Ciências da Terra
Como a deriva continental virou tectônica de placas: as evidências do fundo do mar, de 1950 a 1968
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Tectônica de placas
A deriva continental, proposta por Wegener em 1912, foi rejeitada por falta de uma força que movesse os continentes. O que a reabilitou veio do fundo do mar, nas décadas de 1950 e 1960: uma cordilheira contínua mapeada no meio dos oceanos, faixas magnéticas simétricas em torno dela, idades que cresciam com a distância e, em 1968, amostras de sondagem que mostraram o fundo oceânico crescendo.
Wegener propôs em 1912 que os continentes se afastaram, mas não explicou como: a ideia de que blocos de rocha sólida "arrastariam" pelo fundo do mar foi considerada fisicamente impossível. A solução veio da hipótese de espalhamento do fundo oceânico: crosta nova nasce nas cordilheiras meso-oceânicas, afasta-se delas e volta ao manto nas fossas. Os continentes não abrem caminho pelo fundo; viajam sobre ele. Para testá-la, faltavam dados do oceano. Eles vieram de sondagens acústicas, magnetômetros, relógios radioativos de rochas e sismógrafos. Magnetita é um mineral magnético que, ao esfriar a lava, registra a direção do campo da Terra na hora; a polaridade é "normal" quando coincide com a atual e "reversa" quando é oposta.
"O senhor abalou os alicerces da geologia"
Em 1957, depois de uma palestra de Bruce Heezen em Princeton sobre o sistema de cordilheiras do fundo do mar, Harry Hess, que logo desenvolveria a hipótese do espalhamento, lhe disse que ele havia abalado os alicerces da geologia.
Como sabemos: o mapa que revelou a cordilheira
Marie Tharp montou perfis do fundo do Atlântico a partir de linhas de sondagem de navios e notou, no centro da cordilheira, um vale em V. Heezen não gostou do que isso sugeria, a deriva continental. Quando os epicentros de terremotos foram sobrepostos aos mapas, de mesma escala, eles caíam dentro do vale, e em meados de 1953 Heezen aceitou o vale. Limite: os epicentros tinham incerteza de várias centenas de milhas, e o relato vem da própria Tharp. [a3][a4]
Como sabemos: o fundo do mar como fita magnética
A lava rica em magnetita guarda a direção do campo magnético da Terra quando esfria. Pesquisas magnéticas dos anos 1950 mostraram faixas alternadas de rocha com polaridade normal e reversa, em fileiras paralelas à cordilheira. Em 1963, Vine, Matthews e Morley propuseram que o padrão registrava reversões repetidas do campo. Se estivessem certos, o fundo seria uma espécie de gravação, com a rocha mais jovem junto ao eixo. Era uma hipótese, e ainda precisava de datas. [a6][a8]
Como sabemos: datar as reversões e comparar com o fundo
O método potássio-argônio mede quanto potássio-40 ainda resta em uma rocha e quanto argônio-40 se acumulou; como a meia-vida é de 1.310 milhões de anos, serve para rochas de milhões de anos. Cox, Doell e Dalrymple o aplicaram a rochas vulcânicas dos continentes, cuja polaridade também mediram, e obtiveram a escala das reversões dos últimos 4 milhões de anos. Em 1966, a comparação com o padrão do fundo, supondo velocidade constante, deu correlação notável. [a9][a10]
O teste final e o que ficou em aberto
Em 1968, as perfurações do Glomar Challenger deram idades que cresciam com a distância da cordilheira, e a rede mundial de sismógrafos mostrou terremotos concentrados onde Hess previra criar e destruir crosta. A explicação do mecanismo, que faltava a Wegener, estava no deslocamento do fundo junto com os continentes. Mas a causa das forças que movem as placas ainda está entre as questões em aberto, segundo o USGS. [a11][a12][a14]
Como sabemos
Cronologia sustentada por páginas institucionais do USGS e pelo relato da própria Marie Tharp; faltam os artigos originais de 1963–1966, não lidos.
