História da África

Por séculos, o ouro da África Ocidental atravessou o Saara rumo ao norte, e o sal do deserto desceu para o sul

Publicado em 04/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

A partir do século V, o camelo permitiu que povos berberes cruzassem o Saara com regularidade; desde o século VIII, caravanas anuais ligavam o Magrebe ao Sahel. Do sul subia o ouro, extraído em regiões como Bambuk e, depois, Bure. Do norte descia o sal, cortado em placas em minas do deserto como Taghaza. No meio do caminho, o reino de Gana, ou Wagadu, dos soninquês, enriqueceu cobrando impostos sobre esse comércio.

Gana não tem relação geográfica com o país atual de mesmo nome: ficava entre o Saara e as cabeceiras dos rios Senegal e Níger, onde hoje estão o sudeste da Mauritânia e parte do Mali. O nome vem do título do rei, ghana; os governantes chamavam o reino de Wagadu. Geógrafos árabes o descreviam como a terra do ouro. No século XI, al-Bakri descreveu a corte do rei, com escudos e espadas guarnecidos de ouro e até coleiras de cães com ouro e prata. A capital dessa época foi identificada, com cautela, como Kumbi Saleh. Os soninquês mantinham em segredo a localização das minas, e o rei ficava com as pepitas, deixando o pó de ouro para circular. No fim do século XII, as rotas já começavam a evitar Awdaghust e a se voltar para a nova jazida de Bure; no século XIII, o comércio passou ao Império do Mali.

Uma cidade de sal

Ibn Battuta passou por Taghaza em 1352. Viu casas e mesquita feitas de blocos de sal, cobertas com peles de camelo, e nenhuma árvore. Ali só viviam os escravizados que extraíam o sal. Cada camelo levava duas placas. Uma carga valia de 8 a 10 mitcais de ouro em Walata e de 20 a 30 na capital do Mali.

O camelo e as rotas

O Saara nunca foi uma barreira absoluta, mas foi o camelo que tornou a travessia regular. Segundo o Metropolitan Museum, por volta do século V povos de língua berbere passaram a cruzar o deserto com esses animais, e a partir do século VIII caravanas anuais seguiam rotas que geógrafos árabes descreveram em detalhe. Nos séculos VIII e IX, mercadores árabes instalados em cidades do sul do Marrocos, como Sijilmasa, compravam ouro dos berberes e financiavam novas caravanas. Essas transações também estimularam a conversão dos berberes ao islã, e muitos dos mercadores que chegavam ao Sahel eram muçulmanos.

Gana, ou Wagadu

Gana foi o primeiro dos grandes Estados comerciais da África Ocidental. Os primeiros registros escritos, de autores árabes, são do século VIII, e por volta de 800 o reino já era rico e poderoso. Seus clãs soninquês, de língua mande, ficavam no meio do caminho entre os mercadores de sal do norte e os produtores de ouro do sul. O rei cobrava impostos de importação e exportação e uma taxa sobre a produção de ouro, governava por meio de chefes tributários e incorporou mercados como Awdaghust. Junto à cidade real crescia uma cidade comercial muçulmana, onde o ouro era trocado sobretudo por sal.

O segredo do ouro

Os soninquês guardavam dos mercadores muçulmanos a localização das minas, sobretudo as de Bambuk. Mesmo assim, a produção e o transporte do ouro mobilizavam, sem dúvida, centenas de milhares de pessoas. Segundo al-Bakri, os reis ficavam com as pepitas de metal puro e deixavam o ouro em pó para ser negociado pela população. Esse ouro era procurado pelos Estados islâmicos do norte da África, que precisavam do metal para cunhar moedas, e parte dele acabou também em moedas de ouro da Europa. A fama era tanta que um mapa ibérico de 1375, hoje na Biblioteca Nacional da França, representa o rei do Mali segurando uma pepita.

