Zoologia
Corvo-da-Nova-Caledônia fabrica ganchos e usa uma ferramenta para pegar outra
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
Na natureza, o corvo-da-Nova-Caledônia (Corvus moneduloides) corta um galho bifurcado, prende-o sob o pé e vai roendo a ponta até formar um gancho. Em campo, ganchos tiraram presas de 2 a 10 vezes mais rápido que gravetos retos. Em laboratório, seis de sete corvos tentaram, na primeira vez, usar um graveto curto para pegar outro, longo, e só com ele alcançar a comida: uso de metaferramenta.
O corvo-da-Nova-Caledônia vive na ilha principal da Nova Caledônia (Grande Terre) e em Maré, no Pacífico Sul, a cerca de 1.200 km a leste da Austrália. Ele usa ferramentas para tirar invertebrados de madeira morta e tem pelo menos quatro tipos de ferramenta. Dois resultados explicam a fama da espécie. O primeiro vem do campo: os corvos fabricam ganchos de galhos bifurcados, e um estudo de 2018 mediu que eles rendem de 2 a 10 vezes mais que ferramentas sem gancho, conforme a tarefa. O segundo vem do laboratório: em 2007, uma equipe da Universidade de Auckland mostrou que a ave resolve problemas em duas etapas, usando uma ferramenta para obter outra. Os dois achados mostram que a espécie fabrica e combina ferramentas, algo raro fora dos primatas. Eles não mostram, por si sós, quanto disso é aprendido e quanto é herdado.
Betty e o arame torto
Em um experimento, a corva Betty ganhou arame reto e precisava de um gancho para içar comida de um poço. Na quinta tentativa, prendeu uma ponta sob uma fita adesiva e puxou a outra com o bico. Estudos de campo depois mostraram que dobrar material já faz parte do repertório da espécie.
Uma ilha, um corvo
O corvo-da-Nova-Caledônia só ocorre na Grande Terre e em Maré, ilhas do Pacífico Sul a cerca de 1.200 km a leste da Austrália. Lá, a espécie usa ferramentas para tirar invertebrados de madeira morta e tem pelo menos quatro tipos delas. Isso o tornou um dos animais mais estudados em pesquisa sobre ferramentas. O que se observa na ilha ajuda a separar o que a ave faz sozinha, no campo, do que só aparece em laboratório.
O gancho vale a pena
O gancho é entalhado numa ponta de galho bifurcado, que a ave prende sob o pé enquanto rói e descasca. Em experimentos de campo publicados em 2018, esse formato foi de 2 a 10 vezes mais eficiente que ferramentas sem gancho, dependendo da tarefa. Quem faz o gancho gasta menos tempo para comer a mesma presa. Os pesquisadores dizem que não se sabe se a habilidade é herdada ou aprendida pela observação de aves experientes.
Uma ferramenta para pegar outra
No teste de 2007, a comida ficava num buraco que o graveto curto não alcançava, e o graveto longo estava preso numa caixa que só o curto abria. Seis de sete corvos tentaram pegar o longo com o curto logo na primeira vez. Os autores compararam esse desempenho ao dos melhores resultados de grandes primatas. É uma comparação dos pesquisadores: ela indica um nível de dificuldade, não prova que o corvo pense como um primata.
Betty e o debate
O caso de Betty rendeu muita discussão. Ela entortou arame reto em gancho em cativeiro, mas já havia passado por outros testes de ferramentas. Em 2016, Rutz e colegas observaram corvos selvagens dobrando plantas de propósito, com três técnicas, e concluíram que o arame de Betty pode ser explicado sem inteligência excepcional. Os dois trabalhos mostram que laboratório e campo precisam ser lidos juntos, e a pergunta sobre o que ela compreendia segue sem resposta.
Como sabemos
Os fatos centrais vêm de instituições de pesquisa envolvidas nos estudos; as leituras sobre cognição estão marcadas como interpretação.
