anos, o que contradiz suas idades radiométricas (75 a 81 Ma). [3] Resultados, Moving hotspot reference frames
Contexto: Cenário extremo construído por Torsvik et al. para testar a hipótese; não é uma reconstrução do que ocorreu. · Limitações: Simulação cinemática simplificada, resultado dependente das premissas adotadas pelos autores. · Simulação dos autores; não é observação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Se a placa do Pacífico tivesse se movido de forma contínua para noroeste antes e depois da curva, a deriva do ponto quente teria de incluir muito deslocamento para oeste, e os modelos de fluxo do manto não preveem esse componente oeste. [3] Resultados
Contexto: Argumento de Torsvik et al. (2017), apoiado em modelos geodinâmicos que predizem deriva do norte para o sul. · Limitações: O argumento depende de os modelos geodinâmicos descreverem bem o fluxo do manto; o grupo de Tarduno discute essa premissa. · Posição de um dos lados de um debate publicado entre especialistas; o outro lado chega a conclusão diferente com os mesmos dados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Torsvik e colegas apontam um limite do paleomagnetismo no Havaí: o campo geomagnético pode ter uma anomalia de inclinação perto do Havaí, ligada à borda da grande província de baixa velocidade sísmica (LLSVP) do Pacífico, e a duração dessa anomalia é desconhecida. [3] Resultados, Palaeomagnetic estimates
Contexto: A anomalia medida em lavas jovens do Havaí é de poucos graus de latitude; se existiu no passado, afetaria as paleolatitudes dos montes Emperor. · Limitações: Os autores dizem que o tema ainda precisa ser tratado; Bono et al. (2019) respondem na afirmação seguinte. · Questão aberta apontada pelos próprios autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Bono e colegas respondem que os dados de Midway mostram que o Havaí não tem anomalia de gravação capaz de afetar os testes paleomagnéticos de deriva do ponto quente, e que a incerteza do valor citado pelo outro grupo, tirado de lavas de cerca de 425 mil anos, é várias vezes maior que o valor nominal da anomalia. [4] Resultados, The paleolatitude of Midway
Contexto: Réplica direta de Bono et al. (2019) a Torsvik et al. (2017). · Limitações: É a posição de um dos lados do debate. · Posição de um dos lados de um debate publicado entre especialistas; o outro lado chega a conclusão diferente com os mesmos dados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Em debate: Sharp e Clague (2006) obtiveram novas idades para vulcões do centro e do sul da cadeia Emperor e concluíram que a curva não se formou por desaceleração do ponto quente havaiano; o início da curva, perto do monte Kimmei, coincidiu com o realinhamento de centros de espalhamento do Pacífico e com magmatismo inicial em arcos do Pacífico ocidental, o que seria consistente com mudança no movimento da placa. [5] Resumo
Contexto: Resultado de geocronologia de 2006; as idades são a base do argumento a favor da mudança de rumo da placa. · Limitações: Só o resumo foi lido; é interpretação dos autores. · Posição de um dos lados de um debate publicado entre especialistas; o outro lado chega a conclusão diferente com os mesmos dados. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Em debate: Os dois lados divergem sobre se há registro, nas bordas do Pacífico, de um evento tectônico da mesma época: Torsvik e colegas relatam que Norton considerava esse registro ausente e concluía que a curva refletia o movimento de um ponto quente não estacionário, e Bono e colegas também citam a falta de evidência geológica clara de um evento profundo nas margens do Pacífico; Sharp e Clague apontam eventos coincidentes. [3] Introdução [4] Resultados, Creating the Hawaiian-Emperor Bend morphology [5] Resumo
