Zoologia

Corvos-comuns reagem a sons de um rival como se pudessem ser vistos por um buraco na parede: atribuem visão?

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Inteligência animal

Em um experimento publicado em 2016, nove corvos-comuns (Corvus corax) esconderam comida numa sala vizinha a outra, separada por uma parede fechada. Com um buraco aberto na parede e gravações de um rival tocando, terminaram os esconderijos mais depressa e voltaram menos a mexer neles, como quando o rival podia vê-los. Os autores leem isso como atribuição de visão; a objeção é que uma regra aprendida, sem noção de "ver", também poderia produzir o padrão.

"Teoria da mente" é a capacidade de atribuir estados mentais, como ver ou saber, a outro indivíduo. Em animais, o problema é que quase todo teste deixa o competidor à vista, e o bicho pode estar reagindo ao comportamento dele, como a direção da cabeça, sem representar o que ele "vê". Corvos escondem comida e roubam esconderijos alheios, por isso são bons candidatos para testar a pergunta. Antes de 2016, estudos com corvídeos já mostravam reação a competidores presentes; o experimento de Bugnyar, Reber e Buckner tentou eliminar a pista de olhar durante o teste e no treino, deixando só sons e um buraco aberto na parede.

O corvo que teve medo do buraco

Um dos dez corvos, o macho Rufus, ficou assustado com os buracos na fase de familiarização e foi excluído dos testes, e por isso a análise principal usa nove aves. Depois de cada sessão de treino o buraco era fechado de novo, para que nenhuma ave aprendesse o que um rival veria por ele.

Como sabemos: o desenho que tira o olhar do teste

Duas salas de 3 × 4 × 4 m ficavam separadas por uma parede com janelas tampadas e um buraco em cada tampa. Primeiro, cada corvo escondia comida com a janela aberta (rival visível) ou fechada (rival só ouvido). Depois, cada ave aprendia, com uma pessoa do outro lado, que o buraco permitia ver. No teste, a janela ficava fechada, um buraco ficava aberto e a sala vizinha estava vazia, com sons de um corvo tocados por alto-falante. Sem rival real, não há olhar para ler.

O que os corvos fizeram

Nove aves, dois ensaios com som cada. Com o buraco aberto, os corvos terminaram os esconderijos mais depressa (P = 0,012) e voltaram menos a melhorá-los (P = 0,024) do que na condição sem visão. Em relação à condição com rival visível, não houve diferença significativa. Os autores também notaram que as aves continuaram a inspecionar os esconderijos, o que, segundo eles, afasta a ideia de que estivessem apenas inibidas ou estressadas pelo som.

A objeção: regra aprendida ou noção de "ver"?

A crítica clássica é que um bicho pode usar regras como "buraco aberto e som por perto, esconder rápido" sem representar o que o outro vê. Os autores respondem que, a seu ver, nenhum conjunto de associações simples explica o padrão completo: o buraco sozinho e o som sozinho não bastariam, e o treino não incluiu nenhum rival olhando. Mesmo assim, interpretam o resultado como teoria da mente "mínima" e reconhecem a dúvida sobre a criação por humanos.

O que o experimento não mostrou

Como grupo, os corvos não esconderam mais comida fora do campo de visão do buraco aberto, o que seria esperado se calculassem o ângulo de visão de um rival. No desenho descrito, o som gravado só tocou com o buraco aberto, e não encontramos réplica independente do teste. Por isso, é razoável tratar o resultado como evidência a favor de uma atribuição mínima de visão, não como prova de uma teoria da mente semelhante à humana.

Como sabemos

O desenho e os números vêm do artigo lido na íntegra; a interpretação como atribuição de visão é a dos autores e segue em debate.

Em debate:

Fontes

  1. Nature Communications — Ravens attribute visual access to unseen competitors
    Bugnyar, T.; Reber, S. A.; Buckner, C. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/ncomms10506
  2. Philosophical Transactions of the Royal Society B — On the lack of evidence that non-human animals possess anything remotely resembling a 'theory of mind'
    Penn, D. C.; Povinelli, D. J. · 2007 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rstb.2006.2023
  3. Proceedings of the Royal Society B — Knower-guesser differentiation in ravens: others' viewpoints matter
    Bugnyar, T. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2010.1514
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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