Em debate: O caso de Betty foi lido como criação de ferramenta sem longa tentativa e erro. Em 2016, Rutz e colegas mostraram que dobrar plantas já é comum em corvos selvagens, o que torna possível explicar o arame sem cognição excepcional. Ambos os pontos coexistem na literatura.
- Fato estabelecido: O corvo-da-Nova-Caledônia (Corvus moneduloides) ocorre na Grande Terre e em Maré, na Nova Caledônia, a cerca de 1.200 km a leste da Austrália. [5]
- Fato estabelecido: A espécie usa ferramentas para obter invertebrados em madeira morta e tem pelo menos quatro tipos de ferramenta. [5]
- Fato estabelecido: Corvos selvagens colhem galhos bifurcados de plantas escolhidas, seguram-nos sob o pé e entalham, roem e descascam a ponta até formar um gancho. [1]
- Evidência forte: Em campo, ferramentas com gancho foram de 2 a 10 vezes mais eficientes que ferramentas sem gancho, dependendo da tarefa. [1]
Resultado de experimentos de campo publicados em 2018 na Nature Ecology & Evolution; o fator varia com a tarefa. - Fato estabelecido: Em 2007, na Current Biology, uma equipe da Universidade de Auckland (Taylor, Hunt, Holzhaider e Gray) relatou uso espontâneo de metaferramenta por corvos-da-Nova-Caledônia. [2]
- Fato estabelecido: No experimento, a carne ficava num buraco fora do alcance do graveto curto; o graveto longo estava numa caixa que só o curto alcançava. [2]
- Fato estabelecido: Seis de sete corvos tentaram pegar o graveto longo com o curto já na primeira tentativa. [2]
- Interpretação: Os pesquisadores compararam o desempenho das aves ao dos melhores resultados de grandes primatas nesse tipo de problema difícil. [2]
Comparação feita pelos autores do estudo, não medida diretamente nesta pesquisa. - Fato estabelecido: A corva Betty, em cativeiro, entortou arame reto em gancho: na quinta tentativa do experimento, prendeu uma ponta sob fita adesiva e puxou a outra com o bico. [3]
- Fato estabelecido: Betty já tinha experiência prévia com experimentos de escolha de ferramentas, e o grupo de Oxford ainda investigava se outros indivíduos tinham a mesma habilidade. [3]
- Fato estabelecido: Em campo, 10 dos corvos estudados dobraram deliberadamente seus materiais, usando três técnicas de dobra, e preferiram a planta Desmanthus virgatus. [4]
- Interpretação: Os autores do estudo de 2016 concluem que o arame dobrado por Betty pode ser explicado por um comportamento natural da espécie, sem precisar de cognição excepcional. [4]
Interpretação dos autores (Rutz e colegas); o debate sobre o que Betty compreendia continua aberto. - Hipótese: O formato das ferramentas de Pandanus varia entre regiões da ilha, e foi sugerido que isso resulte de transmissão cultural dos desenhos. [5]
A fonte apresenta a transmissão cultural como sugestão, não como fato demonstrado. - Incerto: Não se sabe se a habilidade de fazer ganchos é herdada ou aprendida pela observação de aves experientes. [1]
A própria divulgação do estudo diz que o mecanismo permanece incerto.
Fontes
- Universidade de St Andrews — Crows hooked on fast food
consultada em 06/10/2026 - ScienceDaily / Universidade de Auckland — Crows use one tool to get another (Taylor et al., Current Biology, 2007)
consultada em 06/10/2026 - Universidade de Oxford, Behavioural Ecology Research Group — Tool manufacture: Betty and the hooked wire
consultada em 06/10/2026 - Royal Society Open Science / PMC — Tool bending in New Caledonian crows (Rutz et al., 2016)
consultada em 06/10/2026 - Universidade de Oxford, Behavioural Ecology Research Group — New Caledonian crow natural history
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão