Fenômenos naturais
Ciclone-bomba: o que é a queda de 24 hPa em 24 h e por que o limite muda com a latitude
Publicado em 13/10/2026 · Última alteração em 13/10/2026
Ciclone-bomba, ou ciclogênese explosiva, é um ciclone de latitudes médias em que a pressão central despenca: pelo critério de Sanders e Gyakum, pelo menos 24 hPa em 24 horas a 60° de latitude, valor que diminui em latitudes menores. Por isso se usa uma taxa normalizada, em unidades Bergeron (B), que precisa chegar a 1. No Atlântico Sul, a queda ocorre sob a saída de um jato de altitude.
Pressão atmosférica é o peso do ar sobre um ponto; baixas pressões no centro de um ciclone indicam sistema intenso, e queda rápida indica intensificação rápida. O ciclone-bomba é um ciclone extratropical comum, que ganha energia do contraste de temperatura entre massas de ar (veja o post sobre o ciclone extratropical), mas com aprofundamento muito acelerado. O termo vem da meteorologia: Sanders e Gyakum chamaram esses casos de bombas meteorológicas em 1980. Aqui interessa o critério quantitativo, o ambiente em altitude que o favorece e o que se sabe do Atlântico Sul.
A mesma queda vale menos no sul
Com os mesmos 24 hPa em 24 h, um ciclone a 53°S teve taxa de 1,08 B, e outro a 38,5°S teve 1,39 B. A latitude menor pesa a favor: o limite cai de 24 hPa a 60° para cerca de 17,8 hPa perto de Nova York.
O critério: 24 hPa a 60°, normalizado pela latitude
Um ciclone é explosivo quando a pressão central cai pelo menos 24 hPa em 24 h a 60° de latitude. Para comparar latitudes diferentes, divide-se a queda por 24 h e multiplica-se por sen 60° / sen φ, onde φ é a latitude média do aprofundamento. O resultado, em unidades Bergeron (B), precisa chegar a 1. Perto de Nova York, a NOAA dá cerca de 17,8 hPa. Avila e colegas ainda separam fraco, moderado e forte (1,0, 1,3 e 1,8 B).
Por que explode: jato, tropopausa e contraste térmico
No Atlântico Sul, os seis casos estudados nasceram sob a saída de um núcleo de vento forte do jato, onde o ar em altitude diverge e puxa ar para cima, aprofundando a baixa na superfície. Nos casos fortes, uma dobra da tropopausa trouxe ar seco da estratosfera, visível no vapor d'água do satélite, e o contraste entre massas de ar (baroclinicidade) foi o principal mecanismo. A NOAA lembra o encontro de ar frio com ar quente sobre águas oceânicas quentes.
Como sabemos: reanálise, inspeção de mapas e seus limites
Avila e colegas usaram a reanálise MERRA-2 da NASA, que reconstrói a atmosfera a cada 6 h numa grade de 0,5° por 0,66°, e imagens de vapor d'água do satélite GOES-13. Os ciclones foram detectados por inspeção direta dos mapas de pressão ao nível do mar e pela equação da taxa. Limites: reanálise não é medida direta no centro de um ciclone no oceano, onde faltam observações, e seis casos descrevem, mas não provam, o mecanismo para todos.
No Sul do Brasil: junho de 2020 e a frequência do fenômeno
O INMET relata que, entre 29 e 30 de junho de 2020, um ciclone extratropical se aprofundou já sobre o continente, com queda de 1020 para 996 hPa em Florianópolis e ventos de até 120 km/h no Sul. O órgão diz haver pelo menos um ciclone-bomba por ano na costa atlântica da América do Sul; Avila e colegas contaram 152 em cinco anos num domínio amplo do Atlântico Sul. A diferença de método explica parte da diferença de números.
Como sabemos
Critério e mecanismo sustentados por artigo revisado por pares e por páginas oficiais; o caso brasileiro depende de nota técnica do INMET e a fórmula tem uma discrepância de impressão que resolvemos por cálculo.
