História da Ásia
O Cilindro de Ciro anuncia a volta de povos e deuses levados à Babilônia; chamá-lo de carta de direitos humanos é contestado
Publicado em 05/10/2026 · Última alteração em 05/10/2026
Em 539 a.C., depois de tomar a Babilônia, o rei persa Ciro mandou gravar em argila, em cuneiforme babilônico, a versão oficial da conquista. O texto diz que o deus Marduk escolheu Ciro, que ele entrou na cidade sem batalha, que estátuas de deuses voltaram a seus templos e que povos deportados voltaram para casa. Hoje ele é às vezes chamado de primeira carta de direitos humanos, leitura que especialistas rejeitam como anacrônica.
O cilindro foi encontrado em 1879, numa escavação do Museu Britânico na Babilônia, no atual Iraque. Segundo Hormuzd Rassam, que dirigia os trabalhos, ele estava ao sul do morro de Amran ibn Ali, enterrado como depósito de fundação, um costume mesopotâmico para inscrições reais. Está quebrado, falta pouco mais de um terço, e desde então fica em Londres. O texto ataca Nabonido, o último rei babilônico, e apresenta Ciro como o libertador escolhido por Marduk. Dois fragmentos de uma tábua com o mesmo texto, identificados no próprio Museu Britânico, mostram que a proclamação circulou em mais de uma cópia. Nem todos contam a conquista assim: Heródoto e Xenofonte descrevem uma Babilônia que resistiu e só caiu depois de luta.
Os judeus não aparecem no texto
O cilindro não cita os judeus nem Jerusalém. A ligação vem da Bíblia: o Livro de Esdras guarda, em hebraico e em aramaico, um edito de Ciro autorizando a volta dos exilados e a reconstrução do Templo. Por isso, quando o cilindro apareceu em 1879, foi recebido como prova de que o relato bíblico tinha base histórica.
O que o texto diz
Ciro se apresenta como filho de Cambises e neto de Ciro, reis de Anshan. Marduk o teria escolhido para governar com justiça e feito entrar na Babilônia sem batalha, e o povo o teria recebido com alegria. Depois vêm as medidas: estátuas de deuses que Nabonido levara para a capital voltam a seus templos, como as de Susa e do norte da Mesopotâmia; templos são reconstruídos; povos deportados voltam para casa. O texto ainda fala em reforçar a muralha interna da cidade e concluir um cais de tijolos.
Um molde antigo
A forma de cilindro era a das inscrições reais enterradas nas fundações de muralhas e edifícios mesopotâmicos. O escriba babilônico atribuiu a vitória a Marduk, e o Smithsonian nota que declarações desse tipo não eram incomuns na época. Na Encyclopaedia Iranica, Muhammad Dandamayev descreve uma propaganda coordenada pela administração persa, que mostrava Ciro como libertador e Nabonido como inimigo dos deuses. Outros textos babilônicos, porém, condenam Ciro.
Carta de direitos humanos?
Em 1971, o Irã do xá deu à ONU uma réplica do cilindro, feita pelo Museu Britânico; a princesa Ashraf Pahlavi a entregou a U Thant falando em herança de tolerância e liberdade. Museus ainda registram que o cilindro é às vezes chamado de primeira carta de direitos humanos. O assiriólogo Irving Finkel, do Museu Britânico, a rejeita: não havia direitos humanos na Antiguidade, e o texto só quer restaurar a paz. Ele admite, no entanto, que o objeto virou símbolo de justiça.
De Babilônia a Londres, e de volta ao Irã
O cilindro foi achado em 1879 numa escavação do Museu Britânico na Babilônia e levado para Londres, onde está até hoje. Quebrou-se na descoberta ou logo depois, e falta pouco mais de um terço. Um fragmento guardado em Yale, identificado em 1971, aparece como molde colado ao original. Em 2010, o museu o emprestou ao Museu Nacional do Irã, onde ficou até 2011 e foi visto por meio milhão a mais de 1 milhão de pessoas. Em 2013, percorreu cinco museus dos EUA.
Como sabemos
Descrição do objeto, achado e conteúdo vêm do Met e do Museu Britânico (via exposição de 2013) e da Encyclopaedia Iranica; o debate sobre direitos humanos está marcado como controverso e o número de visitantes em Teerã aparece como faixa.
Em debate: Leitura moderna: o cilindro é às vezes chamado de primeira carta (ou declaração) de direitos humanos, e o Irã o apresentou assim à ONU em 1971. Assiriólogos como Irving Finkel, do Museu Britânico, rejeitam a expressão como anacrônica: o texto é uma proclamação real no molde babilônico, que legitima o novo rei e fala em restaurar a ordem, não em direitos de indivíduos. O próprio Finkel reconhece que o objeto virou símbolo de tolerância e justiça.
Em debate: Como a Babilônia caiu: o cilindro e outros textos babilônicos falam numa entrada sem batalha e numa população que recebeu Ciro com alegria; Heródoto e Xenofonte descrevem resistência e luta. Parte dos textos babilônicos favoráveis a Ciro é vista pelos historiadores como propaganda coordenada pela administração persa.
- Consenso científico: O Cilindro de Ciro foi inscrito em cuneiforme babilônico por ordem de Ciro, o Grande, depois que ele tomou a Babilônia em 539 a.C.; os museus o datam de 539–538 a.C. [2] [4]
- Fato estabelecido: O cilindro é de argila cozida. [2] [4]
- Fato estabelecido: O texto diz que Marduk ordenou a Ciro avançar contra a Babilônia e o fez entrar na cidade sem batalha e sem dano, e que o povo o recebeu com alegria. [1]
É o que a inscrição afirma, não uma descrição neutra dos fatos. - Fato estabelecido: Segundo o cilindro, as estátuas de deuses que Nabonido levara para a Babilônia voltaram aos seus santuários, assim como estátuas de deuses de Susa e do norte da Mesopotâmia, e templos arruinados foram reconstruídos. [1] [2]
- Fato estabelecido: O cilindro registra que Ciro permitiu que povos deportados voltassem para suas terras. [1] [2] [4]
- Fato estabelecido: O texto do cilindro critica Nabonido, o último rei babilônico, e atribui a vitória de Ciro ao deus Marduk. [1] [3]
- Fato estabelecido: No cilindro, Ciro se apresenta como filho de Cambises e neto de Ciro, reis de Anshan, e diz que todos os reis do Mar Superior ao Mar Inferior lhe levaram tributo na Babilônia. [1]
- Fato estabelecido: O texto menciona o reforço da muralha interna da Babilônia (Imgur-Enlil) e a conclusão de um cais de tijolos cozidos. [2]
- Fato estabelecido: O cilindro foi encontrado em 1879 na Babilônia, no atual Iraque, numa escavação feita em nome do Museu Britânico; segundo Hormuzd Rassam, que supervisionava os trabalhos, ao sul do morro de Amran ibn Ali. [2] [4]
- Consenso científico: O cilindro foi enterrado como depósito de fundação; a forma cilíndrica era típica das inscrições reais enterradas nas fundações de edifícios e muralhas na Mesopotâmia do primeiro milênio a.C. [2]
- Fato estabelecido: O cilindro quebrou na descoberta ou logo depois, é formado por vários pedaços colados e falta pouco mais de um terço; um pequeno fragmento da Universidade Yale, identificado em 1971, está representado por um molde fixado ao cilindro. [2]
- Fato estabelecido: Dois fragmentos identificados no Museu Britânico pertencem a uma tábua com o mesmo texto do cilindro, o que mostra que ele não era único; um deles traz o nome do escriba, Qishti-Marduk ou talvez Iqish-Marduk. [2]
- Em debate: Heródoto e Xenofonte relatam que os babilônios resistiram a Ciro e que a capital só foi tomada depois de luta. [1]
As fontes babilônicas (o cilindro e textos da mesma época) falam em entrada sem batalha; os autores gregos, em resistência. A Iranica registra as duas versões sem decidir. - Interpretação: Textos babilônicos da época, coordenados pela administração persa, apresentavam Ciro como libertador e Nabonido como inimigo dos deuses; em alguns outros textos babilônicos, Ciro é condenado e Nabonido glorificado. [1]
Leitura de M. A. Dandamayev na Encyclopaedia Iranica, com base em W. von Soden (1983). - Consenso científico: O cilindro não menciona os judeus; pensa-se que a volta dos judeus a Jerusalém para reconstruir o Templo ocorreu nessa época, como registra a Bíblia, e o Livro de Esdras guarda duas versões de um edito de Ciro sobre isso, uma em hebraico e outra em aramaico. [1] [2]
- Fato estabelecido: Quando foi redescoberto, em 1879, o cilindro foi recebido como prova da veracidade de acontecimentos descritos na Bíblia. [3]
- Em debate: O cilindro é às vezes chamado de primeira carta de direitos humanos, por mencionar a volta de povos deportados e a liberdade de culto. [3] [4] [5]
Os museus que expuseram o cilindro registram a expressão como algo que se diz ('sometimes referred to'); o assiriólogo Irving Finkel, do Museu Britânico, rejeita a ideia porque não havia direitos humanos na Antiguidade. - Interpretação: Segundo o material da exposição do Smithsonian, declarações desse tipo não eram incomuns entre reis da época, e o escriba que gravou o cilindro atribuiu a vitória de Ciro a Marduk, no que pode ser visto como propaganda real e religiosa. [3]
Avaliação do Smithsonian no comunicado da exposição de 2013. - Interpretação: Irving Finkel disse que não havia direitos humanos na Antiguidade e que a única preocupação do cilindro era restaurar a paz; também reconheceu que o objeto se tornou um símbolo de direitos humanos. [5]
Opinião de um especialista, relatada pelo Museu Peabody de Yale. - Fato estabelecido: Em 14 de outubro de 1971, a princesa Ashraf Pahlavi, irmã do xá do Irã, entregou ao secretário-geral da ONU, U Thant, uma réplica do cilindro feita pelo Museu Britânico, que segue exposta na sede da ONU em Nova York. [6]
- Estimativa: O Museu Britânico emprestou o cilindro ao Irã em 2010; a exposição em Teerã foi de 2010 a 2011 e teve entre cerca de meio milhão e mais de 1 milhão de visitantes, conforme a fonte. [3] [4]
O Asian Art Museum fala em cerca de meio milhão de pessoas na exposição de 2010–2011; o Smithsonian, em mais de 1 milhão. O texto usa a faixa. - Fato estabelecido: Em 2013, o cilindro fez sua primeira viagem aos Estados Unidos, passando pela Galeria Sackler (Smithsonian), em Washington, e por museus de Houston, Nova York, São Francisco e Los Angeles. [2] [3] [4]
- Fato estabelecido: O cilindro está no Museu Britânico, em Londres, onde é estudado há mais de 130 anos. [2] [4]
Fontes
- Encyclopaedia Iranica (Columbia University) — CYRUS iii. Cyrus II The Great
consultada em 05/10/2026 - The Metropolitan Museum of Art — The Cyrus Cylinder and Ancient Persia: Charting a New Empire (exposição, 2013)
consultada em 05/10/2026 - Smithsonian's National Museum of Asian Art (Freer|Sackler) — 2,600 Years of World History in One Iconic Object
consultada em 05/10/2026 - Asian Art Museum de São Francisco — The Cyrus Cylinder and Ancient Persia: A New Beginning
consultada em 05/10/2026 - Yale Peabody Museum — "Superstar" Assyriologist Dispels Myths About Cyrus Cylinder
consultada em 05/10/2026 - Nações Unidas (UN Gifts) — Replica of "Edict of Cyrus"
consultada em 05/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 2 · 05/10/2026 — primeira versão
- Versão 1 · 05/10/2026 — primeira versão