Contexto: A posição de Norton não foi lida por nós: segundo Torsvik et al. (2017), Norton argumentava isso. Torsvik et al. citam o argumento para discuti-lo. · Limitações: Fonte de segunda mão para a posição de Norton; ela não é a posição do próprio grupo de Torsvik. · Debate real, com autores dos dois lados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Steinberger, Sutherland e O'Connell (2004) mostraram que reconstruções globais de movimento de placas não preveem a curva e que modelos de fluxo global do manto preveem deslocamento do ponto quente para o sul; combinando os dois, o traço da cadeia é reproduzido até 65 milhões de anos atrás, incluindo a curva, se se usar uma reconstrução via Austrália e Lord Howe Rise. [6] Resumo
Contexto: Modelo combinado de movimento de placas, deformação intraplaca e fluxo do manto; a conclusão depende de qual reconstrução de placas se usa. · Limitações: Só o resumo foi lido; os autores atribuem a diferença entre as duas reconstruções a deformação intraplaca ainda não reconhecida. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Tarduno, Bunge, Sleep e Hansen (2009) propõem que curvas em trilhas de pontos quentes podem ser causadas por mudança no local de ascensão no manto: no caso havaiano, a captura da pluma por uma dorsal, seguida de mudanças no fluxo do manto sob o Pacífico, explicaria melhor as observações do que uma mudança de rumo da placa. [2] Resumo
Contexto: Hipótese de 2009 baseada em modelagem inversa; as dinâmicas citadas são do manto sob o Pacífico. · Limitações: Só o resumo foi lido; hipótese, não observação. · Hipótese apresentada pelos autores como a que melhor explica as observações disponíveis em 2009. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Hipótese: Bono e colegas sustentam que a deriva rápida da pluma foi provavelmente produzida pela interação entre pluma e dorsal e pela influência mais profunda da LLSVP do Pacífico, e que essas províncias profundas não são fixas. [4] Resumo
Contexto: Interpretação dos autores; LLSVPs são regiões extensas de baixa velocidade de ondas sísmicas na base do manto, vistas nas tomografias. · Limitações: A fixidez das LLSVPs é discutida na literatura; Torsvik et al. (2017) tratam a LLSVP do Pacífico como persistente ao longo do Mesozoico e do Cenozoico. · Hipótese; não consenso. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 2017, Torsvik e colegas descreviam a questão como não resolvida e ainda debatida com vigor, ao mesmo tempo em que diziam que a ideia de que o ponto quente se moveu no período da cadeia Emperor é geralmente aceita, com algumas vozes dissidentes. [3] Resultados
Contexto: Descrição de Torsvik et al. (2017); Bono et al. (2019) mostram que o debate seguia ativo dois anos depois. · Limitações: Descreve o estado do debate em 2017, não uma conclusão sobre qual lado está certo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Science (resumo no PubMed/NCBI) — The Emperor Seamounts: southward motion of the Hawaiian hotspot plume in Earth's mantle
Tarduno, J. A. et al. · 2003 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1086442 - Science (resumo no PubMed/NCBI) — The bent Hawaiian-Emperor hotspot track: inheriting the mantle wind
Tarduno, J., Bunge, H.-P., Sleep, N., Hansen, U. · 2009 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1161256 - Nature Communications (Universidade de Oslo, CEED) — Pacific plate motion change caused the Hawaiian-Emperor Bend
Torsvik, T. H., Doubrovine, P. V., Steinberger, B., Gaina, C., Spakman, W., Domeier, M. · 2017 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/ncomms15660 - Nature Communications (Universidade de Rochester) — Hotspot motion caused the Hawaiian-Emperor Bend and LLSVPs are not fixed
Bono, R. K., Tarduno, J. A., Bunge, H.-P. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-11314-6 - Science (resumo no PubMed/NCBI) — 50-Ma initiation of Hawaiian-Emperor bend records major change in Pacific plate motion
Sharp, W. D., Clague, D. A. · 2006 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1128489 - Nature (resumo no PubMed/NCBI) — Prediction of Emperor-Hawaii seamount locations from a revised model of global plate motion and mantle flow
Steinberger, B., Sutherland, R., O'Connell, R. J. · 2004 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1038/nature02660
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 18; conferência de trechos automatizada)