Botânica

Clusia: árvores neotropicais que alternam entre C3 e CAM conforme a seca, e o que isso diz da evolução do CAM

Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026

Assuntos: Plantas em ação

O gênero Clusia reúne cerca de 321 espécies neotropicais e é o único conhecido de árvores dicotiledôneas com espécies capazes de CAM. Algumas, como C. minor e C. pratensis, fazem sobretudo fotossíntese C3 com água disponível e ativam o CAM na seca; outras, como C. hilariana nas restingas brasileiras, dependem muito dele. O CAM surgiu mais de uma vez no gênero, e a data dessas origens ainda é debatida.

No CAM (metabolismo ácido das crassuláceas), a planta fixa o CO2 sobretudo à noite, guarda-o como ácido málico nos vacúolos e o usa de dia com os estômatos fechados, perdendo menos água que uma planta C3. Em Clusia, o CAM varia em força: fraco em algumas espécies, facultativo em outras (ligado pela seca) e dominante em poucas. As folhas das espécies com CAM têm células do tecido paliçádico maiores, o que provavelmente serve para armazenar o ácido. As plantas crescem no solo ou sobre outras árvores, de florestas úmidas e páramos a restingas, e isso torna difícil encaixar cada espécie numa categoria só.

O sinal que Humboldt viu sem poder explicar

Na Venezuela, Humboldt notou que folhas de Clusia rosea, mergulhadas em água sob sol direto, não soltavam bolhas como as de outras espécies. Ele não tinha como interpretar; a revisão supõe que os estômatos estavam fechados de dia. O ciclo do CAM só foi descrito formalmente no fim dos anos 1940.

Fraco, facultativo ou dominante

Nem toda Clusia com CAM é igual. Em C. minor e C. pratensis em vaso, a rega mantém a fotossíntese sobretudo C3; sem irrigação, o CAM é induzido ou fortemente ampliado, e o padrão volta ao C3 quando se rega de novo. Em C. uvitana, medida in situ na copa de uma árvore no Panamá, cerca de 36 horas de chuva quase contínua cessaram a captação noturna. Em C. hilariana, das restingas brasileiras, o CAM é a principal via de ganho de carbono.

Como sabemos: o que o δ13C mostra e o que esconde

O CAM em Clusia foi demonstrado medindo a acidez titulável das folhas e a troca de CO2. O δ13C, razão de isótopos de carbono do tecido, registra o conjunto da vida da folha. Como as folhas duram mais de um ano e passam a maior parte do tempo em C3, o CAM sazonal pouco aparece; só valores perto de −15 ‰ indicam CAM forte e contínuo. Em C. rosea, há medidas de −14,5 ‰ e também na faixa C3, o que sugere plasticidade maior do que se supunha.

Onde cada tipo vive

Entre espécies, o CAM aparece mais em terras baixas e as C3 dominam florestas nebulosas, onde há menos déficit de água. Espécies facultativas ocupam climas com muita chuva anual e secas agudas, e os autores veem nisso uma forma de aproveitar o crescimento C3 quando há água e economizar com o CAM na seca. Em 909 amostras de herbário não houve relação entre ser epífita e o δ13C. Em dois locais do Sudeste do Brasil, a fisiologia não acompanhou a água nos micro-habitats.

Origens múltiplas e datas em disputa

Filogenias com vários marcadores apoiam várias origens independentes do CAM, estimadas em três a cinco para o CAM forte. Uma compilação de 2023 traz 12,5 e 7,5 milhões de anos para o tronco e a copa do gênero. A revisão de Luján e colegas considera provável a origem da capacidade de CAM por volta de 30 milhões de anos, ligada à queda do CO2, mas diz que falta modelagem. No conjunto das plantas, o CAM forte surgiu sobretudo nos últimos 30 milhões de anos.

O que o genoma sugere, com cautela

Em 2026, o genoma de C. major (CAM fraco), C. minor (facultativo) e C. rosea (forte) foi sequenciado; os números de cromossomos são 2n = 60, 90 e 120. Os autores propõem que duplicação de genoma inteiro seguida de diploidização pode ter dado origem à diversidade de tipos de CAM. É uma hipótese baseada em três espécies, de um único estudo recente, e ainda precisa de confirmação independente.

Como sabemos

A fisiologia (CAM facultativo, δ13C) está bem documentada; as datas e as causas evolutivas são estimativas ou hipóteses.

Em debate: Uma revisão de 2023 considera provável uma origem da capacidade de CAM por volta de 30 milhões de anos atrás, mas admite que falta modelagem e uma filogenia datada. Uma compilação de cronogramas estima 12,5 milhões de anos para o tronco do gênero e origens de CAM forte nos últimos 5 milhões. As duas estimativas não medem o mesmo evento e nenhuma está estabelecida.

Fontes

  1. Annals of Botany — Forty years of research into crassulacean acid metabolism in the genus Clusia: anatomy, ecophysiology and evolution
    Luján, M., Leverett, A., Winter, K. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcad039
  2. Annals of Botany — Atmospheric CO2 decline and the timing of CAM plant evolution
    Sage, R. F., Gilman, I. S., Smith, J. A. C., Silvera, K., Edwards, E. J. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/aob/mcad122
  3. Nature Communications — Clusia genomes shed light on the evolution and diversity of crassulacean acid metabolism physiotypes
    Kramml, H. M. et al. · 2026 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41467-026-71958-z
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 3; conferência de trechos automatizada)

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