Física

Como se descobriu que morcegos se guiam por sons: de Spallanzani a Griffin e Galambos

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Sentidos dos animais

Morcegos voam no escuro sem colidir, mesmo sem enxergar. Nos anos 1790, Spallanzani e Jurine indicaram que o ouvido era necessário; em 1938–1941, Pierce, Griffin e Galambos detectaram gritos ultrassônicos e concluíram que o morcego se guia pelos ecos deles. Bloquear a recepção ou a produção do som fazia o voo falhar.

Ecolocalização é a orientação por ecos de sons que o próprio animal emite. A pergunta histórica era qual sentido guiava o voo noturno do morcego, e o método foi eliminar hipóteses: se a visão fosse a resposta, cegar o animal o derrubaria; se fosse a audição, tampar os ouvidos faria o mesmo. O ultrassom, som acima do que o ouvido humano percebe, escondeu a resposta por mais de um século: sem instrumento para registrá-lo, ninguém media o que o morcego emitia. Só um detector de ultrassom, criado no fim dos anos 1930, permitiu testar a ideia de que ele grita e escuta o retorno.

Uma intuição certa com o mecanismo errado

Em 1912, Hiram Maxim propôs usar nos navios o suposto 'sexto sentido' do morcego. Ele e contemporâneos atribuíam a percepção às batidas de asa, não a gritos agudos. A tecnologia funcionou, mas o mecanismo biológico estava errado.

Por que a visão foi descartada primeiro

O teste de Spallanzani era simples e comparativo: no escuro total os morcegos seguiam voando sem bater, enquanto a coruja não navegava. Depois, com morcegos cegos, a navegação e a captura de insetos continuaram. Esses resultados não provam sozinhos qual sentido guia o voo, mas descartam a visão como necessária e deixam as demais candidatas, como audição e tato.

O ouvido é necessário, mas qual som?

Jurine, em Genebra, e depois Hahn repetiram os testes com ouvidos tampados, e a navegação caía. Faltava dizer qual som. Ninguém detectava nada, porque os gritos são ultrassons. Hartridge propôs em 1920 que eram agudos demais para nós e que o animal lia os ecos. Era hipótese, e ficou duas décadas sem teste por falta de aparelho.

Ecos do próprio grito: a prova de 1938–1941

Com o detector de Pierce, Griffin registrou os pulsos ultrassônicos. Depois, com Galambos, observou os sinais perto de obstáculos, inclusive fios finos, e viu que o voo falhava quando recepção ou produção do som era bloqueada. A revisão de 2023 resume isso como prova de que os ecos dos próprios gritos guiam o animal. Griffin chamou o fenômeno de ecolocalização em 1944.

Resistência e limites desta história

Segundo uma revisão, um fisiologista sênior reagiu a Galambos num congresso dizendo que ele não podia estar falando sério, relato de segunda mão. Outro limite: Spallanzani e Jurine mostraram que o ouvido era necessário, mas não mediram o ultrassom, e a hipótese rival do tato e das batidas de asa (Maxim) estava no ar. Este texto usa revisões; os artigos originais não foram lidos.

Como sabemos

A sequência de experimentos está em três revisões abertas, mas os artigos originais de 1790–1941 não foram lidos.

Fontes

  1. Hearing Research — On the value of diverse organisms in auditory research: From fish to flies to humans
    Brown, A. D.; Hayward, T.; Portfors, C. V.; Coffin, A. B. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1016/j.heares.2023.108754
  2. Frontiers in Neural Circuits — Neural Processing of Naturalistic Echolocation Signals in Bats
    Beetz, M. J.; Hechavarría, J. C. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fncir.2022.899370
  3. Journal of Experimental Biology — Adaptive echolocation behavior of bats and toothed whales in dynamic soundscapes
    Moss, C. F.; Ortiz, S. T.; Wahlberg, M. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1242/jeb.245450
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)

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