Ecologia
Corais de água fria: sem algas parceiras, comem partículas e plâncton e constroem recifes no escuro
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Assuntos: Mar profundo
O Desmophyllum pertusum (antes chamado Lophelia pertusa) e outros corais de água fria não dependem de algas fotossintetizantes: alimentam-se de partículas e plâncton levados pelas correntes. Seus esqueletos formam armações que prendem sedimento e, em alguns lugares, erguem montes de mais de 300 m de altura. A espécie é registrada em águas de cerca de 4 a 15 °C, de 40 a 3.300 m, e há recifes vivos de até cerca de 8.000 anos.
Os corais de recifes tropicais vivem em parceria com algas microscópicas (Symbiodiniaceae, as antigas zooxantelas) que recebem luz e repassam açúcares ao coral. Cerca de metade das espécies de corais pétreos (Scleractinia) não mantém essa parceria. Entre elas está o Desmophyllum pertusum, o coral de água fria mais estudado: sem alga, ele não precisa de luz e pode viver na penumbra e no escuro, alimentando-se por suspensão, isto é, capturando o que a água traz. A energia, porém, não nasce no fundo: segundo isótopos de carbono medidos em Angola, vem da produção de fotossíntese lá em cima, que desce em partículas. Os recifes formam-se onde há substrato duro, correntes e esse alimento.
Uma espécie, um terço da pesquisa
Numa revisão sistemática de 482 publicações sobre corais pétreos sem algas simbiontes, cerca de 30% do esforço de pesquisa recaiu sobre uma só espécie, o Desmophyllum pertusum. Sobre a maioria das outras há pouco estudo.
Alimento que desce de cima
No escuro não há fotossíntese, mas a vida no fundo depende dela. Em recifes de Angola, razões de isótopos de carbono nas partículas indicam produção da zona iluminada; as de nitrogênio põem o coral dois níveis tróficos acima dessas partículas, sinal de que come algo intermediário, talvez zooplâncton. Os autores escrevem isso como hipótese. Medir isótopos mostra a posição na cadeia, não o que o coral engoliu.
Como sabemos: um recife em miniatura num canal de água
Num experimento de dois meses, fragmentos vivos de Lophelia pertusa, tirados do Mediterrâneo, foram fixados num recife artificial dentro de um canal de fluxo. O corpo do recife acelerou a água na frente, onde chega o alimento, e a deixou quase parada atrás. A ideia é que o recife cresça contra a corrente, o que bate com o fato de o entulho na cauda dos montes ser mais velho. É um modelo em escala, não uma medida do crescimento natural.
Quanto tempo dura um recife
Um relatório do PNUMA de 2004 informa que bancos e recifes vivos já foram datados em até cerca de 8.000 anos por técnicas radioativas. Isso diz a idade do que está vivo e preservado, não a do monte inteiro, que cresce por camadas de coral e sedimento e atinge, em alguns sítios, mais de 300 m de altura. O relatório é antigo; datações mais novas podem ter ampliado esse valor, o que não verificamos.
E no Brasil?
A margem brasileira tem grande diversidade e abundância de corais sem algas, e há ecossistemas de coral sobre montes sedimentares na Bacia de Campos. Na Bacia de Santos, o relevo entre cerca de 200 e 3.000 m desvia as correntes e forma substratos duros. Falta, nas fontes abertas que lemos, datação de recifes brasileiros; por isso a idade dos nossos recifes fica como pergunta em aberto.
Como sabemos
A ecologia e o mecanismo de formação dos recifes têm base em artigos revisados por pares, mas a idade (8.000 anos) vem de um relatório de 2004 e a faixa de 4 a 15 °C e 40 a 3.300 m vem de segunda mão.
- Fato estabelecido: Desmophyllum pertusum é o nome atual da espécie antes chamada Lophelia pertusa. [5] Introdução
Contexto: Nomenclatura usada nos artigos recentes; a literatura mais antiga e parte das legendas ainda usam Lophelia pertusa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Cerca de metade das espécies de corais pétreos (mais de 700) não mantém fotoendossimbiose, ou seja, não depende de produtos da fotossíntese de algas simbiontes. [1] Resumo
Contexto: Corais pétreos (ordem Scleractinia) de todo o mundo; algumas espécies têm parcerias variáveis conforme a fase de vida e o ambiente. · Limitações: O valor é aproximado e algumas espécies são facultativas, então a fronteira entre com e sem algas não é nítida. · A fonte dá o número como aproximado (cerca de 50%). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Sem algas fotossintetizantes nos tecidos, esses corais não ficam presos à luz e podem ocupar faixas amplas de latitude e profundidade. [1] Introdução
Contexto: Vale para o grupo de corais sem fotoendossimbiose; o Desmophyllum pertusum é a espécie mais estudada desse grupo na revisão. · Limitações: A revisão descreve o grupo; a ausência de algas no Desmophyllum pertusum é inferida pela sua inclusão no grupo e pela dieta heterotrófica, não por uma contagem de algas citada no trecho. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Os corais de água fria são heterótrofos com alimentação oportunista por suspensão: capturam o que a corrente traz, como matéria orgânica dissolvida, partículas e zooplâncton. [3] Introdução
Contexto: Descrição geral do grupo na introdução de um estudo em recifes de Angola; a lista de itens (matéria dissolvida, partículas, zooplâncton) é a mesma fonte citando a literatura. · Limitações: Heterótrofo quer dizer que obtém energia de alimento já produzido; a proporção entre os itens da dieta varia e é pouco conhecida. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em recifes de Angola, os isótopos de carbono indicam que a rede alimentar dos recifes é sustentada por produção de fotossíntese da zona iluminada, superficial. [3] Discussão
Contexto: Recifes de água fria de Angola (Atlântico Sudeste), com amostras de partículas de água, de armadilha de sedimento e de sedimento. · Limitações: É um estudo de uma região; os autores notam que falta uma fonte de alimento intermediária na amostragem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores propõem, como hipótese, que a dieta do coral em Angola se baseie em fitodetrito fresco, quando disponível, e que o zooplâncton possa contribuir mais. [3] Discussão
Contexto: Recifes de Angola, com base em razões de isótopos de carbono e nitrogênio. · Limitações: A composição exata da dieta não foi medida diretamente, e a fonte alimentar intermediária não foi amostrada. · Escrito pelos autores como hipótese; isótopos indicam posição na cadeia, não os itens que o coral engoliu. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O Desmophyllum pertusum é encontrado em águas frias, de 4 a 15 °C, ao redor do mundo e em profundidades de 40 a 3.300 m. [4] Introdução
Contexto: Faixa de ocorrência registrada; o artigo (Dorey et al., 2019) a cita de Roberts et al. (2009), que não foi lido por nós. · Limitações: Fonte de segunda mão para a faixa; é a faixa registrada, não a de cada recife. Em Angola há recifes em águas de até 14,2 °C com muito pouco oxigênio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Recifes de água fria de Angola prosperam apesar de a água ter muito pouco oxigênio, o que contraria requisitos ecológicos antes supostos para a espécie. [3] Introdução
Contexto: Recifes de Angola, num sistema de ressurgência produtivo. · Limitações: Hipoxia (pouco oxigênio) foi medida em Angola; não vale como regra para todos os recifes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Quando colônias de corais coloniais formam recifes tridimensionais, a estrutura retém sedimento que passa e, em alguns locais, origina montes de coral com mais de 300 m de altura. [2] Introdução
Contexto: Descrição geral de recifes de corais de água fria em uma introdução; os montes (coral mounds) são acumulações de coral e sedimento ao longo de longos períodos. · Limitações: Os 300 m são o máximo citado para alguns sítios, não o tamanho típico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Em recifes de água fria, o coral vivo fica quase só no lado de onde vem a corrente, e o entulho de coral na cauda é mais velho, o que indica que o recife cresce contra a corrente. [2] Introdução
Contexto: Montes alongados em forma de charuto ou gota, em locais com substrato duro e correntes de fundo em um sentido. · Limitações: Vale para montes sob corrente unidirecional; em outros regimes o formato muda. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Num experimento de canal de fluxo com um recife em escala, a armação aumentou a velocidade da corrente e a turbulência na frente e deixou a água quase parada atrás. [2] Introdução
Contexto: Fragmentos vivos de Lophelia pertusa, coletados a cerca de 300 m no mar de Alborão (Mediterrâneo), postos num recife artificial de 60 cm por dois meses. · Limitações: É um modelo em tanque, em escala reduzida; os autores usam os resultados para propor retroalimentações (mais comida na frente, menos atrás), não para medir o crescimento de um recife inteiro. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Há bancos e recifes vivos de coral de água fria datados por técnicas radioativas em até cerca de 8.000 anos. [6] Sumário
Contexto: Relatório do PNUMA-WCMC de 2004 sobre recifes de água fria do mundo; o trecho conserva espaços do texto digitalizado do PDF. · Limitações: Dado de 2004: datações posteriores podem trazer valores diferentes, e o relatório trata os recifes vivos, não os montes inteiros, que são bem mais antigos. Não foi lido o método de datação. · Valor de relatório institucional antigo, sem as datações originais. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na Bacia de Campos, ao sul do Brasil, há ecossistemas de coral sobre montes sedimentares, e a margem brasileira abriga grande diversidade e abundância de corais sem algas. [6] Capítulo sobre o Atlântico [5] Introdução
Contexto: Margem sudeste do Brasil (Bacias do Espírito Santo, de Campos e de Santos, de 20,5° a 28° S). A segunda fonte cita Pires (2007) e usa 'azooxanthellate' para 'sem zooxantelas'. · Limitações: Dois textos com mais de 20 anos de distância; a primeira frase vem de um relatório de 2004. Não foi encontrada fonte aberta com datação de recifes brasileiros. · Conferida em parte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Na Bacia de Santos, o relevo do fundo entre cerca de 200 e 3.000 m desvia as correntes e forma substratos duros em várias profundidades, condições propícias à colonização por corais. [5] Introdução
Contexto: Bacia de Santos, entre 23° e 28° S, margem sudeste do Brasil. · Limitações: Descreve condições favoráveis mapeadas, não a área de recifes vivos. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Cerca de 20 espécies de corais pétreos de profundidade formam recifes; a maioria dos registros em profundidade é de espécies solitárias. [1] Discussão
Contexto: Corais pétreos de profundidade de todo o mundo. · Limitações: O número é aproximado e cita outra fonte; novas espécies descritas podem mudá-lo. · A fonte dá 'aproximadamente 20'. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Cerca de 30% do esforço de pesquisa identificado numa revisão sobre corais pétreos sem algas simbiontes (482 publicações) se concentra num único coral, o Desmophyllum pertusum. [1] Resumo
Contexto: Mapeamento sistemático da literatura sobre Scleractinia sem fotoendossimbiose, 482 publicações em cinco décadas, 141 espécies estudadas. · Limitações: Mede esforço de pesquisa publicado, não abundância na natureza. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Scientific Reports — The global significance of Scleractinian corals without photoendosymbiosis
Vuleta, S.; Nakagawa, S.; Ainsworth, T. D. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-024-60794-0 - Scientific Reports — Local-scale feedbacks influencing cold-water coral growth and subsequent reef formation
Corbera, G.; Lo Iacono, C.; Simarro, G. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-022-24711-7 - Scientific Reports — Trophic ecology of Angolan cold-water coral reefs (SE Atlantic) based on stable isotope analyses
Vinha, B.; Rossi, S.; Gori, A. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-37035-x - Frontiers in Physiology — Broad Thermal Tolerance in the Cold-Water Coral Lophelia pertusa From Arctic and Boreal Reefs
Dorey, N.; Gjelsvik, Ø.; Kutti, T.; Büscher, J. V. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.3389/fphys.2019.01636 - PeerJ (Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira) — Assessment of the fecundity of deep-sea corals in southeastern Brazil
Bastos, N.; Terra, C. S. S.; Siqueira, M. A. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.7717/peerj.19525 - UNEP-WCMC (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) — Cold-water coral reefs: out of sight, no longer out of mind
Freiwald, A.; Fosså, J. H.; Grehan, A.; Koslow, T.; Roberts, J. M. · 2004 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 13; conferência de trechos automatizada)