Oceanografia

A Corrente do Brasil encontra a das Malvinas: água quente e salgada contra fria e menos salgada

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Perto de 38°S, ao largo do Rio da Prata, a Corrente do Brasil, quente e salgada, colide com a Corrente das Malvinas, fria e menos salgada. As águas não se fundem de uma vez: formam uma frente térmica intensa, numa das regiões mais energéticas do oceano. A frente oscila por centenas de quilômetros, com ciclo entre inverno e verão, e solta vórtices de água quente.

A Corrente do Brasil é a corrente de fronteira oeste do giro subtropical do Atlântico Sul: leva água quente para o sul, junto à costa. Por que uma corrente assim é estreita e forte na borda oeste está no post sobre giros oceânicos; aqui interessa o que acontece onde ela termina. A Corrente das Malvinas (Falkland, em inglês) é um ramo do fluxo que circunda a Antártida e sobe para o norte pela borda da Patagônia, levando água subantártica. Uma frente oceânica é a faixa estreita onde duas massas de água se tocam e a temperatura e a salinidade mudam muito em poucos quilômetros. Salinidade é a quantidade de sais dissolvidos, aqui na escala prática (psu). Vazões aparecem em sverdrups: 1 Sv é um milhão de metros cúbicos por segundo.

O Rio da Prata também entra na conta

A água de baixa salinidade que sai da plataforma continental e do Rio da Prata para o mar aberto não sai sempre pelo mesmo ponto. Dados de satélite sugerem que o local depende de onde está a confluência e dos vórtices da Corrente do Brasil.

O contraste: quente e salgada de um lado, fria e menos salgada do outro

Ao longo da Corrente do Brasil a temperatura média fica entre 18 e 28 °C e a salinidade superficial, entre 35,1 e 36,2. A Corrente das Malvinas leva água subantártica: na superfície, a salinidade passa de 34. Esses números vêm de trabalhos diferentes, então valem como ordem de grandeza. Na frente, os gradientes térmicos vão de 0,01 a 0,08 °C por km; em outubro de 2019, um navio mediu cerca de 7 °C de diferença ao atravessá-la.

A confluência não é uma linha fixa

A Corrente do Brasil se separa da plataforma, em média, perto de 35,8°S, e a das Malvinas, perto de 38,9°S, segundo estudos de imagens de satélite. A confluência oscila entre cerca de 54°W e 45°W (uns 770 km a 38°S). No ano, a frente vai para o equador no inverno austral e para o polo no verão. Os autores apontam que isso pode vir da variação do transporte da Corrente do Brasil, hipótese de trabalho e não resultado fechado.

Como sabemos: cruzeiros, boias e satélites

Boa parte do que se sabe vem de cruzeiros. No TIC-MOC (março de 2015), o navio Hespérides fez 66 estações de CTD, sensor de condutividade, temperatura e profundidade, e lançou boias de deriva. No RETRO-BMC (abril de 2017), a rota seguiu a posição da frente, vista por satélite, modelos e dados do mar. O limite: cada cruzeiro é um retrato de semanas. A vazão da Corrente das Malvinas, por exemplo, vai de 25,3 Sv a 38°S a 75 Sv a 42°S, conforme o método.

Vórtices: o que a frente solta

A região é rica em vórtices de água quente soltos da Corrente do Brasil, em taxa estimada entre sete e nove por ano, conforme o estudo. Eles tendem a manter as propriedades da corrente de origem por meses. Em outubro de 2019, um vórtice quente tinha cerca de 14 °C no centro e 9 °C na borda, em meio a água mais fria. Efeitos sobre pesca e clima ficam fora deste texto.

Como sabemos

Descrição física bem estabelecida, mas os números de posição, vazão e vórtices vêm de estudos de décadas e métodos diferentes.

Fontes

  1. Scientific Reports (INPE e outras instituições) — Oceanic eddy-induced modifications to air-sea heat and CO2 fluxes in the Brazil-Malvinas Confluence
    Pezzi, L. P. et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-89985-9
  2. Western Boundary Currents (Universidade de Rhode Island), Servicio de Hidrografia Naval — The Brazil - Malvinas Confluence
    Piola, A. R.; Bianchi, A. A.; Rivas, A. L.; Palma, E. D.; Matano, R. P.; Bleck, R. · s.d. (final da década de 1990) · Divulgação científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  3. Rosenstiel School, Universidade de Miami (Ocean Surface Currents) — The Brazil Current
    Ocean Surface Currents (Universidade de Miami) · s.d. · Livro ou obra de referência · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
  4. Data in Brief (Instituto de Ciências do Mar, CSIC) — Dataset on the TIC-MOC cruise onboard the R/V Hespérides, March 2015, Brazil-Malvinas Confluence
    Orúe-Echevarría, D. et al. · 2018 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.dib.2018.12.004
  5. Journal of Geophysical Research: Oceans — The salinity signature of the cross-shelf exchanges in the Southwestern Atlantic Ocean: Satellite observations
    Guerrero, R. A. et al. · 2014 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1002/2014jc010113
  6. Data in Brief (Instituto de Ciências do Mar, CSIC) — Dataset on the RETRO-BMC cruise onboard the R/V Hespérides, April 2017, Brazil-Malvinas Confluence
    Orúe-Echevarría, D.; Pelegrí, J. L. et al. · 2020 · Base de dados · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.dib.2020.105412
Histórico de alterações
  • Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)

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