Zoologia

Como sabemos que lulas-gigantes existem: bicos em estômagos de cachalotes, cicatrizes, carcaças e DNA na água

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

Até 2004 ninguém tinha observado uma lula-gigante viva em seu ambiente, e a espécie já era estudada por pistas em outros corpos: restos em estômagos de cachalotes, carcaças encalhadas ou presas em redes e cicatrizes de ventosas na pele das baleias. Os bicos resistem por meses à digestão e muitos têm forma própria de cada espécie. O DNA de tecidos aponta uma espécie global, e hoje o DNA solto na água também acusa a lula.

A lula-gigante (Architeuthis dux) vive em oceano profundo e raramente é vista. O conhecimento foi montado por indícios. O bico é a peça dura, de quitina, na boca da lula; o cachalote (Physeter macrocephalus) digere a carne e deixa os bicos acumulados no estômago, onde podem ser contados e medidos. Encalhes e capturas acidentais em redes de pesca fornecem carcaças e tecido para análise. Cicatrizes circulares na pele dos cachalotes registram encontros com lulas de ventosas fortes. O DNA ambiental (eDNA) é o material genético que os animais liberam no ambiente, como muco e fezes; coleta-se água e procura-se nela DNA da espécie. Cada pista é indireta e tem o seu viés, e este artigo mostra o que cada uma permite afirmar. Tamanhos e a comparação com a lula-colossal estão em outro artigo.

O bico guarda a idade

Em cortes do rostro do bico inferior de lulas-gigantes aparecem faixas de crescimento. A leitura dessas faixas levou a uma estimativa de vida máxima de cerca de 3 anos, um número obtido por um método indireto e ainda difícil de validar.

O bico: o que sobra no estômago e o que ele permite dizer

Quando um cachalote engole uma lula, a carne some rápido, mas o bico pode resistir por vários meses. Desde os anos 1960, Malcolm Clarke e colegas mostraram que muitos bicos têm forma própria de cada espécie e que as medidas do bico se relacionam com o tamanho e a massa do animal. Um bico achado no estômago diz, portanto, qual lula foi comida e quão grande era. O limite é que isso exige coleções de referência e especialistas; erros de identificação se repetem pelos estudos seguintes.

Três cachalotes, uma janela e seus vieses

Em dezembro de 2001, três cachalotes machos imaturos encalharam na Baía de Biscaia. Os bicos de 19 espécies de cefalópodes dentro deles foram identificados e medidos por Cherel e colegas. Quase todos os bicos de lula-gigante tinham tamanho de indivíduos jovens; só três eram grandes. A amostra mostra o que esses animais comeram naquela região. Não mede quantas lulas há, nem se as grandes escapam do cachalote.

Cicatrizes, carcaças e DNA de tecido

Cicatrizes circulares na pele de cachalotes são pistas de contato: o Smithsonian as atribui às ventosas da lula-gigante e nota que, em baleias velhas, elas se sobrepõem. Já as carcaças encalhadas ou presas em redes dão tecido, e foi com 43 amostras assim que se mediu a variação do DNA mitocondrial. Ela foi excepcionalmente baixa, o que é compatível com uma única espécie, hipótese que os autores escrevem como tal e que o genoma nuclear poderá testar.

Da câmera guiada por baleias ao DNA na água

Em 2004, pesquisadores no Japão usaram dados de mergulho de cachalotes para escolher onde instalar câmeras com isca, e uma lula-gigante atacou a 900 m. Um tentáculo cortado trouxe tecido e DNA que confirmaram a identificação. Em 2021, um estudo nos Açores achou DNA de Architeuthis em água do mar de áreas de caça de cetáceos, segunda detecção desse tipo no mundo segundo os autores. O eDNA indica presença, não abundância, e não vê o animal.

Como sabemos

Cada pista vem de um estudo aberto lido, mas várias são indiretas, de poucos exemplares, ou conhecidas só por resumo ou revisão.

Fontes

  1. Biology Letters (The Royal Society) — Stable isotopes document the trophic structure of a deep-sea cephalopod assemblage including giant octopod and giant squid
    Cherel, Y.; Ridoux, V.; Spitz, J.; Richard, P. · 2009 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rsbl.2009.0024
  2. Frontiers in Physiology — The significance of cephalopod beaks as a research tool: An update
    Xavier, J. C.; Golikov, A. V.; Queirós, J. P.; et al. · 2022 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.3389/fphys.2022.1038064
  3. Proceedings of the Royal Society B — First-ever observations of a live giant squid in the wild
    Kubodera, T.; Mori, K. · 2005 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2005.3158
  4. Proceedings of the Royal Society B — Mitochondrial genome diversity and population structure of the giant squid Architeuthis: genetics sheds new light on one of the most enigmatic marine species
    Winkelmann, I.; Campos, P. F.; Strugnell, J.; et al. · 2013 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1098/rspb.2013.0273
  5. Science Advances — Deep-sea predator niche segregation revealed by combined cetacean biologging and eDNA analysis of cephalopod prey
    Visser, F.; Merten, V. J.; Bayer, T.; et al. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.abf5908
  6. Smithsonian Institution — Giant Squid Sucker Marks
    Smithsonian Ocean (Smithsonian National Museum of Natural History) · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
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