Ciências da Terra
Os crátons do Brasil: o Amazônico, o São Francisco e os cinturões neoproterozoicos que o envolveram
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
Entre os crátons do território brasileiro estão o Amazônico, formado pelos escudos das Guianas e do Brasil Central, e o São Francisco, de embasamento com mais de 1,8 bilhão de anos. O São Francisco foi envolvido por cinturões dobrados formados na montagem do Gondwana, sobretudo entre 630 e 500 milhões de anos atrás, e parte de sua margem foi incorporada a eles.
Cráton (núcleo antigo e estável de um continente) já foi explicado em outro post; aqui o foco é onde eles ficam no Brasil. Escudo é a parte de um cráton em que a rocha antiga aflora. Cinturão dobrado (ou orógeno) é a faixa de rochas deformadas por colisão entre blocos de crosta. Os cinturões Brasilianos, ligados a colisões do fim do Neoproterozoico ao Cambriano inicial, cercam o São Francisco ao norte (Rio Preto, Riacho do Pontal, Sergipano) e ao sudeste (Araçuaí). Estruturas equivalentes na África mostram que o bloco continuava do outro lado do Atlântico.
O cinturão que é feito de cráton
A Província Borborema, no Nordeste, parece ser em grande parte o próprio cráton retrabalhado: até 65% de suas rochas seriam antigas e ligadas ao São Francisco e ao Escudo Benino-Nigeriano, fatiadas por zonas de cisalhamento.
Amazônico: dois escudos separados por um rifte
O cráton Amazônico aflora em dois escudos, o das Guianas ao norte e o do Brasil Central ao sul, com o sistema Solimões-Amazonas entre eles, instalado em uma antiga zona de rifte [a1]. Núcleos arqueanos são margeados por cinturões progressivamente mais jovens para sudoeste, até o orógeno Sunsás [a2]. Em Carajás, a crosta foi afetada pela Orogenia Transamazônica, de 2,26 a 1,86 bilhões de anos [a3].
São Francisco: embasamento antigo e margens dobradas
O São Francisco tem embasamento com mais de 1,8 bilhão de anos [a5]. Ao norte, cinturões de empurrão curvos, como Rio Preto, Riacho do Pontal e Sergipano [a6], foram interpretados como o fechamento de um oceano estreito [a7]. Ao sudeste, o Araçuaí vem do fechamento de um golfo do Adamastor [a8]. Esses cinturões fazem parte da rede de orógenos que montou o Gondwana [a9].
Decratonização: quando o cinturão é feito do cráton
No Nordeste, a extensão separou o São Francisco do Escudo Benino-Nigeriano e, depois, a colisão deformou a região [a10]. A Borborema teria até 65% de rochas antigas ligadas ao cráton e só cerca de 15% de material novo [a11], em blocos de 10.000 a 40.000 km² entre zonas de cisalhamento [a12]. Para Ganade e colegas, a extensão enfraqueceu o cráton antes da colisão [a14]; outro modelo atribui a perda de manto a fragmentos que se afastaram [a15].
Como sabemos o que há sob a superfície
Poucas dessas estruturas se veem inteiras no terreno. A idade vem de zircões datados por U-Pb e de idades-modelo de samário-neodímio, que indicam quando a crosta se separou do manto; a forma em profundidade vem de gravidade e sísmica [a4]; o esfriamento recente do embasamento, de traços de fissão em apatita [a13]. Cada método tem margem de erro, e modelos como o da decratonização são interpretações a partir desses dados.
Como sabemos
A geografia dos crátons e dos cinturões está bem sustentada; as idades do desmembramento, a proporção de cráton na Borborema e a extensão da crosta arqueana amazônica são estimativas ou modelos de poucos estudos.
Em debate:
- Consenso científico: O cráton Amazônico tem duas áreas de embasamento exposto, os escudos das Guianas, ao norte, e do Brasil Central, ao sul, separados por um sistema fluvial Solimões-Amazonas instalado em uma antiga zona de rifte. [5] Seção sobre a geodiversidade
Contexto: Cráton Amazônico, na bacia de drenagem amazônica. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: No cráton Amazônico, núcleos arqueanos são margeados por cinturões orogênicos progressivamente mais jovens para sudoeste, até o orógeno Sunsás, de cerca de 1,2 a 1,0 bilhão de anos. [2] Seção sobre o fechamento do oceano Goiás-Pharusiano
Contexto: Descrição de síntese de uma revisão; o Sunsás fica no sudoeste do cráton. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A Província Mineral de Carajás, no cráton Amazônico, foi envolvida depois em um evento de deformação em escala de cráton entre 2,26 e 1,86 bilhões de anos atrás, a Orogenia Transamazônica. [4] Introdução
Contexto: Sudeste do cráton Amazônico; "CMP" é a Província Mineral de Carajás. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Dados de gravidade por satélite, validados com sísmica passiva e geocronologia, sugerem que a crosta arqueana na região de Carajás é bem maior do que se supunha, e não apenas núcleos restritos cercados por cinturões mais jovens. [4] Introdução
Contexto: Sudeste do cráton Amazônico (Carajás e arredores). · Limitações: Resultado de um único estudo, de modelagem indireta; a extensão da crosta arqueana no restante do cráton não é abordada. · Interpretação dos autores a partir de gravidade, sísmica passiva e idades; não é observação direta da crosta profunda. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O cráton São Francisco tem embasamento arqueano-paleoproterozoico com mais de 1,8 bilhão de anos, coberto em parte por unidades do Mesoproterozoico ao Cambriano. [3] Geological background
Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na margem norte do cráton São Francisco-Congo há cinturões dobrados e de empurrão em arco nas zonas externas dos orógenos Rio Preto, Riacho do Pontal e Sergipano, no Brasil, e de Yaoundé e Centro-Africano, na África. [2] Seção sobre o oceano Transnordestino-Centro-Africano
