Astronomia
A coroa do Sol chega a cerca de 2 milhões de °C, bem mais quente que a superfície, a 5.500 °C
Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026
A superfície visível do Sol, a fotosfera, está a cerca de 5.500 °C. A coroa, a atmosfera externa que fica acima dela, chega a até 2 milhões de °C. É como se, ao se afastar de uma fogueira, você ficasse mais quente. Os astrofísicos ainda não sabem com certeza o que explica isso. As duas candidatas principais são explosões magnéticas minúsculas e ondas que sobem do interior.
A temperatura costuma cair com a distância da fonte de calor, e o Sol parece desobedecer a essa regra: o núcleo é o mais quente, a fotosfera é bem mais fria e a coroa volta a esquentar. A NASA trata o fenômeno como um dos maiores mistérios do Sol, conhecido como problema do aquecimento coronal. Como a coroa é muito rarefeita, ela guarda pouca energia total, mas as partículas que a compõem se movem muito rápido, e é isso que a temperatura mede. A coroa só é vista a olho nu durante eclipses totais, quando a Lua tapa a luz da fotosfera. Hoje as explicações giram em torno de duas famílias de processos, que podem atuar juntas: o aquecimento por ondas magnéticas e o aquecimento por reconexão magnética em eventos muito pequenos.
Uma sonda que entrou na coroa
Em 28 de abril de 2021, a Parker Solar Probe cruzou pela primeira vez a fronteira da atmosfera solar, a 18,8 raios solares da superfície. Foi a primeira vez que uma nave amostrou a coroa diretamente.
O tamanho do problema
A fotosfera está a cerca de 5.500 °C e a coroa chega a até 2 milhões de °C. A diferença é de centenas de vezes. Para um calor que vem do interior, isso é estranho: a energia teria de ser levada para cima e depositada em um gás muito rarefeito, onde cada partícula ganha muita velocidade, embora o total de energia seja pequeno.
Hipótese das ondas
Os movimentos de convecção sacodem as linhas do campo magnético na fotosfera, e essas perturbações viajam para cima como ondas de Alfvén. Para aquecer o gás, elas precisam se dissipar em algum processo, como mistura de fase, absorção ressonante ou cascata turbulenta. Simulações de 2011 mostraram que a turbulência dessas ondas pode aquecer laços coronais.
Hipótese das nanoflares
Nessa ideia, a coroa é aquecida por um número enorme de pequenas reconexões magnéticas, cada uma liberando 10^24 erg ou menos. Um estudo de 2023 viu fios magnéticos trançados trocando trechos, compatível com reconexão. É evidência indireta e esporádica, e os próprios autores a tratam como apoio à hipótese, não como prova final.
Medir por dentro
A Parker Solar Probe foi lançada em 2018 e, em 28 de abril de 2021, cruzou a superfície crítica de Alfvén a 18,8 raios solares, passando a amostrar a coroa diretamente. Seus dados indicaram que os switchbacks nascem perto da superfície. Ainda não resolveram o problema, mas permitem testar os mecanismos com medidas locais.
Como sabemos
Temperaturas e dados da sonda vêm de NASA e APL; o debate sobre mecanismos está descrito como aberto.
Em debate: Não há consenso sobre qual mecanismo domina o aquecimento da coroa, nem se as duas ideias são de fato separadas: há trabalhos que sugerem que as nanoflares observadas podem estar ligadas a ondas de Alfvén, e não só a reconexão.
- Fato estabelecido: A fotosfera, superfície visível do Sol, está a cerca de 5.500 °C (10.000 °F). [1]
- Fato estabelecido: A coroa, atmosfera externa do Sol, chega a até cerca de 2 milhões de °C (3,5 milhões de °F). [1]
- Fato estabelecido: A NASA descreve a coroa ser muito mais quente que as camadas logo abaixo como um dos maiores mistérios do Sol. [1]
- Consenso científico: A comunidade científica entende que a solução virá de um ou de ambos os processos: aquecimento por ondas de Alfvén e aquecimento por nanoflares. [2] [3]
Consenso sobre quais são as candidatas, não sobre qual delas domina. - Teoria científica: No modelo de ondas de Alfvén, elas são geradas pelos movimentos de convecção na zona convectiva e na fotosfera, sobem até a coroa e ali dissipam energia. [2]
- Teoria científica: No modelo de nanoflares, muitos eventos de reconexão magnética liberam energia de forma súbita em pequenas quantidades, da ordem de 10^24 erg ou menos cada. [2]
- Interpretação: Um estudo de 2023 (A&A 679, A9) viu em imagens fios magnéticos trançados que trocaram trechos entre si dentro de laços coronais, o que os autores interpretam como reconexão e apoio à hipótese das nanoflares. [3]
Evidência morfológica, esporádica, obtida em imagens ampliadas por rede neural; não é medida direta de calor. - Evidência forte: Um modelo 3D de 2011 mostrou que turbulência de ondas de Alfvén, com movimentos de 1 a 2 km/s na base, pode aquecer laços coronais e a cromosfera. [4]
Resultado de simulação, não de observação direta. - Fato estabelecido: A Parker Solar Probe foi lançada em 12 de agosto de 2018 e chega a cerca de 6,2 milhões de km da superfície do Sol. [5]
- Fato estabelecido: Em 28 de abril de 2021, a Parker cruzou a superfície crítica de Alfvén a 18,8 raios solares (cerca de 13 milhões de km) da superfície, entrando na atmosfera solar. [6]
- Fato estabelecido: Nessa fronteira, o material solar escapa e forma o vento solar, arrastando o campo magnético do Sol pelo Sistema Solar. [6]
- Evidência forte: Os dados da Parker confirmaram que as estruturas em zigue-zague do campo magnético (switchbacks) têm origem perto da superfície solar. [6]
Fontes
- NASA — Sun Facts
consultada em 06/10/2026 - Space Science Reviews / Springer — Coronal Heating by MHD Waves (resumo de revisão e literatura sobre aquecimento coronal)
consultada em 06/10/2026 - Astronomy & Astrophysics (arXiv) — Morphological evidence for nanoflares heating warm loops in the solar corona
consultada em 06/10/2026 - The Astrophysical Journal (arXiv) — Heating of the Solar Chromosphere and Corona by Alfven Wave Turbulence
consultada em 06/10/2026 - NASA — Parker Solar Probe
consultada em 06/10/2026 - Johns Hopkins Applied Physics Laboratory — Parker Solar Probe Touches the Sun for the First Time, Bringing New Discoveries
consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 06/10/2026 — Galeria de natureza: 5 imagem(ns) real(is) do Commons
- Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão