Paleontologia
As cinco grandes extinções em massa: o que as define, quando ocorreram e como são medidas
Publicado em 12/10/2026 · Última alteração em 12/10/2026
Assuntos: Fósseis
Extinção em massa é um intervalo em que a taxa de extinção se destaca da dos intervalos vizinhos, sem limite fixo; muitos citam a perda de mais de 75% das espécies em tempo geologicamente curto. As cinco do registro fóssil marinho são as do fim do Ordoviciano, do Devoniano Superior e do fim do Permiano, do Triássico e do Cretáceo. Para parte das análises estatísticas, porém, elas não se separam da taxa de fundo: formam o topo de um contínuo.
Extinção de fundo é o ritmo normal de desaparecimento de espécies entre as crises. Para achar as grandes crises, paleontólogos contam quantos gêneros de animais marinhos (grupos de espécies aparentadas, como o gênero Homo) têm sua última aparição fóssil em cada intervalo de tempo geológico, o estágio, e comparam intervalos. Os dados vêm de compêndios de Sepkoski e do Paleobiology Database. Como o registro fóssil é incompleto, os valores são estimativas, mais seguras para animais marinhos com partes duras do que para outros grupos.
Cinco são cinco por convenção
Não há teste estatístico que separe cinco eventos dos demais: depende da escala de tempo e dos intervalos comparados. Por isso há quem proponha chamar a crise atual de "extinção em massa incipiente" em vez de "sexta".
Como sabemos: contar gêneros por intervalo
A intensidade de uma extinção é medida em gêneros fósseis cujo último registro cai em cada intervalo geológico. A conversão para perdas de espécies é indireta e sem método plenamente seguro: para o fim do Permiano, estimativas foram de até 96% e uma análise mais recente deu 81%. O quadro geral é robusto, mas em resolução grosseira e só para grupos bem preservados.
O problema do relógio: estágios longos diluem crises curtas
Um estágio pode durar milhões de anos e uma crise, dezenas de milhares. No fim do Triássico, a crise anóxica teria durado cerca de 50 mil anos num estágio de até 7 milhões; a taxa real seria perto de 100 vezes maior que a calculada. Comparar taxas entre eventos exige, portanto, saber a duração de cada um.
Por que cinco, e não quatro ou oito
As cinco foram escolhidas por se destacar na análise de Raup e Sepkoski, mas hoje não se distinguem estatisticamente do restante: formam um contínuo. Continuam sendo os cinco maiores desde o início do Ordoviciano. A cifra de 75% das espécies descreve os intervalos já escolhidos; não serve para escolhê-los, e só o fim do Permiano a ultrapassaria no recálculo de Stanley.
E a época atual
Pelo critério de uma extinção em massa como perda de mais de 75% das espécies, a crise atual ainda não chegou lá. A revisão de Marshall avalia que a taxa é uma das mais altas já vividas, mas o número absoluto de extinções é pequeno. Os números e as divergências entre autores estão no artigo sobre a sexta extinção.
Como sabemos
A identidade das cinco e os problemas de medida vêm de uma revisão lida no texto integral; datas e causas por evento vêm de estudos pontuais, e os números por evento são estimativas.
Em debate:
- Consenso científico: Em 1982, Raup e Sepkoski identificaram cinco episódios de extinção elevada no registro fóssil marinho, que passaram a ser chamados de "Big Five" (as cinco grandes). [1] Introduction
Contexto: Análise de dados de animais marinhos compilados por Sepkoski; o ano vem da citação na revisão. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: As cinco são as do fim do Ordoviciano, do Devoniano Superior, do fim do Permiano, do fim do Triássico e do fim do Cretáceo, e não há desacordo sobre quais são. [1] Introduction
Contexto: Registro fóssil de animais marinhos do Fanerozoico. · Limitações: Não há acordo sobre quais outros intervalos deveriam contar como extinção em massa; o consenso é só sobre a identidade desses cinco. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Uma extinção em massa é um intervalo em que a taxa de extinção se destaca da dos intervalos vizinhos, sem limite fixo. A cifra de mais de 75% das espécies, muito citada, é uma caracterização feita depois, sobre intervalos já reconhecidos por outros critérios. [1] Estimating species-level extinction intensity
Contexto: Definição discutida em paleontologia marinha. · Limitações: A revisão diz que a definição é difusa; outros autores adotam o limiar de 75% como definição. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: Se o recálculo de Stanley (2016) para as perdas de espécies das cinco estiver correto, só a extinção do fim do Permiano passaria do limiar de 75%. [1] Estimating species-level extinction intensity
Contexto: Conversão de perdas de gêneros em perdas de espécies por rarefação. · Limitações: Depende de um cálculo específico e da conversão de gêneros em espécies, que não tem método plenamente seguro. · Cálculo de terceiros relatado pela revisão; não refeito por nós. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: No fim do Permiano, a perda de gêneros marinhos foi estimada entre 56% e 69% e a de espécies em 81% pela análise de Stanley; estimativas mais antigas chegavam a 96%. [1] Estimating species-level extinction intensity
Contexto: Animais marinhos fossilizáveis; a intensidade é medida em gêneros e convertida em espécies. · Limitações: Não há forma plenamente segura de converter gêneros em espécies; os valores variam com o método e a resolução dos estágios. · Não há forma plenamente segura de converter gêneros em espécies; os valores variam com o método e a resolução dos estágios. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: As cinco grandes não se distinguem estatisticamente da taxa de fundo: há um contínuo de intensidades, da maior à menor, e escolher exatamente cinco é, em retrospecto, algo arbitrário. Ainda assim, são os cinco maiores eventos desde o início do Ordoviciano. [1] Abstract
Contexto: Dados de gêneros marinhos do Fanerozoico. · Limitações: Quando a comparação se restringe ao período posterior ao início do Ordoviciano, alguns eventos ainda se destacam como distintos; intervalos do Cambriano e do início do Ordoviciano tiveram taxas ainda maiores. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A intensidade é medida em gêneros fósseis por intervalo geológico (estágio ou subestágio) e só depois, com cautela, convertida em perdas de espécies. A revisão julga o padrão geral robusto, mas em resolução temporal grosseira e só para grupos bem preservados. [1] Introduction
Contexto: Compêndios de Sepkoski e Paleobiology Database; animais marinhos com partes duras. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Como o intervalo de medida (o estágio) pode durar milhões de anos e a crise só dezenas de milhares, a taxa real pode ser bem maior que a calculada: no fim do Triássico, a crise anóxica durou cerca de 50 mil anos num estágio de até 7 milhões de anos, e a taxa real seria cerca de 100 vezes maior. [1] Temporal resolution
Contexto: Exemplo do último estágio do Triássico, usado pela revisão para ilustrar o problema. · Limitações: Vale para esse caso; a razão é ordem de grandeza, não medição direta. A duração de até 7 milhões de anos do estágio é atribuída pela revisão a Caruthers et al. (2022). · Vale para esse caso; a razão é ordem de grandeza, não medição direta. A duração de até 7 milhões de anos do estágio é atribuída pela revisão a Caruthers et al. (2022). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Estimativa: Segundo a revisão de Marshall, a taxa atual de extinção está entre as mais altas já vividas pela biosfera, talvez a segunda depois do impacto do fim do Cretáceo, mas o número absoluto de extinções ainda é relativamente pequeno. [1] Abstract
Contexto: Comparação entre a taxa atual e as do registro fóssil, que exige cuidado por envolver escalas de tempo diferentes. · Limitações: Avaliação de uma revisão; outras estimativas atuais variam muito (ver o artigo sobre a sexta extinção). · Avaliação de uma revisão, não medição própria. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A extinção do fim do Ordoviciano removeu cerca de 75% das espécies de animais, foi a primeira das cinco e a primeira a atingir a vida animal nos oceanos, e coincidiu com uma grande glaciação; a maioria dos especialistas a situa entre 445 e 443 milhões de anos atrás. [3] Texto principal
Contexto: Animais marinhos do Ordoviciano Superior. · Limitações: A cifra de 75% é estimativa, como toda perda de espécies fósseis. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: Há evidências acumuladas de um possível gatilho vulcânico para a glaciação e a extinção do fim do Ordoviciano, mas a causa ainda não está estabelecida. [3] Resumo em destaque
Contexto: Ordoviciano Superior, estágio Hirnantiano. · Limitações: Causa debatida; o gatilho vulcânico é possibilidade. · Tratada como hipótese: a própria revisão diz que a busca pela causa foi difícil. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A extinção do Devoniano Superior costuma ser dividida em dois eventos, o do fim do Frasniano e o do fim do Devoniano, separados por cerca de 12 milhões de anos; o limite Frasniano-Famenniano tem idade de cerca de 372 milhões de anos. [2] Introdução [4] Resumo
Contexto: Idade obtida em camada de cinza vulcânica (bentonita) na Alemanha, por datação U-Pb de zircões. · Limitações: A idade vem de uma camada local e do limite estratigráfico, não da duração da crise. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Incerto: A causa do evento do fim do Frasniano segue sem demonstração: a datação mais precisa não mostra correlação com o impacto de Siljan nem com basaltos de grandes erupções. [4] Resumo
Contexto: Comparação de idades publicadas para a extinção, a cratera de Siljan e basaltos de grande volume. · Limitações: Os autores pedem mais datações do Devoniano Superior; a falta de correlação nas idades atuais não exclui causas ainda não datadas. · Os autores pedem mais datações do Devoniano Superior; a falta de correlação nas idades atuais não exclui causas ainda não datadas. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A extinção do fim do Triássico ocorreu por volta de 201,5 milhões de anos atrás; a principal hipótese para a causa é a intrusão de magmas da Província Magmática do Atlântico Central em sedimentos ricos em carbono. [5] Resumo
Contexto: Idades U-Pb de zircões em intrusões do nordeste do Brasil e do Canadá, comparadas com o tempo da extinção. · Limitações: A relação causal entre a província magmática e a extinção ainda é debatida na literatura citada pelos autores. · A data é fato; a causa é a hipótese principal, não fato. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: A extinção do fim do Cretáceo ocorreu há cerca de 66 milhões de anos e coincide com o impacto de Chicxulub: a idade da cratera coincide exatamente com a da crise, enquanto as erupções dos Deccan começaram cerca de 250 mil anos antes, o que torna incerto o papel delas. [2] Evidence for LIP triggers [6] Introduction
Contexto: Data e coincidência entre a crise, a cratera do México e a província vulcânica da Índia. · Limitações: A contribuição do vulcanismo dos Deccan é objeto de debate; a data de 66 Ma é arredondada. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Cambridge Prisms: Extinction — Forty years later: The status of the "Big Five" mass extinctions
Marshall, C. R. · 2023 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1017/ext.2022.4 - National Science Review — Theory and classification of mass extinction causation
Algeo, T. J.; Shen, J. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/nsr/nwad237 - National Science Review — Late Ordovician Mass Extinction: Earth, fire and ice
Harper, D. A. T. · 2024 · Revisão ou síntese científica · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1093/nsr/nwad319 - Scientific Reports — Precisely dating the Frasnian-Famennian boundary: implications for the cause of the Late Devonian mass extinction
Percival, L. M. E. et al. · 2018 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-018-27847-7 - Scientific Reports — New U-Pb geochronology for the Central Atlantic Magmatic Province, critical reevaluation of high-precision ages
Oliveira, A. L. et al. · 2023 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1038/s41598-023-32534-3 - Science Advances — The Nadir Crater offshore West Africa: A candidate Cretaceous-Paleogene impact structure
Nicholson, U.; Bray, V. J.; Gulick, S. P. S.; Aduomahor, B. · 2022 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 12/10/2026 DOI 10.1126/sciadv.abn3096
Histórico de alterações
- Versão 1 · 12/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 6; conferência de trechos automatizada)