Astronomia

Copérnico e o livro de 1543 que tirou a Terra do centro do universo

Publicado em 11/10/2026 · Última alteração em 11/10/2026

Em 1543, em Nuremberg, saiu o De revolutionibus orbium coelestium, de Nicolau Copérnico, cônego de Frombork, na Polônia. O livro põe o Sol perto do centro do universo e dá à Terra três movimentos, entre eles o giro diário e a volta anual em torno do Sol. Com isso, o vaivém aparente dos planetas passa a ser efeito do movimento de quem observa. A obra manteve círculos e epiciclos e não era mais precisa que as tabelas antigas, mas mudou a pergunta da astronomia.

Copérnico nasceu em Toruń em 1473, estudou em Cracóvia, Bolonha, Pádua e Ferrara e passou a vida adulta como cônego em Frombork. Por volta de 1514 circulou entre amigos um manuscrito curto, o Commentariolus, com a ideia central: a Terra se move e o centro do cosmos fica perto do Sol. Em 1539 o jovem matemático Georg Joachim Rheticus chegou a Frombork, convenceu Copérnico a publicar e escreveu em 1540 a Narratio prima, primeira descrição impressa da teoria. O livro completo foi impresso em 1543 por Johann Petreius, em Nuremberg, com um prefácio anônimo de Andreas Osiander que o apresentava como mero artifício de cálculo. Para fazer os planetas andarem só com movimentos circulares uniformes, Copérnico usou recursos criados séculos antes pelos astrônomos de Maragha, no Irã, e de Damasco: o par de Tusi, de Nasir al-Din al-Tusi, e modelos muito parecidos com os de Ibn al-Shatir.

O prefácio que não era dele

O texto que abre o livro, dizendo que as hipóteses não precisam ser verdadeiras nem sequer prováveis, foi escrito pelo teólogo Osiander, sem assinatura. Rheticus e Tiedemann Giese protestaram contra ele. O livro de Copérnico tratava a Terra em movimento como descrição do mundo, não como truque de cálculo.

Uma ideia antiga, uma matemática nova

Arquimedes registrou que Aristarco de Samos já propusera uma Terra que gira e circula o Sol. Copérnico levou a ideia ao nível de um tratado de astronomia matemática, com tabelas, cálculos e a ordem dos planetas pelo tempo de volta. O ganho não foi só dizer que a Terra se move: foi mostrar que um único movimento da Terra explica, de uma vez, o vaivém aparente de todos os planetas.

A dívida com Maragha

Para mover a Terra sem abandonar os círculos uniformes, Copérnico recorreu a recursos criados por astrônomos do mundo islâmico, entre eles o par de Tusi, que Nasir al-Din al-Tusi expôs no século XIII, quando dirigia o observatório de Maragha, e modelos de Ibn al-Shatir. A ligação é aceita pelos especialistas. O trajeto da ideia até a Polônia é o que ainda se discute.

Não era mais preciso

Quem esperava previsões muito melhores ficou sem elas: entre as Tábuas Afonsinas, de base ptolomaica, e as Prutênicas, feitas com os cálculos de Copérnico, havia pouca diferença de precisão. O modelo mantinha epiciclos e círculos. Segundo a Linda Hall Library, a aceitação geral do sistema levaria cerca de cem anos.

Suspenso, corrigido, liberado

Em 1616 a Congregação do Índice suspendeu o livro até ser corrigido, e em 1620 apontou cerca de uma dúzia de correções. Na prática, poucos exemplares foram censurados: Gingerich contou 33 em cerca de 400 examinados na Europa. O livro só deixou o Índice em 1835.

Como sabemos

Datas e conteúdo do livro conferem em MacTutor, Stanford Encyclopedia of Philosophy, Linda Hall e Gingerich; o leito de morte e o caminho de Maragha ficam com a ressalva devida.

Em debate: O caminho exato pelo qual o par de Tusi e outros modelos de Maragha chegaram a Copérnico é discutido: o uso é aceito, mas faltam documentos sobre quando, onde e por qual intermediário, e a hipótese de redescoberta independente segue em debate entre historiadores.

Em debate: Osiander quis que o livro fosse lido como hipótese de cálculo. Rheticus e Giese protestaram, e a leitura de Osiander pesou entre os primeiros leitores.

Fontes

  1. MacTutor, Universidade de St Andrews — Nicolaus Copernicus
    consultada em 06/10/2026
  2. Stanford Encyclopedia of Philosophy — Nicolaus Copernicus
    consultada em 06/10/2026
  3. Linda Hall Library — Nicolaus Copernicus (Scientist of the Day)
    consultada em 06/10/2026
  4. Owen Gingerich, Journal of the American Scientific Affiliation, 1981 — The Censorship of Copernicus' De revolutionibus
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 11/10/2026 — primeira versão

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