Ecologia

Zona Clarion-Clipperton: 5.578 espécies registradas, 88–92% sem nome, e uma contagem ainda longe do fim

Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026

Assuntos: Mar profundo

A lista de verificação de 2023 registra 5.578 espécies de animais do fundo na Zona Clarion-Clipperton, no Pacífico, uma região de 6 milhões de km² visada para mineração. Só 436 têm nome científico; as autoras estimam que 88% a 92% sejam novas para a ciência. Estimadores estatísticos apontam 6.233 a 7.620 espécies, como piso provável.

A Zona Clarion-Clipperton (CCZ) é uma faixa de planície abissal no Pacífico central e leste, regulada pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês). No fundo, a 4.000–5.000 m, há nódulos polimetálicos: concreções do tamanho de uma batata, ricas em manganês, níquel, cobalto e cobre, que crescem poucos milímetros por milhão de anos. Os nódulos são o único substrato duro numa planície de lama, e muitos animais vivem sobre eles. Uma lista de verificação (checklist) reúne todas as espécies já registradas numa região, com dados de dezenas de expedições. Ela mostra o que se sabe, não o que existe.

Quase tudo é novidade

Das 5.578 espécies da lista, só 436 tinham nome científico. A conta é nossa: 436 ÷ 5.578 dá cerca de 8%, ou seja, cerca de 92% de espécies sem nome formal, o mesmo percentual do artigo.

Por que os nódulos importam para quem vive neles

Numa planície de lama, o nódulo é uma das poucas superfícies duras. Em vídeos de ROV de 2015, a epifauna (animais que vivem sobre o fundo) foi mais de duas vezes mais densa onde os nódulos cobriam muito o fundo, e corais alcionáceos e antipatários quase não apareceram onde eles faltavam. Como os nódulos crescem poucos milímetros por milhão de anos, retirá-los remove um substrato que não se repõe em escala humana. Os mesmos autores ressalvam que a identificação por vídeo se limita a grupos amplos, não a espécies.

Como sabemos: de onde vem o número 5.578

O número não vem de uma pesquisa única. É uma lista de verificação: as autoras reuniram o que as expedições, os museus e as publicações já registraram na região, de animais minúsculos a megafauna. Dessa lista, 436 espécies têm nome. Para o resto da contagem, estimadores estatísticos (Chao1 e Chao2) projetam o que ainda não foi visto a partir de quantas espécies aparecem só uma ou duas vezes. O resultado, 6.233 a 7.620, é descrito como limite inferior mais provável, e as próprias autoras dizem que a incerteza é alta e que sinônimos podem inflar a lista.

Por que o número ainda não é um censo

Cada contratante pesquisa a própria área de licença, de modo que a cobertura é desigual. Além disso, a região não é uniforme: ao longo de 5.000 km, a megafauna se divide em duas províncias, separadas por uma transição entre 4.300 e 4.800 m de profundidade. A riqueza se manteve dos dois lados, mas porque grupos inteiros se substituem. Dizer que uma área tem tantas espécies não permite concluir que outra, mais funda ou mais rasa, tenha as mesmas. A contagem de uma lista agregada é um piso, não um retrato do fundo.

O que a mineração mudaria, até onde há dado

Estima-se que haja mais de 21 bilhões de toneladas de nódulos na zona. O único caso de longo prazo na CCZ é um teste de coletor de 1979, reestudado em 2023: quatro décadas depois, os efeitos persistem em muitos grupos, embora algumas populações tenham começado a voltar. Foi um teste pequeno, com equipamento antigo, e os autores notam que coletores atuais podem perturbar menos. Quanto à mineração em escala comercial, não há experimento que a represente, e o que se tem são projeções.

Como sabemos

Os números centrais vêm do resumo do artigo de 2023, cujo texto integral estava bloqueado; o restante vem de três artigos abertos lidos por inteiro.

Fontes

  1. Current Biology — How many metazoan species live in the world's largest mineral exploration region?
    Rabone, M. et al. · 2023 · Artigo científico original · lido só o resumo · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1016/j.cub.2023.04.052
  2. Scientific Reports — Threatened by mining, polymetallic nodules are required to preserve abyssal epifauna
    Vanreusel, A.; Hilario, A.; Ribeiro, P. A.; Menot, L.; Arbizu, P. M. · 2016 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/srep26808
  3. Nature Ecology & Evolution — Carbonate compensation depth drives abyssal biogeography in the northeast Pacific
    Simon-Lledó, E. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41559-023-02122-9
  4. Nature — Long-term impact and biological recovery in a deep-sea mining track
    Jones, D. O. B. et al. · 2025 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1038/s41586-025-08921-3
Histórico de alterações
  • Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 14; conferência de trechos automatizada)

Encontrou um erro? Avise o WikiMundi · Como verificamos