Neurociência
Neurônios do pálio de corvos têm quantidade preferida e seguem a lei de Weber, como os de macacos
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Inteligência animal
Em duas gralhas-pretas (Corvus corone), 98 de 499 neurônios registrados no nidopallium caudolaterale (NCL), área do pálio, variaram de atividade com o número de pontos (de 1 a 5), cada um com uma quantidade preferida. O padrão ficou mais simétrico numa escala logarítmica, como a lei de Weber-Fechner prevê, e é parecido com o descrito em macacos. Em gralhas nunca treinadas com número, parte do NCL também respondeu à quantidade.
Numerosidade é o número de itens de um conjunto, avaliado sem contar com palavras. Em primatas, neurônios sensíveis a ela foram achados no neocórtex pré-frontal e parietal, uma estrutura de seis camadas que as aves não têm. O pálio é a parte do prosencéfalo (o cérebro anterior) de onde, nos mamíferos, surge o neocórtex; nas aves, outras partes do pálio, organizadas em núcleos e não em camadas, ocupam o lugar de centros de integração. O NCL é um desses centros. Registro de neurônio único é o método em que um eletrodo fino capta os disparos elétricos de uma célula por vez enquanto o animal faz uma tarefa. A lei de Weber-Fechner diz que a diferença mínima perceptível entre dois estímulos cresce em proporção à magnitude deles, o que equivale a uma escala logarítmica.
Quando o corvo erra, o neurônio cala
Nas tentativas erradas, a descarga dos neurônios do NCL para a quantidade preferida caiu para 71% do valor das tentativas certas. Os autores sugerem que a amostra pode ter sido codificada como um número vizinho.
Como sabemos: um neurônio de cada vez, com controles
O eletrodo registrou neurônios do NCL enquanto duas gralhas-pretas faziam uma tarefa de comparação com atraso: amostra de 1 a 5 pontos por 800 ms, espera de 1 s e resposta por bicada se a segunda tela tinha o mesmo número. Para separar número de aparência, os pontos mudavam de lugar e tamanho, e conjuntos de controle igualavam área, perímetro ou densidade. Um neurônio só contou como seletivo se o efeito da numerosidade fosse significativo sem efeito do tipo de estímulo, e a ligação com o comportamento veio da queda de atividade nos erros.
O que a lei de Weber diz e o que os dados deixam concluir
Pela lei de Weber-Fechner, distinguir 4 de 5 é mais fácil que 24 de 25, porque a diferença mínima perceptível cresce com a magnitude, o que equivale a uma escala logarítmica. Num segundo estudo, com 1 a 30 pontos, a fração de Weber ficou constante em duas aves. Nos neurônios, porém, o ajuste logarítmico (0,78) mal supera o linear (0,75) e empata com a potência de expoente 0,33; o que sustenta a escala comprimida é principalmente a variância constante. É um resultado coerente, com poucos animais.
Comparar com macacos: convergência, não parentesco direto
Mamíferos e aves divergiram há cerca de 300 a 320 milhões de anos, antes de existir neocórtex como o dos primatas. Os neurônios de quantidade de macacos ficam no córtex fronto-parietal; os dos corvos, no NCL, e as curvas de sintonia nos dois são aproximadas e logarítmicas. Em 2025, macacos e corvos na mesma tarefa mostraram até os mesmos vieses. Os autores leem isso como solução convergente para o mesmo problema de cálculo; a comparação soma estudos de anos diferentes e poucos animais por espécie.
Sem treino numérico: o estudo de 2018
Até a revisão de 2017, todos os experimentos com corvídeos usavam aves treinadas em número, e a dúvida era se a seletividade nascia do treino. Em 2018, Wagener e colegas registraram o NCL de gralhas nunca treinadas para avaliar quantidade e acharam neurônios sensíveis ao número de itens. Os autores falam de propriedade aparentemente inata. Aqui só o resumo foi lido: a proporção de neurônios e o número de aves ficam em aberto, e 'sem treino' não exclui experiência visual de uma vida inteira.
Como sabemos
Resultados centrais conferidos no texto dos artigos abertos; todos os registros vêm de poucos animais de um só grupo de pesquisa, e o estudo de corvos sem treino foi lido só no resumo.
- Evidência forte: Em duas gralhas-pretas, 98 de 499 neurônios do NCL (20%) variaram a atividade com o número de pontos (de 1 a 5) durante a apresentação da amostra. [1] Resumo
Contexto: Duas aves de laboratório (corvo A e corvo J), neurônios escolhidos ao acaso no NCL. · Limitações: Apenas dois animais; 'selecionado' significa efeito significativo da numerosidade em análise de variância (P < 0,01) sem efeito do tipo de estímulo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: As aves foram treinadas numa tarefa de comparação com atraso: viam uma amostra de 1 a 5 pontos por 800 ms, esperavam 1.000 ms e deviam bicar a segunda tela só se tivesse o mesmo número de itens. [1] Fig. 1A
Contexto: Tarefa de pareamento com a amostra (delayed matching-to-sample) em tela sensível ao toque. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As aves acertaram em média 73,8% e 77,5% das tentativas (acaso: 50%) e mantiveram o desempenho com conjuntos de controle que variavam área, perímetro e densidade dos pontos. [1] Results; Tabela 1
Contexto: Controles: área e densidade iguais, perímetro igual, e arranjo linear (Tabela 1 do artigo). · Limitações: Os valores são médias ± erro padrão sobre todas as sessões de registro. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Cada neurônio selecionado tinha atividade máxima para uma numerosidade e queda sistemática conforme o número se afastava dela; as preferências foram 29% para 1, 13% para 2, 8% para 3, 19% para 4 e 31% para 5. [1] Results
Contexto: Neurônios 'sintonizados' em uma quantidade (código de linha rotulada, em inglês labeled-line code). · Limitações: Preferência concentrada em 1 e 5 (as extremidades do intervalo testado). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nas tentativas erradas, a descarga para a numerosidade preferida caiu a 71% do valor das tentativas certas, o que liga a atividade desses neurônios ao desempenho. [1] Results; Fig. 4
Contexto: Análise de tentativas erradas no nível da população de neurônios selecionados. · Limitações: A explicação do erro como codificação de um número vizinho é hipótese dos autores ('may reflect'). Correlação, não prova de causa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Tanto o desempenho comportamental quanto a sintonia dos neurônios foram melhor descritos por uma escala logarítmica de número, como postula a lei de Weber-Fechner. [1] Results
Contexto: Num eixo linear, as curvas de sintonia são assimétricas; num eixo logarítmico ficam quase simétricas. · Limitações: Ver a7: a vantagem do ajuste logarítmico nos neurônios é pequena. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos neurônios, a qualidade do ajuste ficou em 0,75 (escala linear), 0,77 e 0,78 (duas escalas de potência) e 0,78 (logarítmica): a diferença é estatisticamente significativa, mas numericamente pequena. [1] Results
Contexto: Ajuste de curvas gaussianas à sintonia média dos neurônios, em quatro escalas. · Limitações: A escala de potência com expoente 0,33 empata com a logarítmica no valor médio; o argumento mais forte dos autores é a variância constante em escala logarítmica. Comparação numérica feita por nós a partir dos valores publicados. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Num estudo comportamental com duas gralhas-pretas e numerosidades de 1 a 30, a fração de Weber ficou constante, exceto para o número 1, e a representação foi descrita como uma 'linha numérica' logaritmicamente comprimida. [2] Results
Contexto: Fração de Weber é a razão entre a diferença mínima perceptível e a magnitude de referência; constante significa que discriminar 20 de 30 é tão difícil quanto 2 de 3. · Limitações: Dois animais; só comportamento, sem registro de neurônios (o registro vem de f1). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Aves não têm neocórtex de seis camadas; outras partes do pálio, como o NCL, fazem o papel de centros de integração, por evolução convergente com os mamíferos. [1] Introdução [4] Seção 1
Contexto: Comparação entre aves e mamíferos; pálio é a camada externa embrionária do prosencéfalo, comum aos dois grupos. · Limitações: A tradução 'centro de integração' para o NCL é a descrição dos autores (high-level association area). Qual parte exata do pálio de aves corresponde a qual região de mamíferos segue em debate na literatura. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: O último ancestral comum de aves e mamíferos viveu há cerca de 320 milhões de anos segundo a revisão de 2017 (o estudo de 2015 usa 300 milhões); desde então os dois grupos evoluíram o prosencéfalo em paralelo. [4] Seção 1 [1] Introdução
Contexto: Datas de divergência filogenética. · Limitações: As duas fontes divergem em 20 milhões de anos; usamos 'cerca de 300 a 320 milhões' no texto. Estimativas de tempo de divergência mudam com o método. · Estimativa de tempo de divergência; as duas fontes dão valores próximos mas diferentes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Revisão de Nieder (2017) conclui que, em macacos e em corvos, a numerosidade é representada por um sistema numérico aproximado que obedece à lei de Weber-Fechner e que os neurônios, em ambos, têm quantidade preferida e escala logarítmica. [4] Resumo
Contexto: Comparação entre macacos-rhesus e gralhas-pretas, feita pelo mesmo grupo de pesquisa que produziu os estudos de corvos. · Limitações: Revisão do grupo que fez os estudos citados; a comparação com macacos se apoia em estudos de outros anos e protocolos parecidos, não em um experimento único. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nos macacos, os neurônios de numerosidade ficam no córtex de associação fronto-parietal; nos corvos, na área associativa NCL do prosencéfalo. [4] Resumo
Contexto: Macaca mulatta e Corvus corone. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em 2025, macacos-rhesus e gralhas-pretas, na mesma tarefa com 1 a 10 pontos, mostraram os mesmos vieses: variabilidade que cresce com o número e superestimação de números pequenos com subestimação dos grandes. [3] Results
Contexto: Dois macacos e dois corvos treinados na mesma tarefa; comportamento, sem registro de neurônios. · Limitações: Quatro animais no total. O modelo bayesiano que explica os vieses é uma interpretação dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em gralhas-pretas nunca treinadas com número, uma parte dos neurônios do NCL respondeu espontaneamente à quantidade de itens e tinha sintonia para um número. [5] Resumo
Contexto: Estudo de Wagener, Loconsole, Ditz e Nieder (2018, Current Biology), com aves 'numericamente ingênuas'. · Limitações: Só o resumo foi lido (o texto completo bloqueia leitura automática); a proporção de neurônios e o número de aves ficam fora do artigo aqui. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Interpretação: Os autores do estudo de 2018 interpretam a resposta espontânea como propriedade aparentemente inata do prosencéfalo das aves, que explicaria o uso de pistas numéricas por aves recém-saídas do ovo ou na natureza. [5] Resumo
Contexto: Inferência dos autores a partir de neurônios de aves adultas sem treino numérico. · Limitações: Sem treino numérico não é o mesmo que sem experiência visual: aves adultas viram objetos múltiplos ao longo da vida. 'Inato' é leitura dos autores ('seemingly'); registro em filhotes recém-saídos do ovo não foi feito nesse estudo (segundo o resumo). · Interpretação dos autores; a expressão 'seemingly hard-wired' já traz a cautela. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada
Fontes
- Proceedings of the National Academy of Sciences (Universidade de Tübingen) — Neurons selective to the number of visual items in the corvid songbird endbrain
Ditz, H. M.; Nieder, A. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1504245112 - Proceedings of the Royal Society B (Universidade de Tübingen) — Numerosity representations in crows obey the Weber-Fechner law
Ditz, H. M.; Nieder, A. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2016.0083 - Proceedings of the National Academy of Sciences (Universidade de Tübingen) — Shared cognitive biases influence numerical judgments in macaques and crows
Jannasch, L. L. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2512219122 - Philosophical Transactions of the Royal Society B (Universidade de Tübingen) — Evolution of cognitive and neural solutions enabling numerosity judgements: lessons from primates and corvids
Nieder, A. · 2017 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2016.0514 - Current Biology (Universidade de Tübingen) — Neurons in the endbrain of numerically naive crows spontaneously encode visual numerosity
Wagener, L.; Loconsole, M.; Ditz, H. M.; Nieder, A. · 2018 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2018.02.023
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 9; conferência de trechos automatizada)