Contexto: Margem norte do paleocontinente São Francisco-Congo; Rio Preto, Riacho do Pontal e Sergipano ficam no Brasil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Esses cinturões do norte representam, segundo o modelo de Caxito e Alkmim, o fechamento de um oceano estreito em forma de V, o Transnordestino-Centro-Africano. [2] Seção sobre o oceano Transnordestino-Centro-Africano
Limitações: É um modelo de evolução proposto pelos autores; há outras interpretações para a origem dos orógenos de Gondwana. · Modelo, não observação direta; o artigo cita também ofiolitos no orógeno Riacho do Pontal como evidência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Ao sudeste do cráton São Francisco fica o cinturão Araçuaí, parte do orógeno Araçuaí-Congo Ocidental, que se formou do Ediacarano ao Cambriano inicial com o fechamento de um golfo do oceano Adamastor entalhado no paleocontinente São Francisco-Congo. [3] Geological background
Contexto: "AWCO" é o orógeno Araçuaí-Congo Ocidental. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os sistemas orogênicos Brasiliano/Pan-Africano formam uma rede de orógenos entre os crátons sul-americanos e africanos, desenvolvida principalmente entre 630 e 500 milhões de anos atrás. [2] Introdução
Contexto: Montagem do Gondwana Ocidental; o intervalo é o principal, não o limite absoluto. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Entre cerca de 1,0–0,92 e 0,9–0,82 bilhão de anos atrás, uma extensão intermitente afastou o cráton São Francisco do Escudo Benino-Nigeriano; depois, por volta de 0,60 bilhão de anos, uma bacia oceânica embrionária foi invertida e a orogenia transpressiva avançou a partir de cerca de 0,59. [1] Resumo
Contexto: Região de contato entre o norte do cráton e a Província Borborema, no Nordeste. · Limitações: Idades são intervalos estimados por geocronologia e podem mudar com novos dados. · Datas aproximadas ("ca.") do estudo de Ganade e colegas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: A Província Borborema, no Nordeste, seria composta por até 65% de rochas antigas muito cisalhadas ligadas ao cráton São Francisco/Benino-Nigeriano, com só cerca de 15% de material juvenil acrescentado no orógeno neoproterozoico. [1] Resumo
Contexto: Compilação de idades U-Pb e idades-modelo Nd da Província Borborema. · Limitações: "Até 65%" é um teto estimado de uma compilação de dados, não uma medida direta do volume. · Estimativa; o valor depende da qualidade e da cobertura da compilação. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Os terrenos antigos incluídos na Borborema são relativamente pequenos, de 10.000 a 40.000 km², e limitados por grandes zonas de cisalhamento continentais. [1] Introdução
Contexto: Terrenos arqueanos-paleoproterozoicos retrabalhados na Província Borborema. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na transição entre o cráton São Francisco e o orógeno Araçuaí, amostras do cráton mostram resfriamento lento do embasamento no Fanerozoico, enquanto as do orógeno mostram exumação rápida desde o Eoceno. [3] Resumo
Contexto: Traços de fissão em apatita no leste do Brasil. · Limitações: Estudo regional de amostras de uma região; o resultado vale para a área estudada e não para toda a borda do cráton. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Na interpretação de Ganade e colegas, a extensão enfraqueceu regiões cratônicas em um processo de decratonização, preparando-as para participar das orogenias que levaram à amalgamação do Gondwana. [1] Resumo
Contexto: Nordeste do Brasil e orógenos Brasiliano/Pan-Africanos comparáveis. · Limitações: Os autores indicam variações locais; é um modelo, não um consenso. · Interpretação dos autores, apresentada como uma evolução que se repete em outros orógenos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Segundo o modelo de Caxito e Alkmim, fragmentos continentais afastados do paleocontinente São Francisco-Congo perderam boa parte do manto litosférico e foram decratonizados ao se deslocarem rumo ao oceano externo. [2] Resumo
Contexto: Modelo para o Gondwana Ocidental. · Limitações: Proposta de um modelo; não é consenso. · Hipótese de modelo geodinâmico, escrita como tal. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Scientific Reports — Decratonization by rifting enables orogenic reworking and transcurrent dispersal of old terranes in NE Brazil
Ganade, C. E.; Weinberg, R. F.; Caxito, F. A.; Lopes, L. B. L.; Tesser, L. R.; Costa, I. S. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-84703-x - Scientific Reports — The role of V-shaped oceans and ribbon continents in the Brasiliano/PanAfrican assembly of western Gondwana
Caxito, F. A.; Alkmim, F. F. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-28717-7 - Scientific Reports — Differential exhumation of cratonic and non-cratonic lithosphere revealed by apatite fission-track thermochronology along the edge of the São Francisco craton, eastern Brazil
Fonseca, A.; Cruz, S.; Novo, T.; He, Z.; De Grave, J. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-06419-w - Scientific Reports — Archean crust and metallogenic zones in the Amazonian Craton sensed by satellite gravity data
Motta, J. G.; de Souza Filho, C. R.; Carranza, E. J. M.; Braitenberg, C. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-019-39171-9 - Philosophical Transactions of the Royal Society A — Geodiversity in the Amazon drainage basin
Alsbach, C. M. E.; Seijmonsbergen, A. C.; Hoorn, C. · 2024 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsta.2023.0065
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)