Zoologia

Corais-negros vivem milhares de anos: o carbono-14 deu 4.265 anos a uma colônia do Havaí

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

A idade de um coral-negro de profundidade é medida pelo carbono-14 guardado nas camadas do esqueleto, que ele forma com matéria orgânica vinda da superfície. Em colônias de Leiopathes coletadas no Havaí, a base de uma delas deu 4.265 anos de calendário, e o crescimento radial medido nas duas espécies estudadas ficou entre 4 e 35 µm por ano. No Mediterrâneo, uma colônia de L. glaberrima deu cerca de 2.000 anos.

Corais-negros são antipatários (ordem Antipatharia), cnidários coloniais cujo esqueleto escuro é feito de matéria orgânica proteica, não de calcário. Os do gênero Leiopathes passam de 2 m de altura. O esqueleto engrossa por camadas, como um tronco, e essa espessura nova por ano é o crescimento radial, medido em micrômetros (µm, milésimos de milímetro). Datar o coral é medir quanto carbono-14, isótopo radioativo do carbono, resta em cada camada: quanto menos, mais velha ela é. A idade sai primeiro em anos de carbono-14 e depois é convertida em anos de calendário por calibração. O método só vale se o carbono do esqueleto veio de água de superfície recente, e não de carbono antigo do sedimento.

Altura não é idade

Uma colônia de Leiopathes de 2.370 anos cresceu cerca de 13 µm por ano nos primeiros milímetros e depois desacelerou. Por isso os autores sugerem que, nesse gênero, a altura pode não ser proporcional à idade.

Duas formas de ler o carbono-14

Roark e colegas usaram dois métodos. Um é a idade convencional, baseada no decaimento radioativo do carbono-14: amostras do centro à borda dão a idade de cada ponto da colônia. O outro é o pico da bomba, um aumento do carbono-14 na água de superfície que o estudo usa como marca do ano de 1957 e que permite medir o crescimento recente. Nas camadas mais externas de um Leiopathes, duas lascas de cerca de 10 µm já traziam esse carbono-14. Com amostras de 100 µm, cada ponto mistura cerca de 80 anos.

Por que outros métodos davam idades menores

Antes, o chumbo-210 em dois Leiopathes do Atlântico sugeria 200 a 500 anos, e contagens de bandas supostamente anuais em Gerardia do Havaí, no máximo 70. Cogitou-se que carbono antigo no esqueleto tornasse o radiocarbono falsamente velho. Os autores respondem que o carbono vem de matéria orgânica recém-chegada da superfície, pelos isótopos do tecido e pelo perfil do pico da bomba. O artigo admite que o assunto era contencioso. Em outro coral proteico, o Savalia, a hipótese de uma lâmina por ano segue em teste.

Crescimento lento e altura que engana

O crescimento radial medido ficou entre 4 e 35 µm por ano nas duas espécies, com Leiopathes na faixa baixa. Isso é menos de 0,04 mm por ano, cálculo nosso (35 µm ÷ 1.000 = 0,035 mm). A taxa não é constante: uma colônia de 2.370 anos teve cerca de 13 µm por ano no início e depois desacelerou, e os autores sugerem que a altura talvez não acompanhe a idade. Só três colônias vivas foram datadas, então a regra geral ainda é provisória.

O Mediterrâneo e o que a idade pede de proteção

No banco de Carloforte (Sardenha), uma colônia de L. glaberrima de 4 cm de diâmetro deu cerca de 2.000 anos, calibrada com a curva marinha MARINE09. A ponta, mais nova, deu idade menor que a base. Os autores hipotetizam que haja outros exemplares milenares, pela distribuição de tamanhos. Para uma espécie de crescimento tão lento, pesca de fundo e coleta para joalheria preocupam: a IUCN a classifica como ameaçada, segundo um artigo de 2021.

Como sabemos

Os números centrais vêm de dois artigos revisados por pares, com método de datação descrito; a ressalva é que o máximo de 4.265 anos vem de uma única colônia.

Em debate: Estimativas por contagem de bandas e por chumbo-210 apontavam vidas de décadas a poucos séculos; o carbono-14 aponta milênios. Roark e colegas (2009) defendem que a diferença não vem de carbono antigo no esqueleto, mas o próprio artigo registra que a origem do carbono era tema contencioso.

Fontes

  1. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Extreme longevity in proteinaceous deep-sea corals
    Roark, E. B.; Guilderson, T. P.; Dunbar, R. B.; Fallon, S. J.; Mucciarone, D. A. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0810875106
  2. PLOS ONE — Persistence of Pristine Deep-Sea Coral Gardens in the Mediterranean Sea (SW Sardinia)
    Bo, M.; Bavestrello, G.; Angiolillo, M.; Calcagnile, L.; Canese, S.; et al. · 2015 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0119393
  3. Scientific Reports — Habitat suitability mapping of the black coral Leiopathes glaberrima to support conservation of vulnerable marine ecosystems
    Lauria, V.; Massi, D.; Fiorentino, F.; Milisenda, G.; Cillari, T. · 2021 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-021-95256-4
  4. Scientific Reports — Growth and skeletal structure of the parasitic zoantharian Savalia savaglia (Bertoloni, 1819)
    Canessa, M.; Bo, M.; Boggia, R.; Calcagnile, L.; D'Elia, M.; Orlandi, V.; Quarta, G.; et al. · 2025 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-17541-w
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 10; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos