Genética
Cor autodeclarada e ancestralidade genômica no Brasil: as médias diferem, mas os grupos se sobrepõem
Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026
No Brasil, quem se declara branco, pardo ou preto tem, em média, ancestralidade genômica diferente: num estudo com 86 pares de irmãs de Brasília, a europeia média foi de 72%, 68% e 63%. Mas os grupos se sobrepõem muito, e a mesma categoria tem ancestralidade média distinta de uma região para outra. A cor declarada é uma categoria social, ligada à aparência e ao contexto; a ancestralidade é outra grandeza, estimada por marcadores do DNA.
No censo do IBGE, cada pessoa responde qual é a sua cor ou raça, e a resposta é uma categoria social: reflete como a pessoa se vê e como é vista, não uma medida de DNA. Já a ancestralidade genômica é a fração do genoma que se assemelha a populações de referência (africana, europeia, ameríndia), estimada com marcadores de DNA que variam muito de frequência entre esses grupos. Os estudos aqui comparam as duas grandezas, e uma terceira, a pigmentação da pele medida com aparelho. A pergunta não é qual está certa: são coisas diferentes, medidas de formas diferentes, e é esperado que se relacionem só em parte.
Irmãs que se declaram de cores diferentes
Em 30 dos 86 pares de irmãs de Brasília, cada irmã se declarou numa categoria diferente. Em 7 desses 30 pares, a que escolheu a categoria mais escura tinha pele mais clara pelo aparelho.
Como sabemos: três instrumentos, três grandezas
Os estudos medem três coisas separadas. A cor autodeclarada vem de uma pergunta com as categorias do censo. A pigmentação vem de um reflectômetro, que estima a melanina pela luz refletida na pele não exposta ao sol. A ancestralidade vem de marcadores de ancestralidade: variantes do DNA cuja frequência difere muito entre africanos, europeus e ameríndios, comparadas a amostras de referência. Cada estimativa tem incerteza própria, e os próprios autores dizem que poucos marcadores não dão precisão individual.
O que a relação mostra, e o que não mostra
Em média, os grupos se ordenam como se esperaria: quem se declara preto tem mais ancestralidade africana e pigmentação mais alta do que quem se declara branco. Mas o desvio dentro de cada grupo é grande, e as faixas se cruzam. Por isso, saber a categoria de uma pessoa não permite prever a sua ancestralidade genômica, e o contrário também vale. Isso não torna a categoria menos real como experiência social: Parra e colegas (2003) escrevem que a cor da pele pesa muito na vida social.
Quando a mesma categoria muda de lugar para lugar
O estudo de 2011 usou amostras de quatro regiões, sorteando números parecidos de pessoas de cada categoria. Os pardos do Norte e os do Sul diferiam bastante em ancestralidade. Com essas amostras não é possível dizer se a causa é mais ultravioleta no Norte, o uso regional das palavras, a história de povoamento ou tudo isso junto. Por isso o resultado vale como alerta contra tratar uma categoria como sinônimo de ancestralidade, não como retrato fiel de cada região.
Limites que valem para os três estudos
As amostras são pequenas, de poucas cidades e sem representatividade nacional; os estudos usam 10, 21 e 40 marcadores, bem menos que as análises de genoma inteiro de hoje, e as populações de referência são amostras reduzidas. Para a mistura em estudos de base populacional com milhões de marcadores, ver o post sobre o EPIGEN. O que se sustenta para os três é o padrão geral: relação média presente, sobreposição grande.
Como sabemos
Números conferidos nos textos integrais de três estudos de 2003 e 2011; as explicações para a dissociação são hipóteses dos autores e as amostras são pequenas e não representativas.
- Fato estabelecido: O IBGE usa, desde 1991, cinco categorias de cor ou raça (branca, parda, preta, amarela e indígena), baseadas na autoclassificação. [1] Introdução
Contexto: Descrição feita por Pena e colegas (2011); o site do IBGE bloqueia leitura automática e não foi consultado diretamente. · Limitações: Fonte de segunda mão para a regra do IBGE. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No Brasil, a cor que se atribui ou se declara não é só a pigmentação da pele: a avaliação leva em conta também o cabelo, a cor dos olhos e traços do rosto, como o formato do nariz e dos lábios. [1] Introdução [3] Introdução
Contexto: Descrição dos autores sobre o uso brasileiro do termo cor, com referência a trabalhos anteriores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Leite e colegas (2011) estudaram 86 pares de irmãs de escolas públicas de Brasília: mediram a pigmentação da pele com um reflectômetro, estimaram a ancestralidade com 21 marcadores informativos de ancestralidade e registraram a cor autodeclarada segundo as categorias do censo. [2] Resumo
Contexto: Amostra de 172 adolescentes saudáveis de uma só cidade; ninguém marcou as categorias amarela ou indígena, então só entram branca, parda e preta. · Limitações: Amostra pequena, só de meninas, de uma cidade; 21 marcadores dão boa estimativa para o grupo, mas não são precisos para cada indivíduo, como os próprios autores dizem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Nesse estudo, a ancestralidade europeia média foi de 72% entre as que se declararam brancas, 68% entre as pardas e 63% entre as pretas; a africana média foi de 19%, 21% e 27%. As diferenças entre os grupos são estatisticamente significativas. [2] Resultados, Genomic ancestry and “color”
Contexto: Médias de 54 meninas que se declararam brancas, 104 pardas e 14 pretas, em Brasília. · Limitações: O grupo de pretas tem só 14 participantes. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O índice de melanina medido com o aparelho também subiu de uma categoria para outra (34,25 entre as brancas, 37,17 entre as pardas e 40,26 entre as pretas), mas com grande dispersão dentro de cada grupo e sobreposição entre eles, tanto na pigmentação quanto na ancestralidade. [2] Resumo
Contexto: O índice de melanina vai de valores na casa dos 20 (pele mais clara) a quase 100 (mais escura), medido na parte interna do braço, não exposta ao sol. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em Queixadinha (Minas Gerais), 173 moradores foram classificados por examinadores como brancos, pretos ou intermediários; os três grupos mostraram grandes variações e sobreposição na ancestralidade africana estimada. Só 9 dos 30 classificados como pretos tinham valores na faixa africana, e 8 (27%) tinham valores na faixa dos portugueses. [3] Discussão
Contexto: Estudo de 2003 com 10 marcadores de população específica; a cor foi atribuída por dois examinadores, não autodeclarada. A faixa africana e a portuguesa foram definidas com 20 pessoas de São Tomé e 20 do norte de Portugal. · Limitações: Comunidade rural pequena e quase de uma só classe social; só 10 marcadores, e um deles (OCA2) está ligado à pigmentação, o que os autores discutem como possível viés. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em 30 dos 86 pares de irmãs, cada uma se declarou numa categoria de cor diferente (concordância fraca, kappa de 0,342). Em 7 desses 30 pares, a irmã que escolheu a categoria mais escura tinha o menor índice de melanina, isto é, a pele mais clara. [2] Discussão
Contexto: Meninas adolescentes, irmãs biológicas, que responderam cada uma por si; kappa mede a concordância além do acaso (1 seria concordância total). · Limitações: Amostra pequena, de uma cidade. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: As diferenças de pigmentação entre as irmãs não foram a principal razão da discordância na cor declarada; os autores sugerem fatores socioculturais, sem os especificar. [2] Discussão
Contexto: A diferença média de pigmentação entre irmãs foi de 3,48 unidades nos pares discordantes e 2,71 nos concordantes, sem diferença significativa (p = 0,19). · Limitações: Os autores dizem que é difícil especular sobre as razões; com amostra pequena, a ausência de diferença significativa não prova ausência de efeito. · Interpretação dos autores, não resultado medido diretamente. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Pigmentação e ancestralidade se relacionam, mas de forma modesta: a ancestralidade africana correlacionou positivamente com o índice de melanina (rho = 0,258) e a europeia, negativamente (rho = -0,291). Um único marcador, no gene SLC24A5, foi o que mais se associou à pigmentação no estudo. [2] Resultados, Association of AIMs with melanin index
