Genética

O código genético é quase universal: o mesmo dicionário, com raras exceções, de bactérias a animais

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

As células traduzem genes em proteínas lendo o material genético em trincas de bases, os códons. São 64 combinações possíveis, que especificam 20 aminoácidos e os sinais de parada. Essa tabela, chamada código genético padrão, é praticamente a mesma em quase toda a vida conhecida. Existem exceções, em que um ou poucos códons ganharam outro significado, mas são raras e limitadas.

Quatro letras de RNA, combinadas de três em três, dão 64 códons. Como são só 20 aminoácidos, vários códons significam o mesmo aminoácido, e três funcionam como sinal de parada. Esse conjunto de regras foi decifrado nos anos 1960, em trabalhos liderados por Marshall Nirenberg, Har Gobind Khorana e Severo Ochoa, entre outros. O espantoso é que a tabela vale, com poucas variações, para organismos muito distantes entre si. A explicação mais aceita é a herança: o código teria se fixado cedo e foi passado adiante por descendência, por isso a semelhança é lida como indício de ancestral comum. Também há variantes: o NCBI cataloga 33 tabelas de tradução, e quase todas diferem da padrão em poucos códons.

Uma bactéria de cigarra que lê UGA de outro jeito

Em muitas formas de vida, UGA é sinal de parada. Em micoplasmas, em algumas mitocôndrias e na bactéria simbionte de cigarras Hodgkinia (genoma de 144 mil bases), UGA passou a significar o aminoácido triptofano.

Uma tabela, 64 linhas

Com quatro bases e palavras de três letras, há 64 códons possíveis. O código padrão usa 61 deles para especificar os 20 aminoácidos e reserva três como sinal de parada. Como há mais códons que aminoácidos, vários significam a mesma coisa. Por exemplo, UUU é um dos códons da fenilalanina e AUG, o da metionina, que também costuma marcar o início da leitura. É essa tabela que um ribossomo consulta, códon por códon, ao montar uma proteína.

Como o dicionário foi decifrado

Nos anos 1960, experimentos com RNA sintético em extratos de bactérias permitiram associar trincas de bases a aminoácidos, uma a uma. O NHGRI data a conclusão do trabalho em 1966 e atribui o feito a Nirenberg, Khorana e Ochoa. Um dos primeiros resultados foi que UUU corresponde à fenilalanina. Com isso, o texto genético deixou de ser só uma sequência de letras e passou a poder ser lido como instrução para fazer proteínas.

As exceções

A palavra 'quase' no título é literal. O NCBI lista 33 tabelas de tradução. Em micoplasmas e em algumas mitocôndrias, UGA deixou de ser parada e passou a significar triptofano. Em certos ciliados, UAA e UAG significam glutamina. A bactéria simbionte de cigarras Hodgkinia tem UGA recodificado e um genoma de apenas 144 mil bases. Em todos esses casos, as mudanças atingem um ou poucos códons e o restante da tabela permanece igual.

Por que o arranjo é esse

Duas ideias se cruzam aqui. Uma é a do acidente congelado: uma vez que o código passou a ser usado por todos os genes, mudá-lo seria quase sempre prejudicial. Outra é a da minimização de erros: o código padrão limita o estrago de mutações, pois códons parecidos tendem a codificar aminoácidos parecidos. Simulações mostram que ele supera a maioria dos códigos aleatórios, mas não é o melhor possível. Um estudo experimental recente não achou ganho de robustez de proteínas entre códigos diferentes. A questão segue aberta.

Como sabemos

Os números e as exceções vêm de fontes abertas; a interpretação sobre ancestral comum e a minimização de erros é teoria em debate e está sinalizada como tal.

Em debate: Por que o código tem esse arranjo

Fontes

  1. PLoS Genetics / PubMed Central — Origin of an Alternative Genetic Code in the Extremely Small and GC-Rich Genome of a Bacterial Symbiont
    consultada em 06/10/2026
  2. NCBI Taxonomy — The Genetic Codes (tabelas de tradução)
    consultada em 06/10/2026
  3. PubMed Central — Experimental verification of the error minimization theory using non-standard genetic codes constructed in vitro
    consultada em 06/10/2026
  4. BMC Bioinformatics / PubMed Central — Simulated evolution applied to study the genetic code optimality using a model of codon reassignments
    consultada em 06/10/2026
  5. National Human Genome Research Institute (NIH) — 1966: Genetic Code Cracked
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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