- Consenso científico: A teoria de Wegener (1912) tinha uma fraqueza decisiva: não explicava que forças poderiam mover massas tão grandes de rocha sólida por distâncias tão grandes; a sugestão de que os continentes "arrastavam" pelo fundo do mar foi refutada por Harold Jeffreys como fisicamente impossível. [5] Historical perspective, §6
Contexto: Críticas contemporâneas à proposta de 1912 e sua formulação posterior. · Limitações: O argumento de Jeffreys vale para o modelo de Wegener (continentes se deslocando através do fundo); não vale para o espalhamento do fundo oceânico, em que o fundo se move junto. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: O sistema de cordilheiras meso-oceânicas tem mais de 50.000 km de comprimento e, em alguns pontos, mais de 800 km de largura; foi revelado pelas pesquisas oceanográficas dos anos 1950. [1] Ocean floor mapping, §5
Contexto: Cordilheira meso-oceânica global, como descrita pelo USGS. · Limitações: Valores arredondados pela fonte ("mais de"). · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: A partir de perfis do fundo do Atlântico, Marie Tharp identificou um vale em V no centro da Cordilheira Meso-Atlântica; Bruce Heezen reagiu dizendo que aquilo se parecia demais com a deriva continental. [4] relato de Tharp, §15
Contexto: Relato em primeira pessoa de Marie Tharp, escrito para os 50 anos do Lamont (1949-1999) e republicado pela Universidade Columbia em 2020. · Limitações: Fonte memorialística, escrita décadas depois; a descrição do que Heezen disse é de Tharp. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Ao sobrepor mapas na mesma escala, Tharp e Heezen viram que os epicentros de terremotos se alinhavam dentro do vale central da cordilheira; Heezen aceitou a existência do vale em meados de 1953. [4] relato de Tharp, §28
Contexto: Atlântico Norte; epicentros de terremotos usados onde não havia sondagens. · Limitações: Segundo Tharp, a posição dos epicentros tinha incerteza de várias centenas de milhas; o alinhamento só aparece ao considerar essa margem. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Heezen e Tharp apresentaram o sistema global de cordilheiras em 1956, num encontro da União Geofísica Americana; a reação foi de espanto a escárnio, e em 1957 Harry Hess disse a Heezen, após uma palestra em Princeton, que ele havia abalado os alicerces da geologia. [4] relato de Tharp, §34
Contexto: Reuniões e palestras de 1956 e 1957 descritas por Tharp. · Limitações: Fonte memorialística; a fala de Hess é reproduzida de memória por Tharp. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Magnetômetros adaptados de aparelhos militares da Segunda Guerra revelaram, a partir dos anos 1950, faixas alternadas de rocha com polaridade normal e reversa, dispostas em fileiras dos dois lados das cordilheiras; a magnetita da lava registra a orientação do campo magnético da Terra quando ela esfria. [1] Magnetic striping and polar reversals, §3
Contexto: Fundo oceânico formado por basalto, rocha vulcânica rica em ferro. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Harry Hess fez circular em 1959 um manuscrito com a hipótese do espalhamento do fundo oceânico e a publicou em 1962 ("History of Ocean Basins"); ele enfrentou resistência por haver poucos dados do fundo para testá-la. [2] Harry Hammond Hess, §3
Contexto: Hess, geólogo de Princeton e oficial da reserva da Marinha dos EUA, que fez sondagens acústicas no Pacífico durante a Segunda Guerra. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Hipótese: Em 1963, Frederick Vine, Drummond Matthews e Lawrence Morley hipotetizaram que as faixas magnéticas do fundo eram produzidas por reversões repetidas do campo magnético da Terra, e não por variações de intensidade do campo. [3] Magnetic stripes and isotopic clocks, §2
Contexto: Proposta de 1963, anterior aos testes de 1966; Morley, do Serviço Geológico do Canadá, chegou à ideia de forma independente, segundo o USGS. · Limitações: Era hipótese em 1963; a confirmação veio com a datação das reversões (afirmação a10). · Hipótese em 1963; confirmada depois. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: A equipe do USGS (Allan Cox, Richard Doell e Brent Dalrymple) reconstruiu a história das reversões magnéticas dos últimos 4 milhões de anos datando rochas vulcânicas continentais pelo método potássio-argônio; o potássio-40 tem meia-vida de 1.310 milhões de anos. [3] Magnetic stripes and isotopic clocks, §4
Contexto: A datação foi feita em rochas vulcânicas dos continentes, cuja polaridade magnética também foi medida; elas forneceram a "escala de tempo" das reversões. · Limitações: Não foi uma datação do basalto oceânico: a escala veio de rochas continentais e foi depois comparada com o padrão do fundo. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: Em 1966, Vine e Matthews (e Morley, independentemente) compararam as idades das reversões com o padrão de faixas do fundo, supondo que o fundo se afastava do centro a alguns centímetros por ano, e encontraram uma correlação notável. [3] Magnetic stripes and isotopic clocks, §5
Contexto: Perfil magnético observado no Leste do Pacífico, comparado a um perfil calculado a partir das reversões dos últimos 4 milhões de anos. · Limitações: O ajuste depende da suposição de velocidade constante de afastamento; foi depois repetido em outros centros de espalhamento. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Consenso científico: Em 1968, o navio Glomar Challenger perfurou o fundo do Atlântico Sul; a idade das amostras, determinada por fósseis e por isótopos, foi a evidência decisiva do espalhamento, com rochas mais jovens perto do eixo da cordilheira e mais velhas longe dele. [1] Seafloor spreading and recycling of oceanic crust, §2
Contexto: Expedição de um ano que cruzou a Cordilheira Meso-Atlântica entre a América do Sul e a África. · Limitações: "Provou" é a palavra do USGS; na prática, as amostras se somaram às evidências magnéticas e sísmicas. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Evidência forte: A rede mundial de sismógrafos montada nos anos 1960 permitiu mapear com precisão onde os terremotos se concentram, nas fossas e nas cordilheiras, o que confirmou os lugares onde Hess previra criação e destruição de crosta oceânica. [1] Concentration of earthquakes, §2
Contexto: A rede (WWSSN) foi criada para fiscalizar o tratado de 1963 contra testes nucleares na atmosfera. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Fato estabelecido: Hess morreu em 1969 vendo a hipótese do espalhamento do fundo oceânico largamente aceita e confirmada, ao contrário de Wegener, morto em 1930 numa expedição à Groenlândia. [2] Harry Hammond Hess, §6 [5] Historical perspective, §7
Contexto: Fecho cronológico do período. · Conferida na fonte (página institucional), conferência automatizada - Incerto: A pergunta que Wegener deixou sem resposta, que forças movem as placas, segue entre as principais questões em aberto da tectônica de placas. [5] Historical perspective, §8
Contexto: Afirmação da página do USGS, cuja última modificação consta como julho de 2025. · Limitações: A página é de divulgação institucional e foi escrita nos anos 1990; o estado atual do debate sobre as forças motrizes não foi verificado em literatura recente. · Tratada como questão em aberto segundo o USGS; sem revisão de literatura recente. · Conferida em parte (página institucional), conferência automatizada - Interpretação: Segundo Tharp, os mapas dela e de Heezen deram a cientistas e ao público a primeira imagem relativamente realista do fundo oceânico e trouxeram a deriva continental para o campo da especulação racional. [4] relato de Tharp, §46
Contexto: Avaliação da própria autora sobre o efeito dos mapas. · Limitações: É juízo da participante, não resultado medido; outros trabalhos (magnéticos, isotópicos e sísmicos) foram necessários para a aceitação. · Opinião da própria Tharp. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- U.S. Geological Survey — Developing the theory (This Dynamic Earth: The Story of Plate Tectonics)
Kious, W. J.; Tilling, R. I. · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - U.S. Geological Survey — Harry Hammond Hess: Spreading the seafloor (This Dynamic Earth)
Kious, W. J.; Tilling, R. I. · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - U.S. Geological Survey — Magnetic stripes and isotopic clocks (This Dynamic Earth)
Kious, W. J.; Tilling, R. I. · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - Climate School, Columbia University (texto original do Lamont-Doherty Earth Observatory, 1999) — Marie Tharp: Connecting the dots (relato "Connect the Dots: Mapping the Seafloor and Discovering the Mid-ocean Ridge")
Tharp, M. · 2020 · Fonte histórica primária · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 - U.S. Geological Survey — Historical perspective (This Dynamic Earth)
Kious, W. J.; Tilling, R. I. · 1996 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 1; conferência de trechos automatizada)