- Consenso científico: O critério original de ciclone-bomba, de Sanders e Gyakum (1980), é uma queda da pressão central de pelo menos 24 hPa (1 hPa por hora) em 24 horas, na latitude de 60°. [1] Introduction [2] Texto da página
Contexto: Ciclones extratropicais (de latitudes médias); 24 hPa = 24 mbar. · Limitações: A definição é uma referência, não um limiar físico: o ciclone que cai 23 hPa não difere em natureza do que cai 24 hPa. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O limite depende da latitude: a taxa de aprofundamento é normalizada em unidades Bergeron (B) e o ciclone é explosivo quando chega a pelo menos 1 B; em latitudes menores que 60° basta uma queda menor que 24 hPa (cerca de 17,8 hPa na latitude de Nova York, segundo a NOAA). [1] Introduction [2] Texto da página
Contexto: Definição de uso em meteorologia sinótica. · Limitações: A equação impressa no artigo de Avila et al. (2021) traz o fator de latitude escrito de modo que não reproduz os próprios resultados do artigo; usamos a forma coerente com a NOAA e com os números do artigo (Δp/24 h × sen 60°/sen φ). Verificação nossa. · Fórmula escrita no texto: cálculo nosso, coerente com NOAA (17,8 hPa a ~40°) e com os casos de Avila et al. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Com os mesmos 24 hPa em 24 h, o resultado muda com a latitude: um caso a 53°S teve taxa de 1,08 B (fraco) e outro a 38,5°S teve 1,39 B (moderado), em eventos do Atlântico Sul. [1] Resultados, caso de julho de 2012
Contexto: Dois dos seis casos comparados por Avila et al. (2021), com dados de reanálise MERRA-2. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Avila e colegas classificam a intensidade pela taxa: fraco de 1,0 a 1,3 B, moderado de 1,3 a 1,8 B e forte a partir de 1,8 B; o caso forte de janeiro de 2014 caiu 42 hPa em 24 h, a 46° de latitude média, e teve 2,1 B. [1] Resultados, caso forte de 2014
Contexto: Classes citadas por Avila et al. a partir de Sanders (1986). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: O desenvolvimento desses ciclones no Atlântico Sul resulta sobretudo da baroclinicidade da região, isto é, do contraste de temperatura entre massas de ar, e da amplitude da perturbação da corrente de jato em altitude; a queda de pressão ocorre sob a região de saída de um núcleo de vento forte do jato (jet streak). [1] Resultados
Contexto: Seis casos (verão de 2014 e inverno de 2012) no Atlântico Sul. · Limitações: Amostra de seis casos; os autores fazem análise de casos, não um teste estatístico. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Evidência forte: Nos casos mais intensos, uma anomalia da tropopausa dinâmica (ar de origem estratosférica, seco, descendo em dobra) é mais proeminente e os movimentos verticais são mais fortes; a imagem de vapor d'água de satélite mostra essa intrusão de ar seco como uma faixa escura e estreita. [1] Introdução
Contexto: Casos fortes, fracos e moderados de Avila et al. (2021). · Limitações: Associação observada em seis casos; não prova que a anomalia seja a causa única. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Segundo a NOAA, a bombogênese pode ocorrer quando uma massa de ar frio encontra uma massa de ar quente, como o ar sobre águas oceânicas quentes. [2] Texto da página
Contexto: Explicação de divulgação institucional (NOAA National Ocean Service). · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Hipótese: O papel dos fluxos de calor sensível e latente da superfície do mar no processo de ciclogênese foi apontado como importante por alguns autores citados por Avila et al.; é uma contribuição em debate, não parte do critério. [1] Introdução
Contexto: Citado de segunda mão: Avila et al. citam Piva et al. (2011) e Pezzi et al. (2016), que não lemos. · Segundo Avila et al., outros autores sugerem; fonte secundária, escrita como hipótese. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: Segundo Sanders e Gyakum (1980), citados por Avila e colegas, esses ciclones produzem muita chuva, ventos fortes, ondas altas e baixa visibilidade, e estão entre os eventos mais severos para regiões costeiras de alta densidade demográfica. [1] Introdução
Contexto: Descrição geral; a intensidade varia caso a caso. · Limitações: Fonte de segunda mão: lemos Avila et al., não Sanders e Gyakum. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: São de previsão difícil por causa do aprofundamento muito rápido da pressão central, da falta de observações meteorológicas sobre o oceano e do conhecimento limitado dos fatores dinâmicos e termodinâmicos que determinam sua ocorrência. [1] Introdução
Contexto: Afirmação dos autores sobre o Atlântico Sul, em 2021. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: Em cinco anos (2012 a 2016), Avila e colegas acharam 152 casos de ciclogênese explosiva no Atlântico Sul e leste da América do Sul, mais do que os 144 de um estudo anterior em 54 anos; houve mais casos no inverno, com pico em agosto, e em média dois casos fortes por ano. [1] Resultados
Contexto: Domínio de 0° a 70°S e de 90°W a 0°, reanálise MERRA-2 a cada 6 h, 2012 a 2016. · Limitações: A diferença entre 152 e 144 vem em parte do método (inspeção direta dos mapas, grade mais fina); não é prova de aumento de frequência. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: No caso de 30 de junho de 2020, o INMET registrou queda exata de 24 hPa em 24 h no aeroporto de Florianópolis, de 1020 para 996 hPa, e chamou a situação de rara. [3] Nota técnica, parágrafo da pressão
Contexto: Pressão medida em uma estação, não a pressão do centro do ciclone. · Limitações: A queda numa estação fixa mistura o aprofundamento do ciclone com a sua passagem; não é a taxa de aprofundamento do centro. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Consenso científico: O INMET atribuiu o ciclone de junho de 2020 ao forte contraste entre ar quente ao norte e frio ao sul, com perturbação dos ventos e um cavado em níveis médios e altos; a diferença para outros casos foi que ele se aprofundou sobre o continente, e não sobre o oceano, e o órgão diz haver pelo menos um ciclone-bomba por ano na costa atlântica da América do Sul. [3] Nota técnica
Contexto: Sul do Brasil, 29 de junho a 1º de julho de 2020. · Limitações: A nota técnica do INMET é descrição operacional, não artigo revisado por pares. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Fato estabelecido: O INMET relata ventos destrutivos de até 120 km/h no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná em 30 de junho de 2020, e rajadas de 116 km/h em Santa Vitória do Palmar (RS) na madrugada de 1º de julho. [3] Nota técnica
Contexto: Estações e relatos citados pelo INMET. · Limitações: Números de mortes e prejuízos não constam da fonte lida e ficam de fora. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada - Interpretação: Pela fórmula normalizada, a cerca de 28°S (latitude de Florianópolis) o mínimo para ser explosivo é de aproximadamente 13 hPa em 24 h, não 24 hPa; a queda de 24 hPa na estação de Florianópolis, se fosse a do centro, daria cerca de 1,8 B. [2] Texto da página [3] Nota técnica
Contexto: Ilustração aritmética, não classificação oficial do caso. · Limitações: Cálculo nosso: 24 × sen 28° / sen 60° ≈ 13 hPa e (24/24) × sen 60° / sen 28° ≈ 1,84 B, com latitude aproximada de 28°S assumida por nós; o INMET não calculou a taxa. · Cálculo nosso; latitude de Florianópolis aproximada e não vinda da fonte. · Conferida na fonte (texto integral), conferência automatizada
Fontes
- Anais da Academia Brasileira de Ciências — Comparing explosive cyclogenesis cases of different intensities occurred in Southern Atlantic
Avila, V. D.; Nunes, A. B.; Alves, R. C. M. · 2021 · Artigo científico original · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 DOI 10.1590/0001-3765202120190157 - NOAA, National Ocean Service — What is bombogenesis?
NOAA National Ocean Service · s.d. · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026 - Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) — "Ciclone bomba": fenômeno atingiu o Sul do Brasil no início da semana
INMET · 2020-07-02 · Documento institucional · lida na íntegra · consultada em 13/10/2026
Histórico de alterações
- Versão 1 · 13/10/2026 — Primeira versão (produção 1.000, lote 12; conferência de trechos automatizada)