Contexto: Correlação de Spearman nas 172 participantes; o marcador rs1426654 fica no gene de pigmentação SLC24A5, que a literatura associa à pele clara em europeus (ver o post sobre genes da cor da pele). · Limitações: Adjetivo "modesta" é leitura nossa: rho em torno de 0,26 a 0,29 em módulo, ou seja, ancestralidade explica pouco da variação individual. Nenhuma correlação significativa para a ancestralidade ameríndia. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: A mesma categoria de cor tem ancestralidade média diferente conforme a região: entre os que se declararam pardos, a ancestralidade europeia média foi de 68,6% em Belém (PA) e 44,2% na amostra do Sul, e a africana, de 10,6% e 44,4%. [1] Resultados
Contexto: 934 pessoas de quatro regiões, genotipadas em 40 marcadores de inserção e deleção; pardos do Norte de Belém e do Sul, em 2011. · Limitações: Os autores sortearam números parecidos de pessoas em cada categoria em clínicas, bancos de sangue e hospitais; a amostra não é representativa de cada região, e não vale como retrato da população. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Entre os que se declararam pretos, a ancestralidade europeia média variou de 29,3% (Santa Catarina) a 53,9% (Bahia). [1] Discussão
Contexto: Médias de amostras de Santa Catarina e da Bahia (Ilhéus) no estudo de Pena e colegas (2011). · Limitações: Amostras pequenas e não representativas de cada estado. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Pena e colegas propõem duas explicações possíveis, não excludentes, para a diferença regional: o Sul recebe menos radiação ultravioleta, de modo que seria preciso mais ancestralidade africana para ter pele parda ou preta; e os critérios culturais de classificação podem variar de região para região. Nenhuma foi testada no estudo. [1] Discussão
Contexto: Hipóteses dos autores para amostras de 2011. · Limitações: Não há teste dessas hipóteses no estudo; a pigmentação não foi medida com aparelho nele. · Hipótese dos autores; ver o que o estudo mede e o que ele apenas sugere. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Um modelo proposto para explicar a dissociação: o sistema brasileiro classifica pela aparência, que depende de poucos genes, e ignora o resto do genoma. Filhos de um casal de ancestralidades diferentes podem ter a mesma proporção de alelos de cada origem e ser vistos em categorias distintas. [1] Discussão [3] Discussão
Contexto: Modelo teórico dos autores (2003 e 2011), com um exemplo hipotético de geração a geração; nenhum dos dois estudos o testa diretamente. · Limitações: É um modelo, não uma medição; supõe também que as pessoas se unam por cor, o que os autores citam de estudos demográficos. · Interpretação dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Para descrever as regiões sem depender das categorias, Pena e colegas multiplicaram a ancestralidade de cada categoria pela fração dela no censo de cada região; assim, a ancestralidade europeia predominou em todas as regiões, de 60,6% no Nordeste a 77,7% no Sul. [1] Discussão
Contexto: Cálculo com as amostras de 2011 e os dados do censo de 2008; a estimativa de Ceará e Santa Catarina não foi possível por falta de dados de alguma categoria. · Limitações: É uma estimativa baseada em amostras não representativas e em proporções do censo; a mistura regional em estudos de base populacional é tratada no post sobre o EPIGEN. · Estimativa por cálculo dos autores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- PLOS ONE — The Genomic Ancestry of Individuals from Different Geographical Regions of Brazil Is More Uniform Than Expected
Pena, S. D. J.; Di Pietro, G.; Fuchshuber-Moraes, M. et al. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0017063 - PLOS ONE — Genomic Ancestry, Self-Reported “Color” and Quantitative Measures of Skin Pigmentation in Brazilian Admixed Siblings
Leite, T. K. M.; Fonseca, R. M. C.; de França, N. M.; Parra, E. J.; Pereira, R. W. · 2011 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1371/journal.pone.0027162 - Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) — Color and genomic ancestry in Brazilians
Parra, F. C.; Amado, R. C.; Lambertucci, J. R.; Rocha, J.; Antunes, C. M.; Pena, S. D. J. · 2003 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.0126614100
Histórico de alterações
- Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 19; conferência de trechos automatizada)