Evolução

Corvídeos e grandes primatas: o que a cognição parecida de linhagens distantes indica sobre a evolução

Publicado em 14/10/2026 · Última alteração em 14/10/2026

Corvos e grandes primatas resolvem tarefas de tipos parecidos, embora o último ancestral comum de aves e mamíferos tenha vivido há cerca de 324 milhões de anos e os prosencéfalos sejam organizados de modo muito diferente. Para Emery e Clayton (2004), isso indica que a cognição complexa evoluiu mais de uma vez. A tese é bem apoiada nos números de neurônios, mas os circuitos neurais convergentes ainda são, em boa parte, hipótese.

Convergência evolutiva é quando duas linhagens desenvolvem, de modo independente e sob pressões parecidas, uma característica de função semelhante que o ancestral comum não tinha. Homologia é o oposto: a característica vem do ancestral, sem interrupção. Em 2004, Emery e Clayton compararam corvídeos (corvos, gaios e afins) e grandes primatas em ferramentas, memória do passado e do futuro e cognição social. O pálio é a parte do cérebro anterior que, nos mamíferos, forma o córtex cerebral; nas aves ele é organizado em núcleos, sem as seis camadas do neocórtex. Estudos posteriores de neurônios e de neuroanatomia dão à tese uma base celular, sem encerrar o debate.

Entre 5 e 20 g contra cerca de 400 g

Segundo uma revisão de 2024, corvídeos e papagaios com cérebros de 5 a 20 g mostram propriedades cognitivas parecidas com as de grandes primatas, como chimpanzés, de cérebros de cerca de 400 g.

Convergência, homologia e herança comum

Uma semelhança entre aves e mamíferos pode ter três origens: herança de um ancestral comum (homologia), evolução independente sob pressões parecidas (convergência) ou uma mistura, em que a base é herdada e o uso evolui à parte. Emery e Clayton defendem a convergência para a cognição como um todo. Para circuitos específicos, a resposta varia caso a caso, e hipóteses de homologia e de convergência convivem na literatura.

Como sabemos que é convergência: o grupo externo

A comparação precisa de um terceiro grupo: os répteis. Kverková et al. (2022) lembram que não se separa ancestralidade comum de convergência sem considerá-los. Eles mediram massa do cérebro e neurônios em muitas espécies, mapearam numa árvore datada e viram que aves e mamíferos aumentaram esses valores de forma independente. Limite: isso vale para quantidades de neurônios, e não para circuitos nem para comportamento, que não foram medidos nos répteis.

Parecido em quê: comportamento, neurônios e circuitos

A semelhança aparece em três níveis, com apoio desigual. No comportamento, revisões de estudos que comparam corvídeos, papagaios e primatas encontram capacidades gerais semelhantes (Emery e Clayton; Güntürkün e colegas). Nos neurônios, corvídeos e papagaios grandes igualam ou superam macacos de cérebro maior. Nos circuitos, quatro candidatos a características convergentes foram listados, mas os próprios autores chamam a lista de especulativa e há dois modelos de homologia em disputa.

O que a convergência não diz

Convergência não ordena as espécies: não há aqui um ranking de quem é mais inteligente. Também não prova que uma única solução neural é necessária: a revisão de 2024 afirma que o isocórtex não é necessário, mas sugere que certos mecanismos podem ser difíceis de substituir. Falta ligar neurônios a habilidades de modo causal. E o texto integral de Emery e Clayton (2004) e a revisão de 2009 do mesmo debate não foram lidos por nós.

Como sabemos

A convergência em neurônios tem reconstrução publicada; a convergência em circuitos é hipótese, e o texto integral de Emery e Clayton (2004) não foi lido.

Em debate: O modelo de campo de homologia usa a origem embrionária da região, e o de tipo celular e circuito compara neurônios e conexões. Eles discordam, por exemplo, sobre o NCL: parte da amígdala das aves num modelo, possível estrutura cortical no outro. O que conta como convergência neural depende dessa escolha.

Fontes

  1. Science — The mentality of crows: convergent evolution of intelligence in corvids and apes
    Emery, N. J.; Clayton, N. S. · 2004 · Revisão ou síntese científica · lido só o resumo · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1126/science.1098410
  2. Trends in Cognitive Sciences — Why birds are smart
    Güntürkün, O. et al. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1016/j.tics.2023.11.002
  3. Proceedings of the National Academy of Sciences — The evolution of brain neuron numbers in amniotes
    Kverková, K. et al. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.2121624119
  4. Proceedings of the National Academy of Sciences — Birds have primate-like numbers of neurons in the forebrain
    Olkowicz, S.; Kocourek, M.; Lučan, R. K.; Porteš, M.; Fitch, W. T.; Herculano-Houzel, S.; Němec, P. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 14/10/2026 DOI 10.1073/pnas.1517131113
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 14/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 20; conferência de trechos automatizada)

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