Ciências da Terra

Crostas de cobalto do Elevado do Rio Grande: o contrato do Brasil com a ISA durou de 2015 a 2022

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Em 2015 a CPRM (Serviço Geológico do Brasil) assinou com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) um contrato de 15 anos para explorar crostas ricas em cobalto no Elevado do Rio Grande, em 150 blocos de 20 km² cada. A tabela da ISA registra rescisão voluntária com efeito em 27 de junho de 2022, depois de o governo concluir que o contrato contradizia o pedido à ONU de incluir a região na plataforma continental brasileira.

Crostas ferromanganesíferas são camadas de óxidos de ferro e manganês que se depositam, a partir de metais dissolvidos na água do mar, sobre rocha nua de montes submarinos, cordilheiras e platôs, onde as correntes impedem o acúmulo de sedimento. Crescem muito devagar e retêm metais como cobalto, níquel e platina. A ISA, criada pela Convenção do Mar, controla a exploração mineral da "Área", o fundo marinho além das jurisdições nacionais, e assina contratos de exploração com Estados e empresas. O Elevado do Rio Grande, um platô submarino do Atlântico Sul (sua origem geológica é tema de outro post), foi o alvo do único contrato brasileiro desse tipo.

Crostas que levam milhões de anos para engrossar

No topo do Elevado, em 650 a 825 m de profundidade, as crostas mais antigas começaram a se formar há cerca de 48 a 55 milhões de anos, e depois foram transformadas por fosfatização no Mioceno. A geração mais jovem tem teor médio de 0,66% de cobalto.

O que são as crostas e o que há nelas

Segundo a ISA, as crostas crescem sobre rocha vulcânica por precipitação de metais dissolvidos na água, onde correntes varrem o sedimento. O teor de cobalto pode chegar a 2%, e há platina e terras raras. No topo do Elevado do Rio Grande, porém, as crostas analisadas são pobres em cobalto e terras raras como um todo, e ricas em níquel e lítio. Só a geração mais jovem, de 0,66% de cobalto em média, se parece com a crosta "típica" de interesse econômico.

Como sabemos: dragar, tomografar, datar

As amostras vieram de dragagens no topo do Elevado, a 650 a 825 m. Em laboratório, tomografia computadorizada e difração de raios X mostraram a estrutura e os minerais, a razão 87Sr/86Sr e os isótopos de urânio e tório deram idades, e várias técnicas deram a composição química. O limite está na amostragem: são crostas rasas, e os autores afirmam que as de águas mais fundas, menos sujeitas à fosfatização, merecem estudo próprio. Esta página lê só o resumo do artigo.

Por que o contrato acabou

A Convenção do Mar reserva à ISA a "Área", fundo além das jurisdições nacionais. Em 2018, o Brasil pediu à ONU que o Elevado entrasse na sua plataforma continental estendida, o que abrange todos os blocos contratados. Em 15 de setembro de 2020, a CIRM concluiu que manter o contrato contradizia esse pedido. O conselho da CPRM autorizou a renúncia em 16 de setembro de 2021, e a ISA registra rescisão voluntária com efeito em 27 de junho de 2022. Não verificamos se a ONU já se manifestou sobre o pedido.

O que não se sabe sobre o ambiente

A ISA recomenda levantamentos de linha de base da fauna e do ambiente antes de explorar crostas. Um estudo de 2020 em montes submarinos do Pacífico lembra que muitas espécies do fundo são desconhecidas ou não descritas e que há poucos estudos genéticos sobre como as populações se conectam. Isso vale como panorama geral: não achamos em fonte acessível um inventário da fauna do Elevado do Rio Grande, e não dá para dizer o que lá existiria ou seria afetado.

Como sabemos

Contrato, datas e decisões brasileiras estão em documentos oficiais; os teores vêm só do resumo de um artigo e o estado final do contrato depende da tabela da ISA.

Fontes

  1. International Seabed Authority — Cobalt-rich Ferromanganese Crusts (página e tabela de contratos de exploração)
    International Seabed Authority · 2026 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. International Seabed Authority — ISA and Brazil sign contract for exploration for cobalt-rich ferromanganese crusts in the Rio Grande Rise
    International Seabed Authority · 2015 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  3. Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais / Serviço Geológico do Brasil — Ata da 281ª reunião do Conselho de Administração da CPRM (16/09/2021)
    CPRM, Conselho de Administração · 2021 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Comissão Interministerial para os Recursos do Mar / Marinha do Brasil — Resolução nº 18, de 15 de setembro de 2020, da CIRM (na listagem de atos normativos vigentes publicada pela ANA)
    Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM) · 2020 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  5. Minerals (registro do USGS) — Genesis and evolution of ferromanganese crusts from the summit of Rio Grande Rise, southwest Atlantic Ocean
    Benites, M.; Hein, J. R.; Mizell, K.; Blackburn, D.; Jovane, L. · 2020 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3390/min10040349
  6. PLOS ONE — Deep-sea amphipods around cobalt-rich ferromanganese crusts: Taxonomic diversity and selection of candidate species for connectivity analysis
    Tanaka, H. et al. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0228483
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

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