Astronomia

Araguainha, Serra da Cangalha e Colônia: como se prova que uma estrutura do Brasil é cratera de impacto

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Um círculo no mapa não prova um impacto: a prova está nas rochas, em marcas que só um choque violento deixa, como cones de estilhaçamento, quartzo com lamelas de choque e rocha fundida. Araguainha (MT/GO), com cerca de 40 km, é a maior cratera de impacto da América do Sul e reúne esses sinais. Serra da Cangalha (13,7 km) tem cones e quartzo com dúvidas; Colônia (3,6 km, SP) ganhou evidências de choque em 2013.

Uma cratera de impacto grande perde o relevo com o tempo: a erosão remove o material lançado e preenche o buraco. Sobra a estrutura por baixo, rochas dobradas, falhadas e quebradas em anel. Mas um anel pode ter outras origens, como vulcões. Por isso se procuram feições de metamorfismo de choque, efeitos de uma onda de pressão que passa pela rocha em frações de segundo. Pressão aqui vem em GPa (gigapascal): 1 GPa equivale a cerca de 9.900 vezes a pressão atmosférica ao nível do mar (conta nossa). Cones de estilhaçamento (fraturas cônicas estriadas) surgem a partir de uns 2 GPa; lamelas de choque no quartzo (as PDFs) exigem 8 a 10 GPa ou mais. Brecha é rocha feita de fragmentos de outras rochas quebradas e recimentadas.

A cratera que só os poços mostraram

Em Colônia, a prova veio de dentro: duas sondagens, de 142 e 197 m, atravessaram sedimentos pós-impacto e chegaram a uma brecha entre 110 e 40 m de profundidade, cujos grãos de quartzo guardavam lamelas de choque.

Como sabemos: marcas de choque, não formato

A forma circular é só um primeiro indício: estruturas assim podem ter outras origens, e por isso se procura metamorfismo de choque. O cone de estilhaçamento é visível a olho nu no afloramento e começa a se formar com cerca de 2 GPa. As lamelas no quartzo, que exigem 8 a 10 GPa ou mais, só aparecem ao microscópio. Cones, brechas e rocha fundida revelam o impacto no campo; quartzo e zircão, no laboratório. Em estruturas muito erodidas, os cones podem ser a única marca observada.

Araguainha: a mais completa e com idade medida

Com cerca de 40 km, Araguainha preserva um soerguimento central de rochas profundas, cones, brechas e rocha fundida. A erosão levou quase todos os depósitos de impacto, mas o piso manteve a geometria de anéis concêntricos. A datação de monazita e de quartzo formado depois do impacto deu 254,7 ± 2,5 milhões de anos, próxima do limite Permiano-Triássico. Os autores concluem, porém, que a energia estimada do impacto não bastaria para causar sozinha a extinção em massa.

Serra da Cangalha: cones claros, quartzo em discussão

A estrutura de 13,7 km, na divisa de Tocantins e Maranhão, tem cones de estilhaçamento, brechas e anéis visíveis em imagens de satélite, causados por camadas inclinadas que a erosão tratou de modo desigual. Um resumo de congresso de 2010 chama as lamelas de choque no quartzo de evidência inequívoca; o artigo de 2011, dos mesmos autores, fala em lamelas de choque possíveis. Por isso aqui os cones são a prova firme e o quartzo fica como indício a confirmar.

Colônia: do anel suspeito à brecha sondada

A depressão de 3,6 km, ao sul da cidade de São Paulo, era suspeita de impacto por dados geológicos e geofísicos, sem cones nem lamelas observados. Em 2013, a equipe de Velázquez analisou 60 amostras de duas sondagens e encontrou, na brecha entre 110 e 40 m, lamelas de choque, sílica ballen e zircão granular, sugerindo pressão acima de 60 GPa. É o caso brasileiro em que a prova depende mais de perfuração, não de afloramento. Outras estruturas circulares do país não foram tratadas aqui.

Como sabemos

Araguainha e Colônia têm fonte lida em texto integral ou resumo de artigo; a Serra da Cangalha depende de um resumo de artigo e de um de congresso, que divergem num ponto.

Em debate: Um resumo de congresso de 2010 classifica as lamelas de choque no quartzo como evidência inequívoca; o resumo do artigo de 2011, dos mesmos autores, fala em lamelas "possíveis". Os cones de estilhaçamento sustentam o impacto nos dois.

Fontes

  1. Meteoritics & Planetary Science (cópia no repositório da Universidade da Austrália Ocidental) — Structural evolution of the 40 km wide Araguainha impact structure, central Brazil
    Lana, C. et al. · 2008 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  2. Geochimica et Cosmochimica Acta (registro no portal de pesquisa da Universidade de St Andrews) — Geochronological constraints on the age of a Permo-Triassic impact event: U-Pb and Ar-40/Ar-39 results for the 40 km Araguainha structure of central Brazil
    Tohver, E. et al. · 2012 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.gca.2012.03.005
  3. European Planetary Science Congress (EPSC Abstracts, v. 5) — The structure of the Serra da Cangalha impact crater, Tocantins, Brazil
    Kenkmann, T.; Vasconcelos, M.; Reimold, W. U.; Crósta, A. · 2010 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
  4. Meteoritics & Planetary Science (registro na Biblioteca Virtual da FAPESP) — The complex impact structure Serra da Cangalha, Tocantins State, Brazil
    Kenkmann, T.; Vasconcelos, M. A. R.; Crósta, A. P.; Reimold, W. U. · 2011 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1111/j.1945-5100.2011.01199.x
  5. International Journal of Geosciences — Evidence of Shock Metamorphism Effects in Allochthonous Breccia Deposits from the Colônia Crater, São Paulo, Brazil
    Velázquez, V. F. et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.4236/ijg.2013.41A025
  6. Science Advances — Shatter cones: (Mis)understood?
    Osinski, G. R.; Ferrière, L. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.1600616
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)

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