Paleontologia
Coprólitos: como se reconhecem fezes fossilizadas e o que elas revelam sobre dieta e ecossistema
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Fósseis
Coprólitos são fezes fossilizadas. Reconhecem-se pela forma (a espiral dos de tubarão, por exemplo), pelo conteúdo (ossos, escamas, carapaças, restos de insetos) e, nos de carnívoros, pelo fosfato de cálcio. Informam o que o animal comeu, mas ligá-los ao produtor exige ressalvas. Em 1998, um coprólito atribuído a um tiranossauro, mais de duas vezes maior que os de carnívoros anteriores, trouxe 30–50% de fragmentos de osso.
Fezes raramente fossilizam, e só quando mineralizam rápido. Nos carnívoros, o fosfato dos tecidos e dos ossos ingeridos ajuda a cimentar a massa com fosfato de cálcio. Por isso o fosfato serve de pista, mas não de prova: concreções fosfáticas sem origem fecal também existem em rochas continentais. Coprólitos pertencem aos bromalitos, grupo que inclui o conteúdo intestinal fossilizado, as pedras de moela e as massas regurgitadas. O que se lê neles é a dieta de um indivíduo: restos de presas, fibras vegetais, até parasitas. A dificuldade é saber quem os produziu, e a resposta costuma ficar em níveis amplos, como um grupo de peixes, raramente numa espécie.
Nem toda pedra fosfática é cocô
Uma concreção da Formação Hell Creek (EUA) trazia um crocodilo jovem com crânio quase inteiro. Pelo volume, de cerca de 2 litros, parecia fezes de um bicho enorme, mas os ossos estavam completos demais: a equipe concluiu por origem não fecal.
Como se reconhece, e como se confunde
Três pistas pesam: a forma, o conteúdo e a química. Espirais apontam para peixes cartilaginosos como os tubarões; ossos fragmentados e fosfato de cálcio sugerem carnívoro. Mas concreções fosfáticas sem origem fecal existem, e um crocodilo de crânio quase completo mostrou que o fosfato isolado engana. Quanto mais inteiros os ossos, menos provável é que tenham passado pelo intestino.
Como sabemos o que há dentro
Lâminas finas e microscópio eletrônico mostram a composição, mas cortam o espécime. A microtomografia, inclusive a de síncrotron, mapeia em três dimensões, sem destruí-lo, as inclusões: élitros de besouro na Polônia, conchas de braquiópodes e de foraminíferos em outro coprólito. O limite é que a imagem mostra o que sobreviveu à digestão, não o cardápio completo.
O caso do coprólito de tiranossauro
Em 1998, Karen Chin e colegas descreveram um coprólito mais de duas vezes maior que os de carnívoros conhecidos até então, com 30–50% de fragmentos de osso. A atribuição a um tiranossauro vem do tamanho e do contexto de tempo e lugar, não de um esqueleto ao lado, e os próprios autores escrevem "most likely" para Tyrannosaurus rex.
O que fezes dizem do ecossistema
Cada coprólito é uma refeição datada. Na Polônia, um espécime indica tubarões que comiam animais de concha no fundo do mar. Em Svalbard, 97 coprólitos em cinco morfotipos ajudam a montar a teia alimentar do Triássico Inferior. O elo mais fraco é o produtor: na maioria dos casos só se chega a um grupo amplo, e hipóteses como a do Silesaurus insetívoro seguem sendo hipóteses.
Como sabemos
O núcleo (identificação, conteúdo, ressalvas de autoria) vem de quatro artigos abertos lidos na íntegra; o caso do coprólito de tiranossauro depende do resumo do artigo de 1998, de acesso restrito.
- Fato estabelecido: Um coprólito do Cretáceo descrito em 1998 era mais de duas vezes maior que qualquer coprólito de carnívoro descrito antes dele. [1] Resumo
Contexto: Espécime descrito por Chin e colegas na Nature em 1998. · Limitações: Comparação válida para os coprólitos de carnívoros conhecidos até 1998. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Evidência forte: O tamanho e o contexto temporal e geográfico levaram os autores a atribuí-lo a um tiranossauro, mais provavelmente Tyrannosaurus rex. [1] Resumo
Contexto: Atribuição indireta, por tamanho e contexto. · Limitações: Ressalva dos próprios autores (most likely): a espécie exata não é demonstrada. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Fato estabelecido: Entre 30% e 50% do espécime era formado por fragmentos de osso, evidência direta da dieta e da digestão de um terópode. [1] Resumo (texto do registro, em que o travessão aparece como –)
Contexto: Mesmo espécime de 1998. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Consenso científico: Identificar coprólitos de terópodes é mais difícil porque outros carnívoros conviviam com os dinossauros e a maioria das fezes não tem autoria clara. [1] Resumo
Contexto: Problema geral de atribuição de coprólitos do Mesozoico. · Conferida na fonte (resumo), conferência automatizada - Consenso científico: A maioria dos coprólitos de animais carnívoros foi mineralizada com fosfato de cálcio. [2] Introduction
Contexto: Coprólitos de carnívoros; os de herbívoros têm outra composição típica. · Limitações: Regra geral, com exceções. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em rochas sedimentares clásticas terrestres o fósforo é normalmente muito baixo (média de cerca de 0,07% em massa), por isso o fosfato é usado como critério para identificar coprólitos de carnívoros. [2] Introduction
Contexto: Rochas clásticas terrestres, em média. · Limitações: Critério prático, não prova de origem fecal. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Descobertas recentes mostraram que concreções fosfáticas fossilíferas de origem não fecal são mais comuns do que se reconhecia, o que torna o fosfato insuficiente para identificar um coprólito. [2] Abstract
Contexto: Concreções fosfáticas em ambientes terrestres. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Num caso da Formação Hell Creek, a completude e a distribuição dos elementos do esqueleto sustentaram origem não fecal para uma concreção fosfática com um crocodilo jovem. [2] Abstract
Contexto: Um único espécime (UCM 123127), Cretáceo Superior de Montana. · Limitações: Os autores admitem que coprólitos e concreções não fecais podem ser difíceis de diferenciar. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O volume de cerca de 2 litros da concreção era compatível com fezes de um animal muito grande, comparável ao de prováveis coprólitos de tiranossaurídeos descritos antes (cerca de 2,4 litros e cerca de 6 litros). [2] Discussion, Concretion shape, size
Contexto: Comparação feita pelos autores; o volume não bastou para separar fezes de concreção. · Limitações: Volume sozinho não decide a origem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Forma, tamanho e conteúdo do coprólito, além da associação com pegadas ou esqueletos, são as principais ferramentas para ligá-lo ao produtor. [3] Introduction
Contexto: Coprólitos de vertebrados em geral. · Limitações: Ligar coprólito a produtor continua sendo desafio. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O que já se descreveu dentro de coprólitos inclui restos de plantas, ossos, dentes, pelos, penas, células musculares, exoesqueleto de invertebrados, asas de insetos, corpos e ovos de parasitas. [3] Introduction
Contexto: Lista de inclusões já descritas na literatura, não de um único espécime. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Cinco coprólitos do Triássico Superior de Krasiejów (Polônia) examinados por microtomografia de síncrotron continham sobretudo élitros de besouros e fragmentos de artrópodes. [3] Abstract
Contexto: Cinco coprólitos morfologicamente semelhantes, de dois intervalos fossilíferos de Krasiejów. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Os autores propõem, como hipótese, que o produtor foi o dinossauriforme Silesaurus opolensis, que bicaria insetos do chão como algumas aves atuais. [3] Abstract
Contexto: Atribuição por tamanho dos coprólitos e candidatos do mesmo sítio. · Limitações: Hipótese dos autores, baseada em candidatos do registro fóssil do sítio. · Hipótese dos autores sobre o produtor e o comportamento; não há esqueleto associado ao coprólito. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A espiral heterópola dos coprólitos cretáceos de Opole (Polônia) aponta tubarões como produtores. [4] Results
Contexto: Coprólitos da região de Opole, Cretáceo Superior. · Limitações: Atribuição por forma, em nível de grupo. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Fragmentos de conchas de braquiópodes dentro de um coprólito de Opole indicam que ao menos algumas espécies de tubarões esmagadores de conchas se alimentavam de pequenos organismos do fundo do mar. [4] Abstract
Contexto: Um coprólito atribuído, com cautela, a Ptychodus. · Limitações: Um único espécime; a atribuição ao gênero é provável, não certa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Num leito fóssil do Triássico Inferior de Svalbard, 97 coprólitos foram classificados por morfologia e inclusões em cinco morfotipos. [5] Abstract
Contexto: Grippia bonebed, Formação Vikinghøgda, Svalbard. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Mesmo com muitos dados, em geral só é possível identificar o produtor em níveis taxonômicos mais altos. [5] Introduction
Contexto: Afirmação feita para coprólitos em geral. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Nature — A king-sized theropod coprolite
Chin, K.; Tokaryk, T. T.; Erickson, G. M.; Calk, L. C. · 1998 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/31461 - Scientific Reports — Determining whether a phosphatic concretion containing a Cretaceous juvenile crocodylian is a coprolite or a non-fecal concretion
Allen, R. C.; Chin, K.; Zawaski, M.; Bevitt, J. J.; Smiglewski, W. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-025-90032-0 - Royal Society Open Science — Beetle-bearing coprolites possibly reveal the diet of a Late Triassic dinosauriform
Qvarnström, M.; Wernström, J. V.; Piechowski, R.; Tałanda, M.; Ahlberg, P. E.; Niedźwiedzki, G. · 2019 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsos.181042 - PeerJ — Late Cretaceous coprolite from the Opole area (southern Poland) as evidence for a variable diet in shell-crushing shark Ptychodus (Elasmobranchii: Ptychodontidae)
Mazurek, D.; Antczak, M. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7717/peerj.16598 - PeerJ — Digesting an ancient ecosystem: coprolites from the Grippia bonebed, Lower Triassic, Svalbard
Simonsen, V.; Roberts, A. J.; Engelschiøn, V. S.; Hammer, Ø.; Hurum, J. H. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.7717/peerj.20746
Histórico de alterações
- Versão 2 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 4; conferência de trechos automatizada)