O valor do sal

O sal descia do Saara em placas cortadas nas minas do deserto. Ibn Battuta, que passou por Taghaza em 1352, conta que cada camelo levava duas placas e que uma carga, vendida por 8 a 10 mitcais de ouro em Walata, valia de 20 a 30 na capital do Mali, às vezes 40. Lá, o sal era cortado em pedaços e usado como dinheiro, como o ouro e a prata em outros lugares. Ele também registrou que, apesar da pobreza do lugar, em Taghaza se negociavam enormes quantidades de ouro. O Metropolitan Museum observa que havia fontes locais de sal ao sul do Saara e que o consumo do sal do deserto foi estimulado pelo próprio comércio.

De Gana ao Mali

Gana perdeu força a partir do século XI. Os almorávidas, movimento religioso e militar de povos berberes do Saara, tomaram Awdaghust em 1054. A tradição diz que tomaram também a capital em 1076, mas historiadores como David Conrad e Humphrey Fisher contestaram essa conquista, e as tradições soninquês falam sobretudo de seca. Em 1203, os susu ocuparam a capital; por volta de 1240, Sundiata Keita, fundador do Império do Mali, destruiu a cidade. O Mali passou a controlar o comércio e as rotas se voltaram para a jazida de Bure. Em 1324–1325, Mansa Musa chegou ao Cairo com tanto ouro que o preço do metal caiu na cidade.

Também pessoas

O comércio transaariano não levava só ouro e sal. Na Taghaza descrita por Ibn Battuta, quem extraía o sal eram pessoas escravizadas. Mais tarde, no Império Songai, o ouro ainda era o principal produto exportado para o norte, seguido de nozes de cola e de escravizados. Para os séculos XVI a XIX, as estimativas mais citadas indicam cerca de 5 milhões de pessoas levadas da África subsaariana pelo Saara, pelo mar Vermelho e pelo oceano Índico, cerca de dois terços pela rota do deserto, muitas delas compradas no norte da própria África. Para os séculos anteriores, os historiadores só conseguem fazer conjecturas.

Como sabemos

Estrutura do comércio, Gana e Taghaza vêm do Met, da Britannica e da tradução acadêmica de Ibn Battuta; datas antigas e a conquista almorávida estão marcadas como aproximadas ou contestadas.

Em debate: A tomada da capital de Gana pelos almorávidas em 1076 aparece em sínteses como a Britannica, mas David Conrad e Humphrey Fisher (History in Africa, 1982–1983) argumentaram que nem as fontes árabes nem as tradições orais mostram de forma inequívoca essa conquista; as tradições soninquês atribuem a desagregação de Wagadu sobretudo à seca. Sheryl Burkhalter (1992) propôs outra leitura das mesmas fontes.

Em debate: A identificação de Kumbi Saleh com a capital descrita por al-Bakri é aceita como provável, não como certa.

Fontes

  1. The Metropolitan Museum of Art, Heilbrunn Timeline of Art History — The Trans-Saharan Gold Trade (7th–14th Century)
    consultada em 03/10/2026
  2. Encyclopaedia Britannica — Ghana (historical West African empire)
    consultada em 03/10/2026
  3. Teaching Medieval Slavery and Captivity (projeto acadêmico); introdução de Paul J. Lane — Source: Ibn Baṭṭūṭa, Travels (Riḥlāt) — trechos da tradução em Levtzion e Hopkins, Corpus of Early Arabic Sources for West African History (Cambridge University Press, 1981)
    consultada em 03/10/2026
  4. History in Africa, vol. 10 (Cambridge University Press) — The Conquest That Never Was: Ghana and the Almoravids, 1076. II. The Local Oral Sources (resumo)
    consultada em 03/10/2026
  5. History in Africa, vol. 19 (Cambridge University Press) — Listening for Silences in Almoravid History: Another Reading of 'The Conquest That Never Was' (resumo)
    consultada em 03/10/2026
  6. African Economic History Network / Universidade de Gotemburgo — The Slave Trades out of Africa (The History of African Development)
    consultada em 03/10/2026
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