Paleontologia

Cloudina, em Corumbá: um dos primeiros organismos com casca mineralizada, de cerca de 542 milhões de anos

Publicado em 06/10/2026 · Última alteração em 06/10/2026

Em calcários de Corumbá e Ladário, em Mato Grosso do Sul, aparecem tubos fossilizados de Cloudina, organismo marinho cuja parede era de carbonato de cálcio. Eles vêm da Formação Tamengo, datada em cerca de 542 milhões de anos, pouco antes do início do Cambriano. Cloudina está entre os registros mais antigos de uma casca mineralizada feita por um ser vivo, e alguns tubos trazem furos que podem ser marcas de predação.

A maioria dos organismos grandes do Ediacarano tinha corpo mole. Cloudina é uma das exceções: seu tubo era formado por cones de parede fina, encaixados uns nos outros como funis, e as análises químicas indicam calcita com pouco magnésio. O gênero também é conhecido da Namíbia, de cerca de 550 milhões de anos atrás. Em Corumbá, ele ocorre em calcários e siltitos da Formação Tamengo, no Grupo Corumbá, expostos em pedreiras e às margens do rio Paraguai, na planície do Pantanal. Uma cinza vulcânica no topo da formação foi datada em 541,85 milhões de anos, com margem de 0,75 milhão. Por isso Corumbá é um lugar-chave para estudar a virada entre o Ediacarano e o Cambriano.

Furos de poucas centenas de micrômetros

Num estudo com 291 tubos de Cloudina da Formação Tamengo, três tinham furos circulares ou elípticos de 187 a 237 micrômetros, perpendiculares à parede. Os autores os interpretam como perfurações de um predador, indício de que ter casca já podia compensar.

Um esqueleto de funis

O tubo de Cloudina cresce por cones sucessivos, cada um encaixado no anterior, como copos de papel empilhados. Entre as lâminas da parede há matéria orgânica, e a química indica calcita pobre em magnésio. Os tubos de Corumbá são sinuosos e mudam de direção com frequência, o que os autores relacionam à competição por espaço entre vizinhos.

Vida em tapetes microbianos

A maior parte dos tubos da Formação Tamengo está deitada ou inclinada, dentro ou junto de tapetes microbianos, e microfósseis de cianobactérias aparecem ao lado deles. Os autores veem nisso uma relação íntima entre esses organismos e as comunidades de micróbios do fundo raso do mar.

Como o Brasil entra na história

O Grupo Corumbá guarda a transição entre o Ediacarano e o Cambriano. Um levantamento paleontológico identificou 26 espécies em cinco seções e propôs seis biozonas para o topo do Ediacarano e uma para o início do Cambriano, comparando a região com Namíbia, Paraguai e China.

O que ainda está em aberto

Ninguém sabe ao certo a que grupo atual Cloudina se liga, nem quão rígida era sua casca. Os furos foram achados em poucos exemplares, de modo que a predação como motor dos esqueletos é uma hipótese apoiada por indícios, e não demonstrada. Também se discute se a extinção registrada entre as formações Tamengo e Guaicurus tem relação com a extinção global do limite Cambriano.

Como sabemos

Idade, local e dados dos furos são bem documentados; a natureza exata de Cloudina e a causa dos furos seguem em debate.

Em debate: Um estudo de 2020 sugeriu que agregados de Cloudina na Namíbia eram formados por tubos pouco ou nada biomineralizados, e outro, também de 2020, propôs que o formato em funil pode ter surgido em linhagens distintas. A análise química dos tubos de Corumbá, por sua vez, aponta calcita.

Fontes

  1. Scientific Reports (PMC) — Ecological interactions in Cloudina from the Ediacaran of Brazil: implications for the rise of animal biomineralization
    consultada em 06/10/2026
  2. Universidade Estadual Paulista (UNESP) — Palaeontological analyses across the Ediacaran-Cambrian boundary, Upper Corumba Group, Brazil
    consultada em 06/10/2026
  3. Frontiers in Earth Science — New species of macroalgae from the Tamengo Formation, Ediacaran, Brazil
    consultada em 06/10/2026
  4. PNAS (PMC) — Three-dimensional reconstructions of the putative metazoan Namapoikia show that it was a microbial construction
    consultada em 06/10/2026
  5. Geology (repositório White Rose) — Multiple branching and attachment structures in cloudinomorphs, Nama Group, Namibia
    consultada em 06/10/2026
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 06/10/2026 — primeira versão

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