Ciências da Terra

O que é um cráton: o núcleo antigo dos continentes, cuja raiz resiste por bilhões de anos, mas nem sempre

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Cráton é o núcleo antigo de um continente: crosta e manto superior formados há mais de 2,5 bilhões de anos e, em geral, estáveis desde então. Sob ele há uma raiz de manto com mais de 200 km em alguns pontos, fria e, por ter perdido material fundível, leve e rígida, o que a protege da erosão pelo manto em convecção. Não é eterna: partes dos crátons africanos e do Norte da China foram removidas.

A litosfera é a camada externa rígida da Terra, formada pela crosta e pela parte superior do manto. Sob a maior parte dos continentes ela é mais fina, mas sob os crátons uma raiz de manto desce por centenas de quilômetros. O Arqueano é o intervalo geológico anterior a 2,5 bilhões de anos. Como ninguém perfura essa raiz, ela é reconhecida por três tipos de pista: ondas sísmicas que correm mais rápido em rocha fria, fragmentos de manto (xenólitos) trazidos por vulcões e diamantes lançados por kimberlitos, rochas que só sobem de grande profundidade. Cada pista tem limites, e a confiança vem da combinação delas.

Diamante como régua de espessura

Diamantes só se formam sob pressão alta, em manto profundo e frio. Quando um kimberlito com diamantes chega à superfície, ele indica que havia litosfera espessa naquele lugar e naquele momento. Se hoje a litosfera ali é fina, algo a removeu.

Como sabemos que existe uma raiz

A raiz não é vista; é inferida. A tomografia sísmica mostra velocidades altas entre cerca de 100 e 200 km, sinal de rocha fria [a7]. Kimberlitos com diamantes indicam que a litosfera era espessa quando entraram em erupção [a8]. Xenólitos de manto de vários crátons têm idades-modelo de rênio-ósmio acima de 3.600 milhões de anos [a6]. Cada método tem limites: a tomografia tem baixa resolução onde há poucos sismógrafos, e idade-modelo é estimativa.

Por que a raiz resiste

Quando o manto derrete e dá origem a magma, o que sobra perde ferro e voláteis. Esse resíduo é mais leve e mais rígido, e por isso resiste à erosão pelo manto em convecção [a4]. Sob a maioria dos crátons arqueanos há raízes assim, em alguns pontos com mais de 200 km [a3]. No cráton de Yilgarn, a crosta evoluída passou a se preservar quando entrou magma novo do manto, o que liga estabilização a manto empobrecido [a5]. O gatilho dessa mudança, porém, segue especulativo.

Quando a raiz é destruída

Os crátons não são imunes. Na África, a maioria dos kimberlitos com diamantes está hoje onde a litosfera é fina, o que sugere erosão ampla nos últimos 200 milhões de anos, perto de grandes províncias ígneas atribuídas a plumas [a9][a10]. No leste do cráton do Norte da China, uma raiz de mais de 200 km foi trocada por manto de cerca de 75 km, enquanto o oeste segue quase intacto [a13]. O que é consenso é que há destruição documentada; o mecanismo é debatido [a11].

O que ainda é incerto

Os autores do estudo africano concluem que o volume total de litosfera cratônica diminuiu desde o Arqueano [a12], mas isso extrapola dados regionais e é tratado como hipótese. Modelos numéricos sugerem ainda que raiz afundada pode ficar misturada no manto por bilhões de anos [a14]. Falta saber como plumas enfraquecem a raiz e como ela é removida depois; os próprios autores do estudo africano chamam isso de problema em aberto.

Como sabemos

A definição e o mecanismo de estabilidade são bem apoiados; o mecanismo de destruição e a extensão global dela ainda são debatidos.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Communications — African cratonic lithosphere carved by mantle plumes
    Celli, N. L.; Lebedev, S.; Schaeffer, A. J.; Gaina, C. · 2020 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-019-13871-2
  2. Nature Communications — Crustal rejuvenation stabilised Earth's first cratons
    Mulder, J. A.; Nebel, O.; Gardiner, N. J.; Cawood, P. A.; Wainwright, A. N.; Ivanic, T. J. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-021-23805-6
  3. National Science Review — Linking deep CO2 outgassing to cratonic destruction
    Wang, Z.-X.; Liu, S.-A.; Li, S.; Liu, D.; Liu, J. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/nsr/nwac001
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Accretion of the cratonic mantle lithosphere via massive regional relamination
    Wang, Z.; Capitanio, F. A.; Wang, Z.; Kusky, T. M. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2201226119
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)

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